quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AS BODAS DE DOM FUAS CABEÇA D’ALHO CHOCHO

Reino dos Pássaros sem Asas, aos vinte dias do bem-aventurado duodécimo mês do nascimento do mais belo infante do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito, a Vossa Majestade nosso soberano por vontade e graça de Deus Nosso Senhor, saúde.
Dando cumprimento a Vossa sábia e bondosa vontade, se encontra este, por Vossa especial mercê e deferência, cronista mor do referido reino, a relatar humildemente os extraordinários eventos por ele presenciados, aos dezasseis dias do supracitado mês, neste bendito reino do Vosso Império e de que foi feliz protagonista Vosso muito merecidamente amado Príncipe e nosso Regente, Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho. Saberá Vossa Majestade que correram de feição as bodas e subsequentes ritos nupciais de Dom Fuas com Dona Urraca Pernalonga e Pé d’Estaca, em boa hora Ícara caída sem passarola nos braços de Vosso amado pimpolho e por ele levada ao altar, salvo seja, em cerimónia mui digna e plena de requintes exótico-futuristas tão do agrado destes servos do Vosso humilde reino. Após um dia de intensos preparativos, (consta que o enxoval da noiva valerá o equivalente a seiscentas vacas paridas e acompanhadas de suas imberbes crias) onde a arregimentação dos necessários bobos e damas de companhia não foi tarefa de somenos, começaram as cerimónias com um frugal banquete, onde foram consumidos cem alqueires de pão centeio, trezentas e cinquenta galinhas de cinco anos, quatrocentos e trinta e sete ovos, mil e quinhentos quilos de batata, setenta e oito litros de azeite, duzentas e vinte e três cabeças de alho, oitocentos e trinta bacalhaus de quilo e meio que perfazem um total de mil duzentos e quarenta e cinco quilos de bacalhau, quinhentas e vinte e quatro maçarocas de milho, três mil trezentas e seis couves-galegas e outras quantidades menores de mistelas de condimentação, noventa e cinco barris de quatro almudes de vinho tinto da região e três pipas de aguardente. Foi assim que, por vontade expressa de Vosso mui economizado e previdente filho, os mais de cinquenta nobres convidados fizeram uma espartana, mas fidalga e deliciosa refeição. No fim da qual dita cuja refeição foram entoadas loas e cantigas, (uma delas mesmo muito aplaudida, por sinal de Vosso ilustríssimo antepassado Dom Denis) por todos os convivas que assim manifestaram a Dom D’Alho Chocho a sua gratidão. Saiba Vossa Majestade que a vossa oposição aqui no Reino, não passando de uns quatro gatos-pingados pagos e manteúdos por um zé-ninguém, embora o nome dele não seja do nosso conhecimento, teve a aleivosia de afirmar que tão maravilhoso canto, digno da corte de uma Flandres ou de uma Florença, não passava de um “mal ritmado e monocórdico uivar de cães esfaimados”, ou, mais simplesmente, um “escaqueirar de pratos de sobremesa”, já que, como é do conhecimento público, tem o estalajadeiro desta região o infeliz, mas quiçá bem intencionado, hábito de oferecer umas sobremesas que se assemelham àquelas comidas bárbaras muito apreciadas pelos seus vossos mais indignos súbditos que habitam as rudes terras d’África e cuja degustação provoca no ser humano normal a inevitável e irreprimível vontade de escaqueirar o prato, sim, mas nos cornos do estalajadeiro, desculpe-me Vossa Majestade, mas é assim mesmo, pois só de “samica de caganeira”, como diria o nosso grande mestre Gil Vicente, padeceram durante quinze dias por sua conta dela a sobremesa nada mais nada menos que todos os convivas que com ela se deliciaram. Infelizmente, Dom D’Alho e Dona Pé d’Estaca não quiseram causar grande estrago no amor-próprio não deles mas do estalajadeiro e raparam até à última molécula o cálice da samica. Também disso se aproveitou o grupelho oposicionista para propalar a infame teoria de que o que rangia, durante a noite, no palácio de Dom Fuas, não era propriamente o leito nupcial, mas sim aquilo que Vossa Majestade tem na cabeça e que eu por decoro me abstenho de mencionar. Como podereis calcular, não terminariam aqui os cerimoniais, pois que apesar de a maior parte dos convivas terem regressado a seus deles lares, achou por bem Vosso ínclito rebento, Dom D’Alho, fazer-se acompanhar dos seus mais devotos bobos e dar seguimento à festança num local escuro e barulhento, onde em grande folgança damas e cavalheiros aproveitam para sacudir a piolhada que como Vossa Majestade sabe é praga que grassa pelas cabeças deste reino e de assim fazer uma assimilação de hábitos culturais dos nossos servos ultramarinos, tão do Vosso agrado, numa perfeita demonstração do inalienável casamento que fizemos, como nenhum outro império europeu, para o bem e para o mal, até que a morte nos separe, com esses povos a quem demos a luz da Fé e do entendimento. Têm os ditos locais esta vantagem muito embora me queira parecer a mim que, ou Vossa Majestade põe mão nisto, salvo seja, no que se passa nesses locais, ou muito brevemente se tornarão num antro de