quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AS BODAS DE DOM FUAS CABEÇA D’ALHO CHOCHO

Reino dos Pássaros sem Asas, aos vinte dias do bem-aventurado duodécimo mês do nascimento do mais belo infante do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito, a Vossa Majestade nosso soberano por vontade e graça de Deus Nosso Senhor, saúde.
Dando cumprimento a Vossa sábia e bondosa vontade, se encontra este, por Vossa especial mercê e deferência, cronista mor do referido reino, a relatar humildemente os extraordinários eventos por ele presenciados, aos dezasseis dias do supracitado mês, neste bendito reino do Vosso Império e de que foi feliz protagonista Vosso muito merecidamente amado Príncipe e nosso Regente, Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho. Saberá Vossa Majestade que correram de feição as bodas e subsequentes ritos nupciais de Dom Fuas com Dona Urraca Pernalonga e Pé d’Estaca, em boa hora Ícara caída sem passarola nos braços de Vosso amado pimpolho e por ele levada ao altar, salvo seja, em cerimónia mui digna e plena de requintes exótico-futuristas tão do agrado destes servos do Vosso humilde reino. Após um dia de intensos preparativos, (consta que o enxoval da noiva valerá o equivalente a seiscentas vacas paridas e acompanhadas de suas imberbes crias) onde a arregimentação dos necessários bobos e damas de companhia não foi tarefa de somenos, começaram as cerimónias com um frugal banquete, onde foram consumidos cem alqueires de pão centeio, trezentas e cinquenta galinhas de cinco anos, quatrocentos e trinta e sete ovos, mil e quinhentos quilos de batata, setenta e oito litros de azeite, duzentas e vinte e três cabeças de alho, oitocentos e trinta bacalhaus de quilo e meio que perfazem um total de mil duzentos e quarenta e cinco quilos de bacalhau, quinhentas e vinte e quatro maçarocas de milho, três mil trezentas e seis couves-galegas e outras quantidades menores de mistelas de condimentação, noventa e cinco barris de quatro almudes de vinho tinto da região e três pipas de aguardente. Foi assim que, por vontade expressa de Vosso mui economizado e previdente filho, os mais de cinquenta nobres convidados fizeram uma espartana, mas fidalga e deliciosa refeição. No fim da qual dita cuja refeição foram entoadas loas e cantigas, (uma delas mesmo muito aplaudida, por sinal de Vosso ilustríssimo antepassado Dom Denis) por todos os convivas que assim manifestaram a Dom D’Alho Chocho a sua gratidão. Saiba Vossa Majestade que a vossa oposição aqui no Reino, não passando de uns quatro gatos-pingados pagos e manteúdos por um zé-ninguém, embora o nome dele não seja do nosso conhecimento, teve a aleivosia de afirmar que tão maravilhoso canto, digno da corte de uma Flandres ou de uma Florença, não passava de um “mal ritmado e monocórdico uivar de cães esfaimados”, ou, mais simplesmente, um “escaqueirar de pratos de sobremesa”, já que, como é do conhecimento público, tem o estalajadeiro desta região o infeliz, mas quiçá bem intencionado, hábito de oferecer umas sobremesas que se assemelham àquelas comidas bárbaras muito apreciadas pelos seus vossos mais indignos súbditos que habitam as rudes terras d’África e cuja degustação provoca no ser humano normal a inevitável e irreprimível vontade de escaqueirar o prato, sim, mas nos cornos do estalajadeiro, desculpe-me Vossa Majestade, mas é assim mesmo, pois só de “samica de caganeira”, como diria o nosso grande mestre Gil Vicente, padeceram durante quinze dias por sua conta dela a sobremesa nada mais nada menos que todos os convivas que com ela se deliciaram. Infelizmente, Dom D’Alho e Dona Pé d’Estaca não quiseram causar grande estrago no amor-próprio não deles mas do estalajadeiro e raparam até à última molécula o cálice da samica. Também disso se aproveitou o grupelho oposicionista para propalar a infame teoria de que o que rangia, durante a noite, no palácio de Dom Fuas, não era propriamente o leito nupcial, mas sim aquilo que Vossa Majestade tem na cabeça e que eu por decoro me abstenho de mencionar. Como podereis calcular, não terminariam aqui os cerimoniais, pois que apesar de a maior parte dos convivas terem regressado a seus deles lares, achou por bem Vosso ínclito rebento, Dom D’Alho, fazer-se acompanhar dos seus mais devotos bobos e dar seguimento à festança num local escuro e barulhento, onde em grande folgança damas e cavalheiros aproveitam para sacudir a piolhada que como Vossa Majestade sabe é praga que grassa pelas cabeças deste reino e de assim fazer uma assimilação de hábitos culturais dos nossos servos ultramarinos, tão do Vosso agrado, numa perfeita demonstração do inalienável casamento que fizemos, como nenhum outro império europeu, para o bem e para o mal, até que a morte nos separe, com esses povos a quem demos a luz da Fé e do entendimento. Têm os ditos locais esta vantagem muito