COMPRIMIDOS PARA A
MEMÓRIA
Dizem que somos um povo de “brandos costumes”. Talvez.
É uma virtude ou um defeito? Depende das circunstâncias. O que somos é,
seguramente, um povo com “memória curta”. E isso é, claramente, um defeito, na
medida em que a memória é um dos fatores inerentes à lucidez e à inteligência.
Existem inúmeros factos na nossa história que atestam a falta de memória de que
sofre o povo português, nomeadamente no plano político. Recordarei, apenas, um
dos últimos fenómenos dessa amnésia coletiva que, ciclicamente, nos ataca de
forma grave: a eleição de Cavaco Silva como Presidente da República. Em 1996,
depois de dez anos a governar o país de forma autoritária, Cavaco era odiado
pela maioria dos portugueses que viam nele uma espécie de má reencarnação do
ditador de Santa Comba; quis ser Presidente, candidatou-se e sofreu uma derrota
humilhante perante Jorge Sampaio; dez anos depois, a falta de memória dos portugueses
permitiu-lhe ser escolhido para o mais alto cargo da nação.
Porque somos assim e porque esses ataques de
amnésia tendem a agudizar-se nos momentos eleitorais, talvez não seja má ideia,
em vésperas de eleições tão importantes para o nosso país, recorrer a uns
“comprimidinhos” para a memória, destinados a diminuir a probabilidade de esses
ataques se transformarem em surto, quiçá em pandemia. Convém, no entanto,
avisar os pacientes que os efeitos deste fármaco poderão não se fazer sentir,
na medida em que a falta de memória, para além de congénita, é agravada nestas
épocas pela difusão de um vírus terrível, chamado “branqueamento”, lançado na
opinião pública através da verborreia demagógica de políticos e comentadores.
Aconselham-se, pois, todos os eleitores, sobretudo os que têm mais tendência
para se deixar afetar por esse vírus, não só a tomar várias doses destes comprimidos,
mas, sobretudo, a evitar qualquer exposição à tal verborreia, pelo menos
durante o ano que antecede o período eleitoral. Basta “recordar” que o governo
já está em campanha eleitoral desde agosto do ano passado, quando Passos Coelho
(PC) começou a garantir aos portugueses que a crise terminara e o futuro era um
céu aberto. Daí para cá, temos ouvido disparates tão grandes como a ministra
Albuquerque dizer que “temos os cofres cheios”, enquanto a dívida pública continua
pelos 130% do PIB e o crescimento económico não nos permite, sequer, pagar os
juros dessa dívida. Ouvimos PC dizer, em janeiro de 2015, que “este governo foi
o que mais investiu na saúde”, quando as mortes nas urgências dos hospitais
públicos se sucediam diariamente por falta de assistência em tempo útil, devido
à falta de pessoal provocada pelos cortes dos últimos anos. Ouvimos o mestre da
prestidigitação política, PC, contrariar todos os economistas sérios do país e
do mundo, afirmando que “não queremos, nem precisamos, nenhuma negociação da
dívida portuguesa porque ela é sustentável”. Ouvimos o cúmulo do descaramento,
PC, afirmar, insultuosamente, em junho de 2015, que nunca aconselhara os
portugueses a emigrar, considerando isso um “mito urbano”, procurando apagar da
memória dos portugueses o tempo em que ele e outros membros do seu governo
apontaram os países da CPLP como uma boa alternativa, nomeadamente para jovens
e professores à procura de emprego. Ouvimos o catavento pau mandado da Merkel,
PC, comentar, desdenhosamente, a possibilidade, aliás defendida por figuras tão
díspares como Cavaco Silva ou Francisco Louçã, de o BCE imprimir mais euros
para injetar na economia europeia, sobretudo nos países com mais dificuldades, em
novembro de 2011: “se o BCE tivesse por função resolver o problema dos países
indisciplinados, imprimindo mais euros, pura e simplesmente, esse seria um
péssimo sinal”. O BCE tomou essa medida, em finais de 2014, e, “pura e
simplesmente”, PC passou a ser um defensor dela “desde pequenino”; aliás, só
faltou dizer que tinha sido ideia dele, como parece ter insinuado em relação ao
acordo para o terceiro resgate da Grécia, depois de tudo ter feito para o
impedir! Ouvimos, quando eclodiu o caso BES, o suprasumo da adivinhação, PC,
garantir que esse banco estava sólido, o problema era exclusivamente no GES;
vai-se a ver, o BES estava falido, muito boa gente estava “lesada”, incluindo
os “entalados” de última hora que, confiando na palavra de PC, toca de comprar
ações desse banco ao desbarato, sonhando com dinheiro fácil e muito, quando
tudo normalizasse. Perante as consequências deste “extarordinário ato de
gestão” do seu amigo e principal conselheiro, Salgado, PC jura a pés juntos que
o Estado não intervirá nos problemas do BES; quinze dias depois, a ministra
Albuquerque anuncia uma injeção de 4 mil milhões, por parte do Estado, até hoje
não recuperados. Os “entalados” continuam a ver navios, o “dono disto tudo que
por milagre passou a dono de nada” foi posto em retiro, para remissão dos seus
pecados, também a ver navios, mas na baía de Cascais e o “polícia que soube
sempre tudo mas nunca fez nada” iniciou um novo mandato à frente do Banco de
Portugal, uma espécie de prémio à inércia consciente e voluntária,
cumplicemente obsequiado por PC.
Vimos, ouvimos e sentimos, ao longo de mais de
quatro anos, a criatura gepetiana, PC, fazer tábua rasa de todas as promessas
anunciadas no último período eleitoral análogo ao que vivemos agora. Nunca um
governo esteve tão bem servido na arte de iludir a realidade através da
demagogia. Aliás, equipa onde alinhe Paulo Portas, outro grande mestre do
cinismo e da hipocrisia, pode, até, dar-se ao luxo de alterar o significado das
palavras como ele fez com o termo “irrevogável”. Ou de dizer aldrabices como
aquela que esse ex-libris da alarvidade pronunciou, em 27 de março de 2014, na
AR: “só ficou sem o rendimento social de inserção quem tinha mais de cem mil
euros na conta”.
Seria um passo importante para um futuro melhor, se
os portugueses tomassem estes e muitos outros comprimidos para a memória,
(basta abrir a internet para os encontar) e fizessem, nestas eleições, uma
escolha diferente daquelas que, desde a entrada na UE, têm levado o país a
afundar-se na corrupção, na crescente desigualdade entre ricos e pobres, na
injustiça e na falta de horizontes para os jovens. Nesse sentido, posso
compreender aqueles que se abstêm – significa que desacreditaram completamente
da política, dos políticos e, pior, da democracia; posso compreender, também,
os que votam em branco ou nulo – significa que não confiam em nenhum dos candidatos
e partidos que se perfilam; compreendo e defendo que se vote em qualquer um dos
partidos que, depois da entrada na UE, nunca tiveram responsabilidades
governativas – significa que acreditam na existência de alternativas e não se
vergam ao medo de procurar caminhos novos para o futuro. Consigo compreender
qualquer uma destas opções. Só não compreendo aqueles que continuam,
“estultamente”, a votar num dos três partidos (PSD, CDS e PS) que colocaram o
país nesta situação, nada fazem para dela sair e deram provas cabais e
conclusivas, ao longo destes trinta anos, de incompetência, imoralidade e falta
de vergonha. Como diziam os romanos, “errare humanum est, sed in errore
preserverare stultum” (errar é humano, mas insistir no erro é estúpido).
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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