quinta-feira, 11 de junho de 2015

RELAXAMENTO MORAL

Bem pode a ministra Albuquerque, com o seu ar de ninfa dos bosques, enfiar presunçosamente a máscara do Criador e apelar às “criancinhas” social-democratas para se multiplicarem como coelhos, o facto é que, até nesta matéria, já lá vai o tempo em que o ministro da educação era o primeiro a dar o exemplo! Hoje, o que temos é um governo que nem para isso serve, a crer na suposta infestação do famoso lobby gay que o irrepetível Candal tanto abominava!
Mas deixemo-nos de ironias.
Basta um relancear de olhos pela história, para percebermos que o declínio dos povos, nomeadamente das grandes civilizações, está, por regra, associado ao relaxamento moral dos seus responsáveis políticos, administrativos ou militares. Aconteceu assim na Antiga Grécia, com a decadência moral provocada pela exacerbação da sofística, segundo a denúncia de Platão. Aconteceu assim no Império Romano, onde a degradação dos costumes e a corrupção entre militares e governantes acabou por levar à divisão do império e à queda de Roma. Aconteceu, assim, em muitos outros povos e civilizações. E, também nós, portugueses, estando muito longe de ser uma grande civilização, temos na nossa história alguns exemplos de como a degradação moral provocou graves crises sociais, políticas, económicas e, até, de soberania.
Ultrapassada que foi a turbulência do pós 25 de abril de 74, entrámos na chamada normalidade democrática nos anos 80, escorada nas opções pela CEE e pela NATO. Entrámos num período de afirmação e de crescimento, em que passámos de um país do terceiro mundo para um país em vias de desenvolvimento. O Estado consolidou-se nas vertentes social, política e judicial. Hoje, assistimos a um desmembramento desse estado em todas essas vertentes. No plano social, essa degradação é absolutamente evidente, estando praticamente consumado o fim do estado social. No plano judicial, a promiscuidade entre o poder legislativo, os tribunais e os grandes escritórios de advogados não augura nada de bom. No plano político, o fenómeno parece ser ainda mais grave e com consequências mais dramáticas. O desprezo pelos valores ético-políticos e a falta de princípios morais têm caracterizado a vida política nacional, ao mais alto nível, desde há uma década para cá. Se passarmos os olhos pelas estantes de qualquer livraria minimamente apetrechada, percebemos que a corrupção ao mais alto nível político e económico se tornou um dos principais temas de publicação.
Não tendo ainda sido escrita a história do caso Sócrates, cujo desfecho nos tribunais nos permitirá fazer análises mais objetivas e retirar conclusões mais rigorosas, importa salientar que o ónus da imoralidade política não pode ser assacado, em exclusivo, a essa infeliz figura do Portugal contemporâneo. Não é por acaso que o atual primeiro-ministro aproveita avidamente todas as ocasiões para se tentar demarcar do modo de agir do seu antecessor. Esta necessidade premente de Passos Coelho dizer aos portugueses que “os políticos não são todos iguais”, ou que ele não é como o outro, mais não é do que uma tentativa de fuga para a frente, ou como diz o povo: “chama aos outros, antes que te chamem a ti”. A governação dos últimos quatro anos provou à saciedade que, em termos ético-políticos, as diferenças entre Sócrates e Coelho são nulas e é por isso que este se esforça tanto em virtualizá-las. Mas o problema é, ainda, mais grave se pensarmos que o modo de ser e de estar politicamente destas duas personagens maiores da política caseira da última década é o resultado inevitável de um “modus faciendi” consolidado e instalado nas máquinas partidárias, governativas e administrativas que os produziram e moldaram. O laxismo, ou relaxamento moral, tomou conta da classe política portuguesa, pelo menos no que respeita aos partidos que se arrogam pertencer, por uma espécie de direito divino, ao sagrado e perfeito círculo do “arco da governação”, como gosta, inchadamente, de dizer o Portas. A consciência moral desta gente, se é que a têm, permite-lhes conviver diariamente com comportamentos que violam alguns dos princípios éticos fundamentais da democracia e da república: respeito pelos cidadãos; gestão escrupulosa da “coisa pública”; assunção das responsabilidades políticas.
Os exemplos que comprovam esta decadência moral são tantos que seria impossível enumerá-los, quanto mais esmiuçá-los, neste restrito espaço. Aliás, a frequência com que esses casos saltam da cartola mediática faz com que a opinião pública já tenha entrado, perigosamente, num estado de “anestesia moral”, encarando-os como uma espécie de inevitabilidade natural que não augura nada de bom, na medida em que cauciona a impunidade dos seus protagonistas. Só este estado de anestesia explica a “indiferença” com que o “povo” reage a acontecimentos tão graves como a “irrevogável” demissão de Portas ou o arquivamento do caso dos submarinos; a constante violação da Constituição pelas leis do governo ou os repetidos escândalos da vida profissional e contributiva de Passos; a recorrente incompetência de Crato na colocação de professores ou a forma patética como a ministra Teixeira tentou alijar as suas responsabilidades pela paralisação da justiça; a degradante mixórdia dos vistos gold, ainda por esclarecer totalmente, ou a miserável história da lista VIP do fisco.
Aparentemente, para os políticos de hoje, tudo é possível e nada os incomoda; sustentam as maiores barbaridades e incompetências com a naturalidade alienada dos inimputáveis, a candura de um hipócrita pedido de desculpas ou, na maior parte dos casos, com as justificações mais vergonhosamente aldrabadas. Aliás, o maior sintoma da degradação moral a que chegou uma grande parte dos nossos políticos, nomeadamente os do “arco da governação” e particularmente os da maioria, é a facilidade, o descaramento e a falta de vergonha com que mentem.
Os políticos perderam, definitivamente, o sentido da honra, o respeito pelo cidadão e pela verdade, a identificação com os valores e os princípios básicos da República e do estado de direito. Face a este fenómeno, que atingirá o seu apogeu no período de campanha eleitoral que já está em curso, bem podemos temer, não pela infertilidade dos jovens que tanto preocupa a ministra Albuquerque, mas sim pela saúde e pela sobrevivência da democracia.



José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

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