embora me queira parecer a mim que, ou Vossa Majestade põe mão nisto, salvo seja, no que se passa nesses locais, ou muito brevemente se tornarão num antro de perdição, desculpável, no entanto, para a audácia, intrepidez e alegria incontida da jumentude de Dom Fuas que, assim, quis dar a Dona Pernalonga uma prova irrefutável do seu modernismo. Saiba Vossa Majestade que se gerou alguma balbúrdia no momento em que o digníssimo Príncipe, sua noiva e demais acompanhantes, que seguidamente mencionaremos, se preparavam para penetrar no transporte do futuro, a caranguejola voadora sem asas, apêndice importante, como calcula, neste reino, provocada por um covarde conotado com o malfadado grupelho que tentou raptar uma das damas de companhia que haveria de seguir no cortejo. É essa dama uma aia folgazã e jovial, cuja graça não mencionaremos, por ser objecto do relatório secreto que oportunamente enviámos a Vossa senhoria, e na presente crónica nomearemos como Dona Xis, e contra a qual este Vosso humilde servo, fruto de algumas averiguações dignas do célebre Charló Comes, alertou em devido tempo a mente bondosa do Vosso filho para a possibilidade de andar de amores com o dito cujo inominável, (e ser assim um perigo constante devido à sua dela presença contínua na corte) pelo que não se teria tratado de uma tentativa de rapto, mas antes, o que seria mais grave, de uma tentativa de fuga como muito finamente deu a entender Dom D’Alho Chocho nos ditos e escárnios do mais alto quilate intelectual e dando provas mais que sobejas de sua dele por divina graça inestimável esperteza e espírito. Muito folgaram os acompanhantes, iniciada a jornada, com a sabedoria, cultura e leveza de espírito de que dava mostras o nosso sagaz regente nos ataques subreptícios e bem medidos contra esse ausente inominável, revelando, também, assim, a sua superior capacidade estratégica, aliás sobejamente comprovada no comando dos seus dele exércitos, ao atacar o adversário durante a sua ausência para que este não possa defender-se, o que é, sem dúvida, a verdade de La Palice, também ele um militar, da estratégia bélica: um adversário ausente é um adversário que não se defende; um adversário que não se defende é um adversário derrotado; logo, um adversário ausente é um adversário derrotado. O próprio Aristóteles não faria melhor raciocínio, pelo que nos resta a nós, humildes servos, admirar e agradecer a Deus Nosso Senhor a enorme mercê que nos concedeu, por intermédio das benditas partes fracas de Sua Majestade e de nossa Imperatriz, (abençoadas partes fracas que tão grande fortaleza geraram!) ao prodigalizar-nos um monarca com um tão apurado sentido para o combate, uma impensável capacidade lógica e uma inimaginável inteligência, de cujas provas dadas a alegria sã do seu rosto aberto espelhando-se num magnífico sorriso amarelo, (por uma infeliz coincidência, me desculpe Vossa Majestade, a cor da samica…) são a marca mais inolvidável e convincente. Desculpe-nos ainda Vossa Majestade termo-nos desviado do trilho, coisa que não aconteceu naquela luminosa noite com a alegre caravana da qual faziam parte, para além de Dom Fuas, Dona Urraca e Dona Xis, os seguintes elementos: Dom Cortes Costuras e Alfaiates, senhor muito válido, possuidor de uma caranguejola e cuja douta opinião sobre a necessidade da existência de pena de morte no Vosso Império me apraz comunicar-vos, já que é o dito senhor adepto da teoria do olho por olho (não sei se o do cu) e dente por dente (não sei se o d’alho, com perdão de Vossa Alteza); Dona Urrice Miolos d’Hortelã Pimenta, senhora de bela dentição cuja feroz amostragem é razão suficiente para afastar o mais intrépido e intrometido pretendente; e ainda Dona Joana d’Arco Mal Passada, de cuja graciosidade me abstenho de falar, por ser minha pena suspeita, (Vossa Majestade sempre soube do meu fraco por esse tipo de gente). Arribada a comitiva ao sobredito local nomeado de Passarola de Arribação, de imediato tiveram início os folguedos traduzidos em danças variadas e regados com canecas de cerveja do mais puro malte, tendo Dom Chocho e Dona Pernalonga dado mostras de grande educação e esmero na arte de bem saracotear todo o traseiro no que foram muito admirados e por todos imitados conforme puderam. Dona Mal Passada e Dona Xis, muito expeditas, alegraram graciosamente o ambiente com seus ademanes, bamboleios e outras danças dos sete véus no que foram muito aplaudidas por Dom Alfaiates e Dona Hortelã Pimenta. Finalmente, de madrugada, os noivos mai-los seus deles acompanhantes, digníssimos bobos, regressaram felizes a seu palácio, no qual terminaram a função. (Ou não, como insinua a oposição.)
Na próxima epístola contamos pôr Vossa Majestade a par da realização das cerimónias religiosas que não serão, certamente, para dar graças a Deus e honras a Vossa Senhoria, menos grandiosas e imponentes.

