RELAXAMENTO MORAL
Bem pode a ministra Albuquerque, com o seu ar de
ninfa dos bosques, enfiar presunçosamente a máscara do Criador e apelar às
“criancinhas” social-democratas para se multiplicarem como coelhos, o facto é
que, até nesta matéria, já lá vai o tempo em que o ministro da educação era o
primeiro a dar o exemplo! Hoje, o que temos é um governo que nem para isso
serve, a crer na suposta infestação do famoso lobby gay que o irrepetível
Candal tanto abominava!
Mas deixemo-nos de ironias.
Basta um relancear de olhos pela história, para
percebermos que o declínio dos povos, nomeadamente das grandes civilizações,
está, por regra, associado ao relaxamento moral dos seus responsáveis
políticos, administrativos ou militares. Aconteceu assim na Antiga Grécia, com
a decadência moral provocada pela exacerbação da sofística, segundo a denúncia
de Platão. Aconteceu assim no Império Romano, onde a degradação dos costumes e
a corrupção entre militares e governantes acabou por levar à divisão do império
e à queda de Roma. Aconteceu, assim, em muitos outros povos e civilizações. E,
também nós, portugueses, estando muito longe de ser uma grande civilização,
temos na nossa história alguns exemplos de como a degradação moral provocou graves
crises sociais, políticas, económicas e, até, de soberania.
Ultrapassada que foi a turbulência do pós 25 de
abril de 74, entrámos na chamada normalidade democrática nos anos 80, escorada
nas opções pela CEE e pela NATO. Entrámos num período de afirmação e de
crescimento, em que passámos de um país do terceiro mundo para um país em vias
de desenvolvimento. O Estado consolidou-se nas vertentes social, política e
judicial. Hoje, assistimos a um desmembramento desse estado em todas essas
vertentes. No plano social, essa degradação é absolutamente evidente, estando
praticamente consumado o fim do estado social. No plano judicial, a
promiscuidade entre o poder legislativo, os tribunais e os grandes escritórios
de advogados não augura nada de bom. No plano político, o fenómeno parece ser
ainda mais grave e com consequências mais dramáticas. O desprezo pelos valores
ético-políticos e a falta de princípios morais têm caracterizado a vida
política nacional, ao mais alto nível, desde há uma década para cá. Se
passarmos os olhos pelas estantes de qualquer livraria minimamente apetrechada,
percebemos que a corrupção ao mais alto nível político e económico se tornou um
dos principais temas de publicação.
Não tendo ainda sido escrita a história do caso
Sócrates, cujo desfecho nos tribunais nos permitirá fazer análises mais objetivas
e retirar conclusões mais rigorosas, importa salientar que o ónus da
imoralidade política não pode ser assacado, em exclusivo, a essa infeliz figura
do Portugal contemporâneo. Não é por acaso que o atual primeiro-ministro aproveita
avidamente todas as ocasiões para se tentar demarcar do modo de agir do seu
antecessor. Esta necessidade premente de Passos Coelho dizer aos portugueses
que “os políticos não são todos iguais”, ou que ele não é como o outro, mais
não é do que uma tentativa de fuga para a frente, ou como diz o povo: “chama
aos outros, antes que te chamem a ti”. A governação dos últimos quatro anos
provou à saciedade que, em termos ético-políticos, as diferenças entre Sócrates
e Coelho são nulas e é por isso que este se esforça tanto em virtualizá-las. Mas
o problema é, ainda, mais grave se pensarmos que o modo de ser e de estar
politicamente destas duas personagens maiores da política caseira da última
década é o resultado inevitável de um “modus faciendi” consolidado e instalado
nas máquinas partidárias, governativas e administrativas que os produziram e
moldaram. O laxismo, ou relaxamento moral, tomou conta da classe política
portuguesa, pelo menos no que respeita aos partidos que se arrogam pertencer,
por uma espécie de direito divino, ao sagrado e perfeito círculo do “arco da
governação”, como gosta, inchadamente, de dizer o Portas. A consciência moral
desta gente, se é que a têm, permite-lhes conviver diariamente com
comportamentos que violam alguns dos princípios éticos fundamentais da
democracia e da república: respeito pelos cidadãos; gestão escrupulosa da
“coisa pública”; assunção das responsabilidades políticas.
Os exemplos que comprovam esta decadência moral são
tantos que seria impossível enumerá-los, quanto mais esmiuçá-los, neste
restrito espaço. Aliás, a frequência com que esses casos saltam da cartola
mediática faz com que a opinião pública já tenha entrado, perigosamente, num
estado de “anestesia moral”, encarando-os como uma espécie de inevitabilidade
natural que não augura nada de bom, na medida em que cauciona a impunidade dos
seus protagonistas. Só este estado de anestesia explica a “indiferença” com que
o “povo” reage a acontecimentos tão graves como a “irrevogável” demissão de
Portas ou o arquivamento do caso dos submarinos; a constante violação da
Constituição pelas leis do governo ou os repetidos escândalos da vida
profissional e contributiva de Passos; a recorrente incompetência de Crato na
colocação de professores ou a forma patética como a ministra Teixeira tentou
alijar as suas responsabilidades pela paralisação da justiça; a degradante
mixórdia dos vistos gold, ainda por esclarecer totalmente, ou a miserável
história da lista VIP do fisco.
Aparentemente, para os políticos de hoje, tudo é
possível e nada os incomoda; sustentam as maiores barbaridades e incompetências
com a naturalidade alienada dos inimputáveis, a candura de um hipócrita pedido
de desculpas ou, na maior parte dos casos, com as justificações mais vergonhosamente
aldrabadas. Aliás, o maior sintoma da degradação moral a que chegou uma grande
parte dos nossos políticos, nomeadamente os do “arco da governação” e
particularmente os da maioria, é a facilidade, o descaramento e a falta de
vergonha com que mentem.
Os políticos perderam, definitivamente, o sentido
da honra, o respeito pelo cidadão e pela verdade, a identificação com os
valores e os princípios básicos da República e do estado de direito. Face a
este fenómeno, que atingirá o seu apogeu no período de campanha eleitoral que
já está em curso, bem podemos temer, não pela infertilidade dos jovens que
tanto preocupa a ministra Albuquerque, mas sim pela saúde e pela sobrevivência
da democracia.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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