perdição, desculpável, no entanto, para a audácia, intrepidez e alegria incontida da jumentude de Dom Fuas que, assim, quis dar a Dona Pernalonga uma prova irrefutável do seu modernismo. Saiba Vossa Majestade que se gerou alguma balbúrdia no momento em que o digníssimo Príncipe, sua noiva e demais acompanhantes, que seguidamente mencionaremos, se preparavam para penetrar no transporte do futuro, a caranguejola voadora sem asas, apêndice importante, como calcula, neste reino, provocada por um covarde conotado com o malfadado grupelho que tentou raptar uma das damas de companhia que haveria de seguir no cortejo. É essa dama uma aia folgazã e jovial, cuja graça não mencionaremos, por ser objecto do relatório secreto que oportunamente enviámos a Vossa senhoria, e na presente crónica nomearemos como Dona Xis, e contra a qual este Vosso humilde servo, fruto de algumas averiguações dignas do célebre Charló Comes, alertou em devido tempo a mente bondosa do Vosso filho para a possibilidade de andar de amores com o dito cujo inominável, (e ser assim um perigo constante devido à sua dela presença contínua na corte) pelo que não se teria tratado de uma tentativa de rapto, mas antes, o que seria mais grave, de uma tentativa de fuga como muito finamente deu a entender Dom D’Alho Chocho nos ditos e escárnios do mais alto quilate intelectual e dando provas mais que sobejas de sua dele por divina graça inestimável esperteza e espírito. Muito folgaram os acompanhantes, iniciada a jornada, com a sabedoria, cultura e leveza de espírito de que dava mostras o nosso sagaz regente nos ataques subreptícios e bem medidos contra esse ausente inominável, revelando, também, assim, a sua superior capacidade estratégica, aliás sobejamente comprovada no comando dos seus dele exércitos, ao atacar o adversário durante a sua ausência para que este não possa defender-se, o que é, sem dúvida, a verdade de La Palice, também ele um militar, da estratégia bélica: um adversário ausente é um adversário que não se defende; um adversário que não se defende é um adversário derrotado; logo, um adversário ausente é um adversário derrotado. O próprio Aristóteles não faria melhor raciocínio, pelo que nos resta a nós, humildes servos, admirar e agradecer a Deus Nosso Senhor a enorme mercê que nos concedeu, por intermédio das benditas partes fracas de Sua Majestade e de nossa Imperatriz, (abençoadas partes fracas que tão grande fortaleza geraram!) ao prodigalizar-nos um monarca com um tão apurado sentido para o combate, uma impensável capacidade lógica e uma inimaginável inteligência, de cujas provas dadas a alegria sã do seu rosto aberto espelhando-se num magnífico sorriso amarelo, (por uma infeliz coincidência, me desculpe Vossa Majestade, a cor da samica…) são a marca mais inolvidável e convincente. Desculpe-nos ainda Vossa Majestade termo-nos desviado do trilho, coisa que não aconteceu naquela luminosa noite com a alegre caravana da qual faziam parte, para além de Dom Fuas, Dona Urraca e Dona Xis, os seguintes elementos: Dom Cortes Costuras e Alfaiates, senhor muito válido, possuidor de uma caranguejola e cuja douta opinião sobre a necessidade da existência de pena de morte no Vosso Império me apraz comunicar-vos, já que é o dito senhor adepto da teoria do olho por olho (não sei se o do cu) e dente por dente (não sei se o d’alho, com perdão de Vossa Alteza); Dona Urrice Miolos d’Hortelã Pimenta, senhora de bela dentição cuja feroz amostragem é razão suficiente para afastar o mais intrépido e intrometido pretendente; e ainda Dona Joana d’Arco Mal Passada, de cuja graciosidade me abstenho de falar, por ser minha pena suspeita, (Vossa Majestade sempre soube do meu fraco por esse tipo de gente). Arribada a comitiva ao sobredito local nomeado de Passarola de Arribação, de imediato tiveram início os folguedos traduzidos em danças variadas e regados com canecas de cerveja do mais puro malte, tendo Dom Chocho e Dona Pernalonga dado mostras de grande educação e esmero na arte de bem saracotear todo o traseiro no que foram muito admirados e por todos imitados conforme puderam. Dona Mal Passada e Dona Xis, muito expeditas, alegraram graciosamente o ambiente com seus ademanes, bamboleios e outras danças dos sete véus no que foram muito aplaudidas por Dom Alfaiates e Dona Hortelã Pimenta. Finalmente, de madrugada, os noivos mai-los seus deles acompanhantes, digníssimos bobos, regressaram felizes a seu palácio, no qual terminaram a função. (Ou não, como insinua a oposição.)
Na próxima epístola contamos pôr Vossa Majestade a par da realização das cerimónias religiosas que não serão, certamente, para dar graças a Deus e honras a Vossa Senhoria, menos grandiosas e imponentes.

Paço do Infante Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho, aos vinte dias do mês de Dezembro do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito.

Vosso Servo

Augusto Pena Fina


 jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


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