Paço do Infante Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho, aos vinte dias do mês de Dezembro do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito.

Vosso Servo

Augusto Pena Fina


 jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


ALDEIA DA PENA: MARAVILHA PAISAGÍSTICA

Sobe-se a Serra de S. Macário, chega-se ao cimo por entre pinheiros, e, do outro lado, os olhos perdem-se na contemplação de vales profundos, quase a pique, rodeados de montanhas desoladas e quase geométricas. Algumas escarpas, aqui e ali, conferem, ainda, uma maior agressividade a esta paisagem insólita: uma espécie de “belo horrível” como alguém, talvez exageradamente, lhe chamou. Começa-se a descer uma estreita estrada de macadame, esburacada pelas torrentes das chuvas invernais e, no fundo de uma vertiginosa encosta, algo nos desperta a atenção: uma aldeia. Também ela aparece insólita como a paisagem, por inesperada naquele contexto e na profundidade daquele vale. Parece, mesmo, que a aldeia não tem saída, senão montanha acima. De todos os lados, como num caldeirão, a montanha sobe na vertical. E, no meio, no fundo, sobre uma pequena colina, um minúsculo aglomerado de habitações, cuja visão, a algumas centenas de metros de altura, faz lembrar a de uma aldeia pré-histórica. Se a existência de vida humana naquele local pode causar estranheza, o certo é que o casamento paisagístico entre a aldeia e a montanha é perfeito. Quase poderíamos chamar-lhe uma aldeia camaleão. As pedras negras arrancadas do monte serviram e servem, indiscriminadamente, para a construção de paredes e telhados das habitações.
Enquanto serpenteamos encosta abaixo, evitando pedras soltas no caminho de buracos, tão depressa temos, na boca das sucessivas curvas apertadas, a sensação de que vamos entrar terra dentro, como a de que nos vamos despenhar no abismo. À medida que sentimos a montanha crescer sobre as nossas cabeças somo levados a interrogar-nos acerca dos motivos que, provavelmente há centenas ou milhares de anos, fizeram alguém sedentarizar-se neste último reduto. Que terrível combate ou flagelo os terá obrigado a fugir para aqui? Por que lado da montanha terão descido? E como? Se perseguidos, porque terão parado os perseguidores? Medo do abismo?! Aquilo que o tempo fez esquecer, esforça-se a imaginação por recriar.
Chegamos, enfim, à aldeia da Pena, assim com propriedade se lhe deu este nome próprio, onde alguns teimosos da história teimam em permanecer. São poucos, uma meia dúzia de moradores, dizem-nos. Mas a aldeia parece maior, devido a um conjunto de construções semiarruinadas existentes na parte mais elevada da colina. Agora servem para guardar o gado que, juntamente com as poucas terras de cultivo, em socalco, onde o sopé da montanha é mais acessível, constituem o modo de sobrevivência dos velhos desta terra. Sim, que os novos, esses, ou emigraram ou casaram em terras da (afastada) redondeza para onde se mudaram. A Pena pertence ao concelho de S. Pedro do Sul. Alguém nos diz que, em tempos, aqui não muito remotos, quando todas as viagens se faziam a pé, se gastava um dia inteiro para ir à sede do concelho. Hoje, só de táxi, ou a pé como antigamente, pois transportes colectivos, aqui como noutras zonas do interior, são coisas impensáveis. Apesar de já existirem, na Pena, telefone e energia eléctrica, assinaláveis benefícios, o isolamento é muito difícil de vencer e os problemas de saúde, os mais urgentes, acabam por não ter solução. Contam-nos que, ainda há pouco tempo, vítima de um qualquer ataque, alguém foi transportado em maca improvisada, a pé, montanha fora, até ao médico mais próximo, em Sul, distante vinte quilómetros.
Um dos mais recentes e significativos melhoramentos na aldeia da Pena foi a construção de um cemitério. Tem cerca de trinta metros quadrados, no máximo, e nele existem, apenas, até ao momento, duas campas rasas que o ocupam quase por completo. No entanto, talvez seja suficiente para evitar que mais mortos continuem a matar vivos! Quando não havia cemitério, os defuntos eram transportados, nos seus esquifes, até à povoação de Covas do Rio, onde eram sepultados. Para isso, tornava-se necessária uma longa viagem a pé, marcada pela descida de um desfiladeiro, única passagem para o vale contíguo. E teria sido nesse desfiladeiro, composto de obtusos degraus naturais que, segundo a lenda, o morto matou o vivo e a cabra matou o lobo! No primeiro caso, o caixão onde seguia um morto teria caído sobre aqueles que o transportavam, na descida íngreme, acabando por causar uma vítima. A cabra teria morto o lobo quando, perseguida por este, subia o desfiladeiro, em direcção à aldeia. Acossada, ter-se-ia virado para trás, marrando, corajosamente, no lobo que, perdendo o equilíbrio, se teria despenhado pelo fatal precipício.
A vida destas pessoas é feita, assim, de pequenas coisas, de pequenas histórias, sobretudo, e porque se trata de velhos, de memórias do passado. Curioso é esse passado ser recordado com nostalgia, mesmo quando se referem a ele como “tempos muito difíceis”. Também nisto se nota uma simbiose perfeita entre o homem e a natureza: a simplicidade e a grandeza de alma desta gente combinam, na perfeição, com a grandiosidade simples e agreste da paisagem.
À medida que subimos, de regresso, a montanha, é inconsciente uma sensação de libertação, de saída. O Sol, afinal, não vai ter já o seu ocaso. Lá em baixo, sim. Na aldeia, nos dias pequenos do Inverno, o Sol só é visível durante cerca de três horas.
Cá do alto, ninguém resiste a uma nova contemplação da Pena. E é com ela nos olhos que a deixam, que vamos deixando esta maravilha da natureza. Facilmente se imagina um arco-íris na abóbada daquele vale, os pés assentes nos dois cumes mais altos da circular cordilheira, qual asa de uma cestinha, levada na mão do Criador para a Feira das Vaidades dos Deuses. No fundo dessa cestinha, segue a Pena, trunfo do Pai Eterno, para mostrar a todos os outros criadores de maravilhas…


