quarta-feira, 16 de setembro de 2015

NOVA ENCÍCLICA DO PAPA FRANCISCO (I)

O Papa Francisco fez publicar, no passado mês de junho, mais uma encíclica, intitulada “Laudato Si”, em português “Louvado Seja”, que tem como subtítulo “sobre o cuidado da casa comum”. Inspirou-se o Papa, tal como fizera na adoção do seu nome papal, na figura carismática de S. Francisco de Assis, em relação ao qual afirma: “ nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.
Começarei por dizer que, só por si, estes quatro pontos se poderiam constituir como estruturantes de um belo programa político e pessoal. Esta nova encíclica insere-se no magistério social da Igreja, como nela diz o Papa, e tem como objetivos explícitos alertar para a dramática situação ecológica do planeta Terra (a casa comum) e apontar possíveis caminhos de esperança face às ameaças que pairam sobre o seu futuro e, consequentemente, o da humanidade. Importa salientar esta preocupação do Papa com as questões ecológicas, mas, sobretudo, a forma inteligente e lúcida como as analisa e as relaciona com problemas de natureza económica, social e política. Com mais esta encíclica de “intervenção”, o Papa mostra como a Igreja deve estar comprometida com a dimensão política do Homem e apontar os caminhos que, também nesta matéria, melhor se adequam aos ensinamentos de Cristo. Durante séculos, prevaleceu na Igreja a ideia de que não devia meter-se em questões políticas e ideológicas. Estribavam-se os seus defensores, (e ainda há muitos, dentro e fora dela) essencialmente, em dois episódios do Evangelho, duas famosas respostas dadas por Cristo, em situações diferentes: “dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” e “o meu reino não é deste mundo”. O certo é que esse “alheamento conveniente” por parte da Igreja, relativamente aos problemas sociais e políticos do Homem, permitiu que se tivessem produzido as maiores barbaridades na história da humanidade, umas vezes com a indiferença, outras vezes com o próprio beneplácito dessa mesma Igreja. Não admira que pensadores com grandes preocupações sociais, como Karl Marx, se tenham afastado ou mesmo incompatibilizado com a religião e com deuses que caucionavam a escravatura, a exploração do homem pelo homem, a miséria, as diferenças de dignidade e de direitos entre os seres humanos, na medida em que incutiam, subliminarmente ou mesmo explicitamente, a mensagem de que tudo na sociedade obedecia a uma ordem divina preestabelecida e, portanto, tudo estava bem como estava, sendo a revolta contrária à vontade divina. O homem devia preocupar-se com a eternidade da alma e não com os assuntos mesquinhos da temporalidade física. Ora, teria sido este efeito apaziguador e anestesiante da religião que, segundo Marx, teria levado gerações atrás de gerações de escravos, de explorados e de deserdados da Terra a renderem-se a uma resignação alienada, levando-o a proferir a famosa frase: “a religião é o ópio do povo”. Talvez que, se Marx vivesse hoje, não esquecendo o passado, mas conhecendo as mensagens do Papa Francisco, pudesse, antes, afirmar: “o consumismo é o ópio do povo”. O próprio Papa, certamente, não descartaria subscrever essa afirmação porque é, precisamente, o consumismo e todo o sistema económico capitalista que dele se alimenta que, mais uma vez, são verberados e apontados por ele como os principais responsáveis pelo rumo altamente preocupante que a humanidade tomou.
Outro aspeto muito relevante na publicação desta encíclica é o facto de o Papa ter colocado, novamente, os problemas ecológicos no centro do debate e na chamada agenda mediática. E isso é tanto mais importante quanto o facto de serem esse tipo de problemas os mais graves que enfrentamos, por duas razões que o próprio aponta. Uma delas prende-se com o facto de esses problemas resultarem do sistema económico capitalista cuja lógica se baseia no aumento exponencial da produção e do lucro, levando a uma sobre exploração e esgotamento dos recursos naturais e a desequilíbrios ambientais, cujas consequências já se fazem sentir em certas alterações climáticas, e que, a médio e longo prazo, serão, provavelmente, catastróficas. A outra razão assenta no facto de o Papa, de forma brilhante, relacionar o fenómeno da ecologia com o da pobreza, da fome, da desigualdade, da injustiça social, da emigração massiva e de quase todos os problemas sociais que os povos enfrentam, como diz, no ponto 25: “as mudanças climáticas são um problema global, com graves implicações ambientais, sociais, económicas, distributivas e políticas, constituindo, atualmente, um dos principais desafios para a humanidade; é trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria, agravada pela degradação ambiental”. A crise económica que a Europa vive há quase uma década (e na qual se afunda graças à cegueira, ao egoísmo, à vontade de poder e à submissão ao capitalismo financeiro por parte dos seus responsáveis, incluindo os aprendizes da cartilha neoliberal, Passos e Rajoy) contribuiu para que os temas da ecologia passassem para a zona do inconsciente coletivo europeu. O debate desenrola-se, exclusivamente, em questões económicas e o economês tornou-se a língua oficial da comunicação social e da opinião pública. Mas isso acontece, também, porque esse “silêncio” interessa aos responsáveis pela crise ecológica, interessados em desviar dela os olhos do mundo para poderem continuar a chafurdar nela a seu bel-prazer. Diz o Papa, no ponto 26: “Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder económico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas”. Ao mesmo tempo, o Papa não deixa de elogiar a tarefa de determinadas organizações que lutam, algo quixotescamente, pela defesa do ambiente, contra esse poder tecnocientífico manipulado pelo polvo financeiro: “É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não delegável de preservar o ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais”.(ponto 38)

(Continua no próximo número)

José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


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