COINCIDÊNCIAS…
OU TALVEZ NÃO
Cada vez mais esquecida dos horrores
de duas guerras mundiais, ocorridas na primeira parte do séc. XX e separadas
por apenas 20 anos, a Humanidade trilha caminhos de uma cada vez maior
desumanização, traduzida no aumento substancial de seres humanos cujos direitos
fundamentais não passam de uma longínqua miragem.
O alastrar das desigualdades entre
países ricos e países pobres com o consequente aumento de uma enorme massa de
indivíduos reduzidos à mais extrema miséria material, o real e constante risco
de vida em zonas de guerra permanente, as perseguições e atentados de origem
étnica ou religiosa, associados à informação globalizada que hoje existe e à
natural motivação de qualquer ser humano para satisfazer necessidades tão
básicas como a de se alimentar ou de viver com um mínimo de segurança,
potenciam a pressão migratória que, sobretudo nos últimos 30 ou 40 anos, se tem
acentuado sobre os países ricos do hemisfério norte.
A resposta destes países a esse
fenómeno migratório tem-se vindo a deteriorar nos últimos anos, graças ao
crescimento daquilo que podemos apelidar de “egoísmo social radical”, traduzido
numa crença falsa e injustificada, disseminada a partir de alguns quadrantes
políticos, segundo a qual esse fenómeno migratório é responsável pelas “nossas”
crises económicas, pelo “nosso” desemprego, pela “nossa” insegurança. A
construção desse egoísmo social obedece a motivações ideológicas bem
identificadas, presentes em organizações políticas de direita ou de
extrema-direita, com matrizes nacionalistas, racistas ou xenófobas. Não é por
acaso que assistimos, sobretudo nos países ocidentais, a uma ascensão tão real
quanto perigosa dessas ideologias que misturam a defesa de políticas económicas
protecionistas com a defesa da concessão de direitos e serviços sociais apenas
aos cidadãos nacionais “de raiz”, o anti-islamismo com a recusa da ajuda aos
refugiados.
A União Europeia tem, hoje, uma
política para os refugiados que não respeita a Convenção Relativa ao Estatuto
dos Refugiados, aprovada em 1951, e que se afasta cada vez mais dos valores e
dos princípios consignados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, a
qual garante, no seu artigo 14º, nº 1, que “toda a pessoa sujeita a perseguição
tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países”. Alguns
países desrespeitam completamente esses princípios, nomeadamente a Polónia, a
Hungria, a Áustria, a Bulgária ou a Eslováquia, países onde a direita e a
extrema-direita governam ou têm um peso político cada vez maior. A Itália,
desde que passou a ser governada por uma coligação constituída pela Liga Norte
(de extrema-direita) e o Movimento 5 Estrelas (populista), recusa receber
refugiados; recentemente, um barco com mais de seiscentas pessoas, rejeitado
pelo governo italiano, acabou por ser acolhido em Espanha, curiosamente por um
governo socialista que acabou de substituir um governo de direita. Os atuais
líderes da União Europeia, Merkel e Macron, não conseguem levar sequer os seus
países a uma política assertiva no que respeita aos direitos dos refugiados, em
parte devido à crescente ameaça eleitoral de partidos xenófobos e racistas como
a Alternativa para a Alemanha ou a Frente Nacional. Nos Estados Unidos da
América, desde a chegada ao poder do populista de direita, Trump, a situação
tem vindo a agravar-se de forma intolerável. As famílias que tentam entrar no
país, provenientes sobretudo da América Central e do Sul, são imediatamente
separadas. Os adultos são presos em autênticos campos de concentração; as
crianças são metidas em jaulas de metal e alimentadas com sacos de batatas
fritas, tendo por cama umas folhas de jornal. Esta situação degradante envergonharia
até um chimpanzé, mas não foi suficiente para envergonhar Trump, nem um terço
dos americanos. Internamente, depois das críticas que recebeu, lá decretou que
as famílias de imigrantes não fossem separadas, mas que continuassem a viver em
campos de concentração. A nível internacional, amuado com as acusações vindas
de vários quadrantes, o melhor que conseguiu foi decretar a saída dos Estados
Unidos do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, justificando-a com uma alegada
política anti-israelita por parte dos restantes membros desse organismo.
Sim, a direita e a extrema-direita
estão, novamente, a ganhar um enorme e perigoso poder no mundo ocidental,
sobretudo na Europa e em todo o continente americano. Sim, muitos direitos
humanos estão a ser desprezados e espezinhados como nunca tinham sido após a
Segunda Guerra Mundial. E, sim: a correlação entre estes dois fenómenos não é
uma mera coincidência.
José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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