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

COMPRIMIDOS PARA A MEMÓRIA
Dizem que somos um povo de “brandos costumes”. Talvez. É uma virtude ou um defeito? Depende das circunstâncias. O que somos é, seguramente, um povo com “memória curta”. E isso é, claramente, um defeito, na medida em que a memória é um dos fatores inerentes à lucidez e à inteligência. Existem inúmeros factos na nossa história que atestam a falta de memória de que sofre o povo português, nomeadamente no plano político. Recordarei, apenas, um dos últimos fenómenos dessa amnésia coletiva que, ciclicamente, nos ataca de forma grave: a eleição de Cavaco Silva como Presidente da República. Em 1996, depois de dez anos a governar o país de forma autoritária, Cavaco era odiado pela maioria dos portugueses que viam nele uma espécie de má reencarnação do ditador de Santa Comba; quis ser Presidente, candidatou-se e sofreu uma derrota humilhante perante Jorge Sampaio; dez anos depois, a falta de memória dos portugueses permitiu-lhe ser escolhido para o mais alto cargo da nação.
Porque somos assim e porque esses ataques de amnésia tendem a agudizar-se nos momentos eleitorais, talvez não seja má ideia, em vésperas de eleições tão importantes para o nosso país, recorrer a uns “comprimidinhos” para a memória, destinados a diminuir a probabilidade de esses ataques se transformarem em surto, quiçá em pandemia. Convém, no entanto, avisar os pacientes que os efeitos deste fármaco poderão não se fazer sentir, na medida em que a falta de memória, para além de congénita, é agravada nestas épocas pela difusão de um vírus terrível, chamado “branqueamento”, lançado na opinião pública através da verborreia demagógica de políticos e comentadores. Aconselham-se, pois, todos os eleitores, sobretudo os que têm mais tendência para se deixar afetar por esse vírus, não só a tomar várias doses destes comprimidos, mas, sobretudo, a evitar qualquer exposição à tal verborreia, pelo menos durante o ano que antecede o período eleitoral. Basta “recordar” que o governo já está em campanha eleitoral desde agosto do ano passado, quando Passos Coelho (PC) começou a garantir aos portugueses que a crise terminara e o futuro era um céu aberto. Daí para cá, temos ouvido disparates tão grandes como a ministra Albuquerque dizer que “temos os cofres cheios”, enquanto a dívida pública continua pelos 130% do PIB e o crescimento económico não nos permite, sequer, pagar os juros dessa dívida. Ouvimos PC dizer, em janeiro de 2015, que “este governo foi o que mais investiu na saúde”, quando as mortes nas urgências dos hospitais públicos se sucediam diariamente por falta de assistência em tempo útil, devido à falta de pessoal provocada pelos cortes dos últimos anos. Ouvimos o mestre da prestidigitação política, PC, contrariar todos os economistas sérios do país e do mundo, afirmando que “não queremos, nem precisamos, nenhuma negociação da dívida portuguesa porque ela é sustentável”. Ouvimos o cúmulo do descaramento, PC, afirmar, insultuosamente, em junho de 2015, que nunca aconselhara os portugueses a emigrar, considerando isso um “mito urbano”, procurando apagar da memória dos portugueses o tempo em que ele e outros membros do seu governo apontaram os países da CPLP como uma boa alternativa, nomeadamente para jovens e professores à procura de emprego. Ouvimos o catavento pau mandado da Merkel, PC, comentar, desdenhosamente, a possibilidade, aliás defendida por figuras tão díspares como Cavaco Silva ou Francisco Louçã, de o BCE imprimir mais euros para injetar na economia europeia, sobretudo nos países com mais dificuldades, em novembro de 2011: “se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente, esse seria um péssimo sinal”. O BCE tomou essa medida, em finais de 2014, e, “pura e simplesmente”, PC passou a ser um defensor dela “desde pequenino”; aliás, só faltou dizer que tinha sido ideia dele, como parece ter insinuado em relação ao acordo para o terceiro resgate da Grécia, depois de tudo ter feito para o impedir! Ouvimos, quando eclodiu o caso BES, o suprasumo da adivinhação, PC, garantir que esse banco estava sólido, o problema era exclusivamente no GES; vai-se a ver, o BES estava falido, muito boa gente estava “lesada”, incluindo os “entalados” de última hora que, confiando na palavra de PC, toca de comprar ações desse banco ao desbarato, sonhando com dinheiro fácil e muito, quando tudo normalizasse. Perante as consequências deste “extarordinário ato de gestão” do seu amigo e principal conselheiro, Salgado, PC jura a pés juntos que o Estado não intervirá nos problemas do BES; quinze dias depois, a ministra Albuquerque anuncia uma injeção de 4 mil milhões, por parte do Estado, até hoje não recuperados. Os “entalados” continuam a ver navios, o “dono disto tudo que por milagre passou a dono de nada” foi posto em retiro, para remissão dos seus pecados, também a ver navios, mas na baía de Cascais e o “polícia que soube sempre tudo mas nunca fez nada” iniciou um novo mandato à frente do Banco de Portugal, uma espécie de prémio à inércia consciente e voluntária, cumplicemente obsequiado por PC.
Vimos, ouvimos e sentimos, ao longo de mais de quatro anos, a criatura gepetiana, PC, fazer tábua rasa de todas as promessas anunciadas no último período eleitoral análogo ao que vivemos agora. Nunca um governo esteve tão bem servido na arte de iludir a realidade através da demagogia. Aliás, equipa onde alinhe Paulo Portas, outro grande mestre do cinismo e da hipocrisia, pode, até, dar-se ao luxo de alterar o significado das palavras como ele fez com o termo “irrevogável”. Ou de dizer aldrabices como aquela que esse ex-libris da alarvidade pronunciou, em 27 de março de 2014, na AR: “só ficou sem o rendimento social de inserção quem tinha mais de cem mil euros na conta”.
Seria um passo importante para um futuro melhor, se os portugueses tomassem estes e muitos outros comprimidos para a memória, (basta abrir a internet para os encontar) e fizessem, nestas eleições, uma escolha diferente daquelas que, desde a entrada na UE, têm levado o país a afundar-se na corrupção, na crescente desigualdade entre ricos e pobres, na injustiça e na falta de horizontes para os jovens. Nesse sentido, posso compreender aqueles que se abstêm – significa que desacreditaram completamente da política, dos políticos e, pior, da democracia; posso compreender, também, os que votam em branco ou nulo – significa que não confiam em nenhum dos candidatos e partidos que se perfilam; compreendo e defendo que se vote em qualquer um dos partidos que, depois da entrada na UE, nunca tiveram responsabilidades governativas – significa que acreditam na existência de alternativas e não se vergam ao medo de procurar caminhos novos para o futuro. Consigo compreender qualquer uma destas opções. Só não compreendo aqueles que continuam, “estultamente”, a votar num dos três partidos (PSD, CDS e PS) que colocaram o país nesta situação, nada fazem para dela sair e deram provas cabais e conclusivas, ao longo destes trinta anos, de incompetência, imoralidade e falta de vergonha. Como diziam os romanos, “errare humanum est, sed in errore preserverare stultum” (errar é humano, mas insistir no erro é estúpido).


