MESTRES DA
TRANQUIBÉRNIA
Num Estado de Direito, a forma de
ocupar os cargos públicos, seja por eleição, por nomeação ou por concurso, está
prevista na lei, nomeadamente na Constituição, como acontece no nosso país. À
partida tudo deveria ser pacífico e transparente, sem celeumas ou suspeitas,
não fosse a lamentável tendência de alguns políticos encartados para
transformarem estas ocasiões em oportunidades de autopromoção, recorrendo à
arte da tranquibérnia. Faz parte do
folclore que, chegado o momento de proceder à nomeação do titular de um cargo
público, os interesses políticos, económicos ou corporativos entrem num modo de
frenesim, cujo grau de histeria varia em função da existência ou não de
assuntos mais espetaculares para a comunicação social explorar, como sejam
catástrofes, crimes de faca e alguidar, palermices do futebol ou mochilas
abandonadas no Metro, isto segundo a bitola imposta pela CMTV e que vai sendo
fielmente seguida pelos restantes canais.
Recentemente, o país político e
judicial viveu uma grande excitação com a nomeação do novo Procurador Geral da
República (PGR) que, por estes dias, inicia o seu mandato, uma vez terminado o
da Procuradora cessante, Joana Marques Vidal. Tal como estabelece a
Constituição, no nº 3 do artigo 220, “o mandato do Procurador-Geral da
República tem a duração de seis anos”. Até há um ano atrás, era consensual que,
terminado o seu mandato, Joana Marques Vidal abandonaria naturalmente o cargo,
como ela própria já tinha afirmado, e outro se seguiria. Nunca, em ocasiões
anteriores, desde que esta regra constitucional está em vigor, fosse com Souto
Moura ou Pinto Monteiro, se colocou sequer em discussão pública a possibilidade
de uma recondução no cargo, pura e simplesmente porque ela não está prevista na
lei. A questão que se impõe, então, é a de saber por que cargas d’água, desta
vez o tema gerou tanta volúpia, sobretudo nos partidos da direita. A resposta
parece, por demais, evidente: porque, a julgar pelas pressões e pelas reações,
existem interesses políticos e/ou interesses pessoais na nomeação do PGR. Desde
logo, porque sendo essa nomeação uma competência do Presidente da República,
que tem sempre a última palavra face à proposta do Governo, e que está
totalmente fora da esfera de competências dos partidos e da Assembleia da
República, só esses interesses podem explicar a pressão inaceitável colocada
pelos partidos da direita, sobretudo pelo CDS, para que Joana Marques Vidal
fosse reconduzida, por melhor que tenha sido o seu desempenho. A pressão de Rui
Rio, de tão suave, ficou-se mesmo pela tão desajeitada como incompreensível
sugestão de colocar como alternativa à recondução da Procuradora cessante uma
figura exterior ao Ministério Público. É com propostas deste jaez que Rui Rio
dá gás a Montenegro e a Passos Coelho, líderes dos outros dois PSD’s que
existem atualmente. E que só não são quatro porque Santana Lopes decidiu dar
outro nome ao seu!
Inaceitável, também, foi o facto de
alguma comunicação social se ter constituído como um poderoso lóbi a favor das
pretensões desses partidos, não se coibindo mesmo de anunciar um imaginário
acordo entre Costa e Marcelo para manter a Procuradora no cargo como um facto
consumado. Afinal o oráculo, escarrapachado com pompa e circunstância na
primeira página de um jornal de referência como é o Expresso e replicado em
todas as caixas de ressonância da direita como o Sol, o Observador e os vários
canais privados de televisão, veio a revelar-se ridícula e escandalosamente
falso, mostrando à saciedade que a comunicação social portuguesa não é séria
nem de confiança, limitando-se a servir os interesses dos grupos económicos e
políticos seus proprietários e esquecendo totalmente os interesses de quem os
vê, lê e ouve e tem o direito de ser informado com isenção.
No entanto, ainda não iríamos ficar
por aqui! A cereja no topo do bolo de mais esta lamentável cena da política
portuguesa chegou com as reações à decisão do Presidente da República. Os
responsáveis pela indicação de Marques Vidal, Paula Teixeira da Cruz e Passos
Coelho, acolitados por cópias rascas de Marcelo, como Marques Mendes ou
Ferreira Leite, foram vítimas de uma grave recidiva de ressabiamento e
desataram a lançar o labéu sobre a decisão do Presidente da República,
qualificando-a de “indecente”, “com motivos escondidos”, “fantochada” e outros
mimos do género. Um autêntico manual de chicana política.
Mas houve mais. O próprio mestre,
de quem Passos bebeu a arte da chicana, Cavaco Silva, também não se inibiu de
lançar a sua alicantina para o terreno. Com uma semana de atraso, é certo, como
convém a um ser que vive em estado de mumificação e funciona ao ralenti, mas,
ainda assim, com o assinalável ferrete de um mestre da tranquibérnia que não
deixa os seus créditos por mãos alheias. Pusilânime, atribuiu a decisão ao
Governo e sibilino, qualificou-a de “muito estranha”. Marcelo reagiu como uma
pessoa séria, limitando-se a lembrar o desmemoriado e a assumir que a nomeação
de uma nova Procuradora foi uma decisão sua. Até custa a crer que o atual Presidente
da República alguma vez tenha feito parte do PSD.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
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