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt
NOVA ENCÍCLICA DO PAPA FRANCISCO (II)

(continuação do número anterior)

Esta encíclica, pese embora o cuidado “cristão” de não ferir profundamente “certas” suscetibilidades, não deixa de ser um libelo acusatório contra os países ricos e industrializados do Norte que têm, segundo o Papa, uma “dívida ecológica” que também devia ser contabilizada no âmbito internacional: “A dívida externa dos países transformou-se num instrumento de controlo, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica”.(ponto 52) Ou seja, os alemães, por exemplo, para além da dívida da guerra (ou das guerras) que têm para com os gregos, os polacos, os austríacos e tantos outros povos europeus, têm, também, juntamente com outros, uma dívida ecológica para com os africanos, os asiáticos, os sul americanos, etc. Há, pois, que contabilizar e saldar essa dívida. O problema é que esses povos do Norte nunca conseguiriam produzir riqueza suficiente para isso! No entanto, continuam a usar o poder financeiro para, através das dívidas soberanas, subjugarem os países com economias mais frágeis, explorando-os e lançando neles a pobreza, a desigualdade e o desespero. Mas talvez se estejam a “esquecer” de qualquer coisa muito importante. A globalização que lhes permite a exploração económica e ecológica doutros povos acabará por funcionar como um “boomerang”, fazendo cair sobre eles as suas consequências. No plano económico, toda aquela massa de miseráveis que as suas políticas produzem, mais cedo ou mais tarde, forçarão a entrada nos eldorados por eles criados egoisticamente. O que está a acontecer, todos os dias, no Mar Mediterrâneo, é, apenas, o início de uma movimentação de massas humanas capaz de acabar em tragédia na Europa se esta não inverter a tempo essas políticas. No plano ecológico, a partilha das consequências da destruição do ambiente é, ainda, mais evidente e inevitável, pois essas não respeitam fronteiras, exércitos, polícias, dinheiro ou governantes despóticos, inchados de poder.
Pese embora toda a relevância desta encíclica, é de prever que, infelizmente, ela não passará de mais uma “voz que clama no deserto” contra os desvarios do modelo económico em vigor, pois o comboio do consumismo, da produtividade, do lucro máximo, do capital, do maquiavelismo financeiro caminha em marcha desenfreada rumo ao abismo. Não passará de uma mini barreira incapaz de travar essa marcha e que, como tantas outras, terá um efeito impercetível face à violência irreprimível com que esse comboio estilhaça triunfalmente todos os obstáculos, sob o orgíaco comando do seu louco maquinista – o capitalismo internacional. Aliás, o capitalismo, o liberalismo económico e o seu deus – o mercado – voltam a ser zurzidos pelo Papa na “Laudato Si”, tal como acontecera na “Evangelii Gaudium”. Escreve ele, no ponto 109: “Nalguns círculos defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais e afirma-se que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado. Mas o mercado não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social”. O profundo respeito pela dignidade do ser humano marca, claramente, o pensamento do Papa, levando-o a afirmar que “não há ecologia sem uma adequada antropologia”. Além disso, ele consegue, nesta obra, aprofundar de forma integrada aspetos essenciais da vida humana e da filosofia. Poderíamos, mesmo, sob certos pontos considerá-la uma obra de ecologia, ou de antropologia, ou de ética, mas, na minha opinião, ela é, sobretudo, uma grande obra de filosofia social e política, onde não se coíbe de fazer análises como as que se seguem: “a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas. Renunciar a investir nas pessoas para se obter mais receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade”.(ponto 128) O Papa preconiza a necessidade de os Estados intervirem na regulação da atividade económica e das relações laborais em vez de deixarem esses fenómenos sujeitos à regulação natural do mercado livre como defendem as ideologias da direita liberal e neoliberal. O seu discurso enquadra-se, pois, na perspetiva de uma distribuição equitativa dos bens comuns, como é defendida, por exemplo, por John Rawls. Mais uma vez, nada melhor do que citar o próprio Papa para justificar esta tese: “As autoridades têm o direito e a responsabilidade de adotar medidas de apoio claro e firme aos pequenos produtores e à diversificação da produção. Às vezes, para que haja uma liberdade económica da qual todos realmente beneficiem, pode ser necessário pôr limites àqueles que detêm maiores recursos e poder financeiro”.(ponto 129) Mas este discurso de esquerda do Papa não fica por aqui, indo mesmo ao ponto de apontar contradições e problemas inerentes ao capitalismo, fazendo-lhe uma crítica em tudo semelhante à que é feita pelos partidos de esquerda: “A política não deve submeter-se à economia. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises, depois de uma longa, custosa e aparente cura”.(ponto 189) Francisco qualifica, mesmo, de “obsoletos”, os “critérios que continuam a governar o mundo”. E o que ele considera como “obsoleto” mais não são do que as lógicas e as ideologias políticas de direita, combinadas com a destruição do meio ambiente, que hoje prevalecem nos países europeus e em muitos outros países poderosos do mundo: “Hoje, alguns setores económicos exercem mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação com o meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação para integrar os mais frágeis, porque, no modelo de êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida.”(ponto 196)
E é assim. Por muito que custe a certos setores da sociedade e da Igreja, o Papa Francisco tem um pensamento e um discurso revolucionários. À imagem do próprio Jesus Cristo. Finalmente e felizmente. Importa que este discurso não caia em saco roto e possa mesmo transformar a Igreja, porque só assim pode ter repercussão na sociedade civil. É preciso que toda a Igreja, laica ou clerical, leia, reflita e interiorize a mensagem do Papa, ainda que isso redunde no rompimento com ideologias e práticas esclerosadas e “obsoletas”. Esta necessidade de mudança é tão premente que o Papa chega ao ponto de dizer, no ponto 114: “O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa revolução cultural… Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma”. Assim saiba a Igreja ser o “grão de fermento” que faça crescer essa revolução.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


NOVA ENCÍCLICA DO PAPA FRANCISCO (I)

O Papa Francisco fez publicar, no passado mês de junho, mais uma encíclica, intitulada “Laudato Si”, em português “Louvado Seja”, que tem como subtítulo “sobre o cuidado da casa comum”. Inspirou-se o Papa, tal como fizera na adoção do seu nome papal, na figura carismática de S. Francisco de Assis, em relação ao qual afirma: “ nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.
Começarei por dizer que, só por si, estes quatro pontos se poderiam constituir como estruturantes de um belo programa político e pessoal. Esta nova encíclica insere-se no magistério social da Igreja, como nela diz o Papa, e tem como objetivos explícitos alertar para a dramática situação ecológica do planeta Terra (a casa comum) e apontar possíveis caminhos de esperança face às ameaças que pairam sobre o seu futuro e, consequentemente, o da humanidade. Importa salientar esta preocupação do Papa com as questões ecológicas, mas, sobretudo, a forma inteligente e lúcida como as analisa e as relaciona com problemas de natureza económica, social e política. Com mais esta encíclica de “intervenção”, o Papa mostra como a Igreja deve estar comprometida com a dimensão política do Homem e apontar os caminhos que, também nesta matéria, melhor se adequam aos ensinamentos de Cristo. Durante séculos, prevaleceu na Igreja a ideia de que não devia meter-se em questões políticas e ideológicas. Estribavam-se os seus defensores, (e ainda há muitos, dentro e fora dela) essencialmente, em dois episódios do Evangelho, duas famosas respostas dadas por Cristo, em situações diferentes: “dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” e “o meu reino não é deste mundo”. O certo é que esse “alheamento conveniente” por parte da Igreja, relativamente aos problemas sociais e políticos do Homem, permitiu que se tivessem produzido as maiores barbaridades na história da humanidade, umas vezes com a indiferença, outras vezes com o próprio beneplácito dessa mesma Igreja. Não admira que pensadores com grandes preocupações sociais, como Karl Marx, se tenham afastado ou mesmo incompatibilizado com a religião e com deuses que caucionavam a escravatura, a exploração do homem pelo homem, a miséria, as diferenças de dignidade e de direitos entre os seres humanos, na medida em que incutiam, subliminarmente ou mesmo explicitamente, a mensagem de que tudo na sociedade obedecia a uma ordem divina preestabelecida e, portanto, tudo estava bem como estava, sendo a revolta contrária à vontade divina. O homem devia preocupar-se com a eternidade da alma e não com os assuntos mesquinhos da temporalidade física. Ora, teria sido este efeito apaziguador e anestesiante da religião que, segundo Marx, teria levado gerações atrás de gerações de escravos, de explorados e de deserdados da Terra a renderem-se a uma resignação alienada, levando-o a proferir a famosa frase: “a religião é o ópio do povo”. Talvez que, se Marx vivesse hoje, não esquecendo o passado, mas conhecendo as mensagens do Papa Francisco, pudesse, antes, afirmar: “o consumismo é o ópio do povo”. O próprio Papa, certamente, não descartaria subscrever essa afirmação porque é, precisamente, o consumismo e todo o sistema económico capitalista que dele se alimenta que, mais uma vez, são verberados e apontados por ele como os principais responsáveis pelo rumo altamente preocupante que a humanidade tomou.
Outro aspeto muito relevante na publicação desta encíclica é o facto de o Papa ter colocado, novamente, os problemas ecológicos no centro do debate e na chamada agenda mediática. E isso é tanto mais importante quanto o facto de serem esse tipo de problemas os mais graves que enfrentamos, por duas razões que o próprio aponta. Uma delas prende-se com o facto de esses problemas resultarem do sistema económico capitalista cuja lógica se baseia no aumento exponencial da produção e do lucro, levando a uma sobre exploração e esgotamento dos recursos naturais e a desequilíbrios ambientais, cujas consequências já se fazem sentir em certas alterações climáticas, e que, a médio e longo prazo, serão, provavelmente, catastróficas. A outra razão assenta no facto de o Papa, de forma brilhante, relacionar o fenómeno da ecologia com o da pobreza, da fome, da desigualdade, da injustiça social, da emigração massiva e de quase todos os problemas sociais que os povos enfrentam, como diz, no ponto 25: “as mudanças climáticas são um problema global, com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo, atualmente, um dos principais desafios para a humanidade; é trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria, agravada pela degradação ambiental”. A crise económica que a Europa vive há quase uma década (e na qual se afunda graças à cegueira, ao egoísmo, à vontade de poder e à submissão ao capitalismo financeiro por parte dos seus responsáveis, incluindo os aprendizes da cartilha neoliberal, Passos e Rajoy) contribuiu para que os temas da ecologia passassem para a zona do inconsciente coletivo europeu. O debate desenrola-se, exclusivamente, em questões económicas e o economês tornou-se a língua oficial da comunicação social e da opinião pública. Mas isso acontece, também, porque esse “silêncio” interessa aos responsáveis pela crise ecológica, interessados em desviar dela os olhos do mundo para poderem continuar a chafurdar nela a seu bel-prazer. Diz o Papa, no ponto 26: “Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas”. Ao mesmo tempo, o Papa não deixa de elogiar a tarefa de determinadas organizações que lutam, algo quixotescamente, pela defesa do ambiente, contra esse poder tecnocientífico manipulado pelo polvo financeiro: “É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não delegável de preservar o ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais”.(ponto 38)

(Continua no próximo número)

José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


quinta-feira, 11 de junho de 2015

TRINTA ANOS DEPOIS … OU… CONFISSÕES DE UM CIDADÃO

Nos dias 25 e 26 de maio, estive na Assembleia da República a acompanhar alguns alunos meus que, no âmbito do projeto Parlamento dos Jovens, foram eleitos para integrar os oito “deputados” do distrito de Viseu, na derradeira sessão do referido projeto. Foi uma oportunidade única, para eles, de viverem por dentro o funcionamento do sistema parlamentar em que assenta a nossa democracia e que, por certo, jamais esquecerão. Pela minha parte, para além da satisfação de ver os jovens envolvidos neste processo de aprendizagem ativa, foi, também, uma oportunidade para recordar o meu primeiro contacto com a “casa da democracia” e refletir sobre toda a realidade política que esta casa encerra.
“Entre as brumas da memória”, cerca de trinta anos volvidos sobre essa experiência, revi-me, aí pelos idos de 1984, a assistir, nas galerias, ao debate de um projeto de lei de despenalização do aborto e a manifestar-me, no exterior da Assembleia, por, apesar de aprovada, a referida lei não contemplar, ainda, aspetos que, muitos anos mais tarde, viriam a ser reconhecidos na lei que atualmente rege esse tão importante assunto da cidadania. Nos escaninhos da minha memória associo esse acontecimento ao despertar da minha consciência social e política e ao início de um percurso ideológico que, até hoje, não sofreu desvios significativos, antes se foi consolidando, malgrado as imprescindíveis mudanças decorrentes da necessidade de adaptação aos inéditos caminhos trilhados pela realidade económica, social e política em que nos inserimos. E algo que não deve acontecer, neste aspeto, é cristalizarmos as convicções políticas em torno de realidades que vão desaparecendo, transformando essas ideias em meros fantasmas mais ou menos bolorentos conforme a quantidade de naftalina existente nos armários onde os guardamos. Cada um de nós é fruto das circunstâncias em que vive e se desenvolve, incapaz de se eximir a essa “lei do ser humano”, tão bem expressa no famoso enunciado do filósofo Ortega y Gasset: “Yo soy yo y mi circunstancia”. Construímo-nos, pois, numa interação permanente entre liberdade e condicionamento. Tomamos decisões livres em relação aos atos que realizamos, mas condicionados indelevelmente por fatores exteriores à nossa racionalidade que influenciam profundamente o nosso livre-arbítrio. Todas as nossas decisões têm consequências no nosso futuro e na escolha das circunstâncias que afetarão as nossas decisões!
Ainda jovem, com 18 anos apenas, tomei uma das mais importantes e firmes decisões da minha vida: tinha de alargar os horizontes, libertar-me das circunstâncias em que a minha vida decorrera até então. O mais fácil, na época, era deixar-me envolver pelas circunstâncias e trilhar o percurso escolhido pela maioria dos colegas – o curso de Humanidades no recém criado pólo da Universidade Católica (escolha preferida dos ex-seminaristas), ou a Universidade de Coimbra, para os outros. No entanto, não sei que recôndito anseio de libertação ou que desejo de voar por rotas desconhecidas levou-me a pensar que a Universidade Católica era mais do mesmo e que Coimbra mais não era que uma Viseu em ponto maior. Lisboa, a Universidade Clássica e o curso de Filosofia foram, pois, as circunstâncias que o meu livre-arbítrio escolheu para viver aquela meia dúzia de anos em que atingimos a idade da razão e dela começamos a fazer pleno uso. O que sou e o que penso devo-o, claramente, a essa decisão, na medida em que me permitiu entrar noutras circunstâncias que marcaram o cinzelamento da minha personalidade. Foi nesse meio que aprendi o que são as ideologias, convivendo com as suas diferenças e o seu pluralismo. As profundas alterações que se deram na minha maneira de pensar assentaram no estudo e no conhecimento das ideologias políticas e da sua fundamentação histórica. A minha adesão a determinados princípios e ideais passou a depender de uma análise crítica dos mesmos em vez de consistir numa mera anuência de cariz sócio afetivo. Aliás, continuo a pensar que a adesão a um partido político, não sendo, de todo, necessária, a existir, deve ser feita em função do seu programa ideológico e não por outra razão qualquer – por tradição familiar, por ser maioritário, por dar mais possibilidades de singrar na vida política, porque gostamos do cor de laranja ou do cor-de-rosa. Esse tipo de adesão serve para escolher um clube desportivo, mas não pode ser válido para escolher aqueles que supostamente nos representam no exercício da nossa soberania cívica. Acredito, também, que uma das causas principais do declínio ou do atraso político de uma sociedade reside precisamente nessa espécie de iliteracia política que leva os cidadãos a interiorizarem uma de duas atitudes, qual delas a mais negativa para a democracia: votar sempre nos mesmos, por irracionalidade ou mera afetividade “clubística”, ou abster-se de votar, seja por que motivo for. De todos os nossos direitos, o mais importante é o direito ao voto porque é dele que, em democracia, dependem todos os outros. Por isso, ele não pode ser descartado nem exercido alienadamente. Aprendi isso nesses já (!) longínquos anos 80. E, até hoje, nunca tive “voto fixo”, nem nunca deixei de votar. Também nunca fui adepto do chamado “voto útil” por ser outra forma de alienação e irresponsabilidade política. No momento de votar, sobretudo quando se trata de escolher aqueles que vou mandatar para me representarem no exercício do poder legislativo, voto naqueles cujos ideais políticos são mais semelhantes aos meus e que partilham comigo um modelo de sociedade assente nos mesmos princípios. E esses princípios não são, claramente, os dos oportunistas e dos carreiristas: “vota naqueles que te podem proporcionar oportunidades vantajosas de sucesso económico ou de carreira política”. Nunca entendi a política com base em máximas de natureza pessoal, muito menos essa; pelo contrário, continuo a pautar o exercício da minha cidadania com base no princípio do exercício pleno e igual da liberdade, de todas as liberdades, por todos os cidadãos, apenas limitado pela liberdade do outro; e no princípio da distribuição equitativa dos bens e das oportunidades por todos os cidadãos, admitindo a possibilidade de dar mais aos que têm menos de modo a minorar as diferenças e aumentar a justiça social. São estes os princípios que me movem e é estribado neles que faço as minhas escolhas políticas. Depositarei o meu voto naqueles cujas propostas melhor refletirem estes ideais e estes princípios.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt
RELAXAMENTO MORAL

Bem pode a ministra Albuquerque, com o seu ar de ninfa dos bosques, enfiar presunçosamente a máscara do Criador e apelar às “criancinhas” social-democratas para se multiplicarem como coelhos, o facto é que, até nesta matéria, já lá vai o tempo em que o ministro da educação era o primeiro a dar o exemplo! Hoje, o que temos é um governo que nem para isso serve, a crer na suposta infestação do famoso lobby gay que o irrepetível Candal tanto abominava!
Mas deixemo-nos de ironias.
Basta um relancear de olhos pela história, para percebermos que o declínio dos povos, nomeadamente das grandes civilizações, está, por regra, associado ao relaxamento moral dos seus responsáveis políticos, administrativos ou militares. Aconteceu assim na Antiga Grécia, com a decadência moral provocada pela exacerbação da sofística, segundo a denúncia de Platão. Aconteceu assim no Império Romano, onde a degradação dos costumes e a corrupção entre militares e governantes acabou por levar à divisão do império e à queda de Roma. Aconteceu, assim, em muitos outros povos e civilizações. E, também nós, portugueses, estando muito longe de ser uma grande civilização, temos na nossa história alguns exemplos de como a degradação moral provocou graves crises sociais, políticas, económicas e, até, de soberania.
Ultrapassada que foi a turbulência do pós 25 de abril de 74, entrámos na chamada normalidade democrática nos anos 80, escorada nas opções pela CEE e pela NATO. Entrámos num período de afirmação e de crescimento, em que passámos de um país do terceiro mundo para um país em vias de desenvolvimento. O Estado consolidou-se nas vertentes social, política e judicial. Hoje, assistimos a um desmembramento desse estado em todas essas vertentes. No plano social, essa degradação é absolutamente evidente, estando praticamente consumado o fim do estado social. No plano judicial, a promiscuidade entre o poder legislativo, os tribunais e os grandes escritórios de advogados não augura nada de bom. No plano político, o fenómeno parece ser ainda mais grave e com consequências mais dramáticas. O desprezo pelos valores ético-políticos e a falta de princípios morais têm caracterizado a vida política nacional, ao mais alto nível, desde há uma década para cá. Se passarmos os olhos pelas estantes de qualquer livraria minimamente apetrechada, percebemos que a corrupção ao mais alto nível político e económico se tornou um dos principais temas de publicação.
Não tendo ainda sido escrita a história do caso Sócrates, cujo desfecho nos tribunais nos permitirá fazer análises mais objetivas e retirar conclusões mais rigorosas, importa salientar que o ónus da imoralidade política não pode ser assacado, em exclusivo, a essa infeliz figura do Portugal contemporâneo. Não é por acaso que o atual primeiro-ministro aproveita avidamente todas as ocasiões para se tentar demarcar do modo de agir do seu antecessor. Esta necessidade premente de Passos Coelho dizer aos portugueses que “os políticos não são todos iguais”, ou que ele não é como o outro, mais não é do que uma tentativa de fuga para a frente, ou como diz o povo: “chama aos outros, antes que te chamem a ti”. A governação dos últimos quatro anos provou à saciedade que, em termos ético-políticos, as diferenças entre Sócrates e Coelho são nulas e é por isso que este se esforça tanto em virtualizá-las. Mas o problema é, ainda, mais grave se pensarmos que o modo de ser e de estar politicamente destas duas personagens maiores da política caseira da última década é o resultado inevitável de um “modus faciendi” consolidado e instalado nas máquinas partidárias, governativas e administrativas que os produziram e moldaram. O laxismo, ou relaxamento moral, tomou conta da classe política portuguesa, pelo menos no que respeita aos partidos que se arrogam pertencer, por uma espécie de direito divino, ao sagrado e perfeito círculo do “arco da governação”, como gosta, inchadamente, de dizer o Portas. A consciência moral desta gente, se é que a têm, permite-lhes conviver diariamente com comportamentos que violam alguns dos princípios éticos fundamentais da democracia e da república: respeito pelos cidadãos; gestão escrupulosa da “coisa pública”; assunção das responsabilidades políticas.
Os exemplos que comprovam esta decadência moral são tantos que seria impossível enumerá-los, quanto mais esmiuçá-los, neste restrito espaço. Aliás, a frequência com que esses casos saltam da cartola mediática faz com que a opinião pública já tenha entrado, perigosamente, num estado de “anestesia moral”, encarando-os como uma espécie de inevitabilidade natural que não augura nada de bom, na medida em que cauciona a impunidade dos seus protagonistas. Só este estado de anestesia explica a “indiferença” com que o “povo” reage a acontecimentos tão graves como a “irrevogável” demissão de Portas ou o arquivamento do caso dos submarinos; a constante violação da Constituição pelas leis do governo ou os repetidos escândalos da vida profissional e contributiva de Passos; a recorrente incompetência de Crato na colocação de professores ou a forma patética como a ministra Teixeira tentou alijar as suas responsabilidades pela paralisação da justiça; a degradante mixórdia dos vistos gold, ainda por esclarecer totalmente, ou a miserável história da lista VIP do fisco.
Aparentemente, para os políticos de hoje, tudo é possível e nada os incomoda; sustentam as maiores barbaridades e incompetências com a naturalidade alienada dos inimputáveis, a candura de um hipócrita pedido de desculpas ou, na maior parte dos casos, com as justificações mais vergonhosamente aldrabadas. Aliás, o maior sintoma da degradação moral a que chegou uma grande parte dos nossos políticos, nomeadamente os do “arco da governação” e particularmente os da maioria, é a facilidade, o descaramento e a falta de vergonha com que mentem.
Os políticos perderam, definitivamente, o sentido da honra, o respeito pelo cidadão e pela verdade, a identificação com os valores e os princípios básicos da República e do estado de direito. Face a este fenómeno, que atingirá o seu apogeu no período de campanha eleitoral que já está em curso, bem podemos temer, não pela infertilidade dos jovens que tanto preocupa a ministra Albuquerque, mas sim pela saúde e pela sobrevivência da democracia.



José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt