Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção (contos). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção (contos). Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AS BODAS DE DOM FUAS CABEÇA D’ALHO CHOCHO

Reino dos Pássaros sem Asas, aos vinte dias do bem-aventurado duodécimo mês do nascimento do mais belo infante do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito, a Vossa Majestade nosso soberano por vontade e graça de Deus Nosso Senhor, saúde.
Dando cumprimento a Vossa sábia e bondosa vontade, se encontra este, por Vossa especial mercê e deferência, cronista mor do referido reino, a relatar humildemente os extraordinários eventos por ele presenciados, aos dezasseis dias do supracitado mês, neste bendito reino do Vosso Império e de que foi feliz protagonista Vosso muito merecidamente amado Príncipe e nosso Regente, Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho. Saberá Vossa Majestade que correram de feição as bodas e subsequentes ritos nupciais de Dom Fuas com Dona Urraca Pernalonga e Pé d’Estaca, em boa hora Ícara caída sem passarola nos braços de Vosso amado pimpolho e por ele levada ao altar, salvo seja, em cerimónia mui digna e plena de requintes exótico-futuristas tão do agrado destes servos do Vosso humilde reino. Após um dia de intensos preparativos, (consta que o enxoval da noiva valerá o equivalente a seiscentas vacas paridas e acompanhadas de suas imberbes crias) onde a arregimentação dos necessários bobos e damas de companhia não foi tarefa de somenos, começaram as cerimónias com um frugal banquete, onde foram consumidos cem alqueires de pão centeio, trezentas e cinquenta galinhas de cinco anos, quatrocentos e trinta e sete ovos, mil e quinhentos quilos de batata, setenta e oito litros de azeite, duzentas e vinte e três cabeças de alho, oitocentos e trinta bacalhaus de quilo e meio que perfazem um total de mil duzentos e quarenta e cinco quilos de bacalhau, quinhentas e vinte e quatro maçarocas de milho, três mil trezentas e seis couves-galegas e outras quantidades menores de mistelas de condimentação, noventa e cinco barris de quatro almudes de vinho tinto da região e três pipas de aguardente. Foi assim que, por vontade expressa de Vosso mui economizado e previdente filho, os mais de cinquenta nobres convidados fizeram uma espartana, mas fidalga e deliciosa refeição. No fim da qual dita cuja refeição foram entoadas loas e cantigas, (uma delas mesmo muito aplaudida, por sinal de Vosso ilustríssimo antepassado Dom Denis) por todos os convivas que assim manifestaram a Dom D’Alho Chocho a sua gratidão. Saiba Vossa Majestade que a vossa oposição aqui no Reino, não passando de uns quatro gatos-pingados pagos e manteúdos por um zé-ninguém, embora o nome dele não seja do nosso conhecimento, teve a aleivosia de afirmar que tão maravilhoso canto, digno da corte de uma Flandres ou de uma Florença, não passava de um “mal ritmado e monocórdico uivar de cães esfaimados”, ou, mais simplesmente, um “escaqueirar de pratos de sobremesa”, já que, como é do conhecimento público, tem o estalajadeiro desta região o infeliz, mas quiçá bem intencionado, hábito de oferecer umas sobremesas que se assemelham àquelas comidas bárbaras muito apreciadas pelos seus vossos mais indignos súbditos que habitam as rudes terras d’África e cuja degustação provoca no ser humano normal a inevitável e irreprimível vontade de escaqueirar o prato, sim, mas nos cornos do estalajadeiro, desculpe-me Vossa Majestade, mas é assim mesmo, pois só de “samica de caganeira”, como diria o nosso grande mestre Gil Vicente, padeceram durante quinze dias por sua conta dela a sobremesa nada mais nada menos que todos os convivas que com ela se deliciaram. Infelizmente, Dom D’Alho e Dona Pé d’Estaca não quiseram causar grande estrago no amor-próprio não deles mas do estalajadeiro e raparam até à última molécula o cálice da samica. Também disso se aproveitou o grupelho oposicionista para propalar a infame teoria de que o que rangia, durante a noite, no palácio de Dom Fuas, não era propriamente o leito nupcial, mas sim aquilo que Vossa Majestade tem na cabeça e que eu por decoro me abstenho de mencionar. Como podereis calcular, não terminariam aqui os cerimoniais, pois que apesar de a maior parte dos convivas terem regressado a seus deles lares, achou por bem Vosso ínclito rebento, Dom D’Alho, fazer-se acompanhar dos seus mais devotos bobos e dar seguimento à festança num local escuro e barulhento, onde em grande folgança damas e cavalheiros aproveitam para sacudir a piolhada que como Vossa Majestade sabe é praga que grassa pelas cabeças deste reino e de assim fazer uma assimilação de hábitos culturais dos nossos servos ultramarinos, tão do Vosso agrado, numa perfeita demonstração do inalienável casamento que fizemos, como nenhum outro império europeu, para o bem e para o mal, até que a morte nos separe, com esses povos a quem demos a luz da Fé e do entendimento. Têm os ditos locais esta vantagem muito embora me queira parecer a mim que, ou Vossa Majestade põe mão nisto, salvo seja, no que se passa nesses locais, ou muito brevemente se tornarão num antro de perdição, desculpável, no entanto, para a audácia, intrepidez e alegria incontida da jumentude de Dom Fuas que, assim, quis dar a Dona Pernalonga uma prova irrefutável do seu modernismo. Saiba Vossa Majestade que se gerou alguma balbúrdia no momento em que o digníssimo Príncipe, sua noiva e demais acompanhantes, que seguidamente mencionaremos, se preparavam para penetrar no transporte do futuro, a caranguejola voadora sem asas, apêndice importante, como calcula, neste reino, provocada por um covarde conotado com o malfadado grupelho que tentou raptar uma das damas de companhia que haveria de seguir no cortejo. É essa dama uma aia folgazã e jovial, cuja graça não mencionaremos, por ser objecto do relatório secreto que oportunamente enviámos a Vossa senhoria, e na presente crónica nomearemos como Dona Xis, e contra a qual este Vosso humilde servo, fruto de algumas averiguações dignas do célebre Charló Comes, alertou em devido tempo a mente bondosa do Vosso filho para a possibilidade de andar de amores com o dito cujo inominável, (e ser assim um perigo constante devido à sua dela presença contínua na corte) pelo que não se teria tratado de uma tentativa de rapto, mas antes, o que seria mais grave, de uma tentativa de fuga como muito finamente deu a entender Dom D’Alho Chocho nos ditos e escárnios do mais alto quilate intelectual e dando provas mais que sobejas de sua dele por divina graça inestimável esperteza e espírito. Muito folgaram os acompanhantes, iniciada a jornada, com a sabedoria, cultura e leveza de espírito de que dava mostras o nosso sagaz regente nos ataques subreptícios e bem medidos contra esse ausente inominável, revelando, também, assim, a sua superior capacidade estratégica, aliás sobejamente comprovada no comando dos seus dele exércitos, ao atacar o adversário durante a sua ausência para que este não possa defender-se, o que é, sem dúvida, a verdade de La Palice, também ele um militar, da estratégia bélica: um adversário ausente é um adversário que não se defende; um adversário que não se defende é um adversário derrotado; logo, um adversário ausente é um adversário derrotado. O próprio Aristóteles não faria melhor raciocínio, pelo que nos resta a nós, humildes servos, admirar e agradecer a Deus Nosso Senhor a enorme mercê que nos concedeu, por intermédio das benditas partes fracas de Sua Majestade e de nossa Imperatriz, (abençoadas partes fracas que tão grande fortaleza geraram!) ao prodigalizar-nos um monarca com um tão apurado sentido para o combate, uma impensável capacidade lógica e uma inimaginável inteligência, de cujas provas dadas a alegria sã do seu rosto aberto espelhando-se num magnífico sorriso amarelo, (por uma infeliz coincidência, me desculpe Vossa Majestade, a cor da samica…) são a marca mais inolvidável e convincente. Desculpe-nos ainda Vossa Majestade termo-nos desviado do trilho, coisa que não aconteceu naquela luminosa noite com a alegre caravana da qual faziam parte, para além de Dom Fuas, Dona Urraca e Dona Xis, os seguintes elementos: Dom Cortes Costuras e Alfaiates, senhor muito válido, possuidor de uma caranguejola e cuja douta opinião sobre a necessidade da existência de pena de morte no Vosso Império me apraz comunicar-vos, já que é o dito senhor adepto da teoria do olho por olho (não sei se o do cu) e dente por dente (não sei se o d’alho, com perdão de Vossa Alteza); Dona Urrice Miolos d’Hortelã Pimenta, senhora de bela dentição cuja feroz amostragem é razão suficiente para afastar o mais intrépido e intrometido pretendente; e ainda Dona Joana d’Arco Mal Passada, de cuja graciosidade me abstenho de falar, por ser minha pena suspeita, (Vossa Majestade sempre soube do meu fraco por esse tipo de gente). Arribada a comitiva ao sobredito local nomeado de Passarola de Arribação, de imediato tiveram início os folguedos traduzidos em danças variadas e regados com canecas de cerveja do mais puro malte, tendo Dom Chocho e Dona Pernalonga dado mostras de grande educação e esmero na arte de bem saracotear todo o traseiro no que foram muito admirados e por todos imitados conforme puderam. Dona Mal Passada e Dona Xis, muito expeditas, alegraram graciosamente o ambiente com seus ademanes, bamboleios e outras danças dos sete véus no que foram muito aplaudidas por Dom Alfaiates e Dona Hortelã Pimenta. Finalmente, de madrugada, os noivos mai-los seus deles acompanhantes, digníssimos bobos, regressaram felizes a seu palácio, no qual terminaram a função. (Ou não, como insinua a oposição.)
Na próxima epístola contamos pôr Vossa Majestade a par da realização das cerimónias religiosas que não serão, certamente, para dar graças a Deus e honras a Vossa Senhoria, menos grandiosas e imponentes.

Paço do Infante Dom Fuas Cabeça D’Alho Chocho, aos vinte dias do mês de Dezembro do ano da graça de mil quinhentos e oitenta e oito.

Vosso Servo

Augusto Pena Fina


 jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


sexta-feira, 6 de março de 2015

CARTA ABERTA AO NOSSO PRIMEIRO …

Caro nosso primeiro…
Primeiro que tudo… quero agradecer-te por seres o nosso primeiro. Não é qualquer um que pode gabar-se de ter um primeiro como tu. Peço desculpa por tratar-te por tu, mas como temos mais ou menos a mesma idade… E depois, tu mesmo tiveste o cuidado de descer ao nosso nível de simples mortais, quando reconheceste que não és perfeito; daí…, como eu também não sou…, penso que não fica mal tratarmo-nos por tu. Aliás, essa tua descida do Olimpo, onde te colocas quando dizes que não és como os outros políticos, comoveu-me ao ponto de fazer brotar dentro de mim um irreprimível desejo, qual enxurrada de incandescente lava, de te agradecer. Perguntarás tu, do alto dessa tua mal disfarçada humildade: “agradecer, porquê?” Pois está claro: agradecer por tudo quanto nos tens ensinado e pelos belos exemplos que nos tens dado, não só aos portugueses, mas até aos europeus, nossos irmãos (ou mestres, se forem alemães).
Tentarei, pois, não me esquecer de nada. É que a minha memória, tal como a tua, também não é muito famosa: esqueço-me muito das coisas, sobretudo quando não me dá jeito nenhum lembrar-me delas; coisas simples e comezinhas, aliás, como pagar as contribuições à segurança social, ou saber se durante vários anos recebi cerca de cinco mil euros por mês de uma empresa qualquer sem os declarar às finanças, ou pagar o IRS… Enfim, coisas que esquecem a qualquer um. Mas adiante. Uma das virtudes que é teu apanágio, e das quais nos tens dado eloquentes e grandiosas lições, é a solidariedade e a grandeza de espírito. Os gregos que o digam! Aliás, essa tua magnanimidade ainda é mais digna de realce, tratando-se eles de uns ingratos e de uns caloteiros. Sim. Como é que podem vir dizer que tu e a tua amiga Maria Luís, cujas virtudes, diga-se, não ficam atrás das tuas, (talvez um dia também lhe escreva a agradecer-lhas; ela merece!) tudo fizeram para os prejudicar nas negociações deles com a troika? Toda a gente sabe (pois se foste tu quem o disse) que tentaste, até, ajudá-los!… Portanto, são todos uns aldrabões: o Tsipras, o Varoufakis, o jornal alemão Die Welt e até o malandro do Juncker, vejam lá, que veio dizer que Portugal e a Espanha se esforçaram ao máximo para fazer a folha aos gregos. Claro que eles não perceberam foi o alcance da tua ajuda – o que tu queres, apenas, é que eles deixem de ser piegas, parem de se lamentar por causa da desgraça a que os condenaram e paguem o que devem. Ou seja, que se portem como homens a sério, com pêlos no peito e tudo. E que se deixem de “brincadeiras de crianças”, como tu apelidaste, com a prosápia que te caracteriza, as eleições que eles por lá engendraram. É que já os portugueses que não gostam de ti (por incrível que pareça ainda há gente dessa) também têm a mesma mania e sofrem do mesmo defeito dos gregos; coisa que tu, aliás, nos primeiros tempos do teu reinado, verberaste e muito bem, acusando-os de estarem sempre a queixar-se que têm de pagar mais impostos, taxas e contribuições, que têm de trabalhar mais e ganhar menos, que têm de emigrar porque cá não há emprego, sei lá; enfim, como lhes chamaste, na altura, são uns piegas que não sabem o que custa a vida; uns mariquinhas… Tivessem eles que se dedicar à política e ao partido a partir dos 15 anos e tivessem subido na vida à custa disso e dos “bons” empregos que isso proporciona e já sabiam o que significa “subir a pulso”. Tivessem eles que ter concorrido três vezes a líder do próprio partido até que os seus correligionários, uns cegos, portanto, vissem, finalmente, a luz das suas impercetíveis qualidades, e já aprendiam. Tivessem eles que ser administradores de várias empresas, sem perceber nada do assunto, antes mesmo de concluírem uma simples licenciatura, como aconteceu, contigo, coitado, que nunca tiveste tempo para te dedicares aos estudos, por causa da política e dos tachos, perdão, dos cargos que foste obrigado a desempenhar, e ainda por cima sem ganhar nada, como na Tecnoforma, e depois já sabiam o que custa a vida. Mas não… Estes portuguesinhos estudam enquanto podem e os paizinhos lhes pagam os cursos e, depois, andam feitos burros à procura de emprego e de subir na vida por sua própria conta e risco, sem terem um amigo chamado Ângelo Correia. Depois, claro: dão com os burrinhos na água! Uns palermas! Ao menos emigrem. Seus piegas!
Peço desculpa, Grande Líder! Estou a deixar-me levar pelas emoções e isso, para ti, é coisa desprezível. Frieza, calculismo e uma folha excel é a tua receita como lema de vida; por isso, fiquemos por aqui, quanto a este assunto.
Outro dos grandes exemplos que nos deste foi o de nunca faltar à palavra dada. Aliás, nas tuas veias não corre sangue, mas o puro soro da verdade! Dirão alguns maldizentes que burlaste todas as tuas promessas eleitorais – não ias aumentar os impostos, não ias reduzir os salários, era um disparate pensar que ias cortar o subsídio de férias ou de natal, etc, etc, etc… Afinal, fizeste tudo isso e muito mais terias feito se os incompetentes do Tribunal Constitucional não te tivessem posto travão. Logo eles que não foram devidamente escrutinados, pois deviam ter sido todos escolhidos por ti e não pelos partidos. O que esses maldizentes não sabem é que tu foste levado a fazer essas promessas, não para ganhar as eleições (“as eleições que se lixem”, não é?!) mas porque não fazias a mínima ideia do país em que vivias. Assim como também não sabem que continuas sem fazer a mínima ideia do país em que vives e, por isso, o problema não está no que tu dizes, nem na tua apregoada relação difícil com a verdade. O problema está, sim, na realidade que teima, sistematicamente, em desmentir o que tu dizes. Mas que culpa tens tu disso? Afinal, que culpa tens tu se, quando dizes que “este governo foi o que mais investiu na saúde” ou que “nós não queremos nenhuma renegociação da dívida portuguesa porque a nossa dívida é sustentável”, as pessoas se riem disso como se fosse uma anedota? Tu não tens culpa nenhuma por a realidade não andar ao teu ritmo, desobedecer aos teus desígnios e não corresponder aos teus desejos. Assim como não tens culpa nenhuma que todos te tenham enganado acerca da situação no BES, (ai menino Carlinhos!), levando-te a atirar uma série de bojardas que é melhor nem recordarmos! Aliás, nessa matéria, é melhor seguires o exemplo do teu mestre Cavaco, de alcunha o Pilatos, que simulou um ataque de amnésia, quando, em janeiro, alguns partidos quiseram que ele respondesse por escrito a algumas questões, no âmbito do inquérito parlamentar. A resposta dele foi, com aquele carão de máscara carnavalesca: “eu nunca me pronunciei sobre o caso BES”. No teu caso, com a vantagem de, sendo um jovem ao pé dele, nem sequer precisares de simular – toda a gente sabe que sofres de amnésia profunda, crónica e congénita. É essa horrível doença que faz com que, sendo tu um exemplar cumpridor de obrigações civis, te esqueças de pagar as contribuições devidas à segurança social; ou te esqueças de quanto auferiste ao serviço da Tecnoforma; ou te esqueças que recebeste indevidamente o subsídio de reintegração quando deixaste de ser deputado; e, eventualmente, doutras coisas. Coisas essas que estão no segredo dos deuses ou das prescrições da lei e que só são recordadas por causa da inveja de alguns e do gosto pela “chicana política” de outros, como tu dizes. Mas eles que venham! Eles que venham! Não sabem com quem se metem!
Caro Líder, no final de tudo isto, restam, ainda, duas ou três dúvidas que me intrigam, as quais gostaria de ver por ti esclarecidas. Será que agora todos podemos alegar desconhecimento da lei, ou apresentar um atestado médico de amnésia, para não pagarmos ao Estado as contribuições ou os impostos? Ou isso é um privilégio divino? E porque é que aquela viúva de Ílhavo, que viu ser-lhe penhorada a humilde casa onde vive com três dos seus seis filhos e duas netas, por dever menos de dois mil euros ao fisco, não pôde alegar que sofria de amnésia ou que não sabia que tinha de pagar? Ou os outros mais de sessenta mil portugueses que têm imóveis penhorados pelas finanças por razões semelhantes? Será verdade, como dizem os teus adversários, (sim, parece que ainda há disso!) que quando se trata da dívida de Portugal à troika já não sofres de amnésia, porque essa não és tu que a pagas, mas sim os piegas dos portugueses? Ou será, como eu desconfio, que isso tudo não passou de um golpe de génio? Sim… Eu explico. Cá na minha, o teu calote faz parte de uma estratégia política mais vasta que visa acabar com o estado social. Como exemplar neoliberal que és, iniciaste essa tão desejada e necessária destruição do estado social, ainda antes de chegares ao governo, começando, precisamente, por não pagares as contribuições à segurança social, para depois poderes afirmar que ela não é sustentável. É que, se todos fizermos como tu, ela não será mesmo sustentável e então já poderemos acabar com ela e passar tudo para os privados, como tu desejas. Se foi esta a razão do calote… é de génio, deixa-me que te diga! Ou, como diriam os italianos, “se non è vero, è ben trovato”.
Cá fico, Grande Líder, humildemente, à espera que me respondas.
Não te esqueças!

José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

sexta-feira, 13 de junho de 2014

UM GRANDE ZÉ PÉ-DE-VENTO

O meu amigo Zé Pé-de-Vento resolveu, naquele dia, fazer um grande.
Passou pelo supermercado e começou pelas melancias. Estas começaram a voar e passaram pelo caixeiro sem lhe passarem cartucho. Os cartuchos, habituados a ser usados como embrulho na venda de figos-secos, ficaram aborrecidíssimos com o facto e resolveram apelar para o MEC (Ministério dos Embrulhos Cornudos). Dirigiram-se, em cartucho, ao dito Ministério, manifestando-se pela rua, entoando o hit-parade “Não queremos a droga”. Os figos-secos é que também não gostaram nada do comportamento dos cartuchos e resolveram acompanhá-los na sua manifestação, para se queixarem, imaginem, dos próprios cartuchos que, alegadamente, ao saírem do supermercado sem dizerem “água vai” os deixaram nas “ruas da amargura”. Estas, porém, devido a rixas antigas, não gostaram nada do facto, pois, mais uma vez, os figos-secos iriam conspurcar a beleza dos seus paralelos. E resolveram, elas próprias, boicotar a manifestação abrindo grandes brechas, onde se embrulhavam cartuchos, figos-secos, melancias e, é claro, água. Como sabemos, a água é uma coisa que só aparece quando não é precisa, quer seja a da chuva, quer a das fontes. E foi por isso que, devido ao facto de os cartuchos terem saído do supermercado sem dizerem “água vai”, a água foi. Puro espírito de contradição. Por acaso andava por ali uma (sim, uma contradição, nunca viram?!) que resolveu, também, manifestar-se devido ao seu próprio espírito. E estes também; os espíritos aproveitaram a oportunidade para se misturarem com as coisas e se divertirem à custa delas: mordiam os figos-secos, jogavam à bola com as melancias, escarravam dentro dos cartuchos e, com a água, lavavam as partes fracas, imaginem. Quanto à contradição, os espíritos não lhe fizeram nada, só para a chatearem. É a coisa pior que se pode fazer a uma contradição. Os espíritos foram mesmo maldosos e, quando chegaram ao MEC, arrancaram os ditos ao Ministro e enfiaram-nos nos outros embrulhos. Ficou o Ministério sem razão de ser e sem finalidade.
Entretanto, dentro do supermercado, o forrobodó era completo e, aqui e além, pouco digno de pessoas decentes, nada aconselhável a pessoas impressionáveis.
As rolhas bebiam todo o vinho das garrafas que tapavam e, completamente embriagadas, enfiavam-se, indiscriminadamente, na vagina das senhoras e no cu dos cavalheiros que a essa hora faziam as suas compras. Simultaneamente, desenrolavam-se cenas de pancadaria de criar bicho entre as rolhas, as cenouras, as bananas e outros objectos fálicos, todos eles desejosos de ocupar um lugar ao sol. Um lugar ao sol procurava, também, toda a outra fruta, saudosa dos tempos em que jazia e crescia nas suas plantas natais. E, assim, iam-se precipitando para a rua, sem atenderem a qualquer ordem, os alhos encavalitados nas maçãs, as peras sugando marmelos que se queixavam com gritinhos histéricos, as cebolas e os morangos agarradinhos num furioso acesso de amor pouco platónico. Entretanto, os detergentes derramavam-se pelas cabeças dos clientes que eram esfregadas por vassouras de piaçaba de todos os tamanhos cujos cabos se esgrimiam em lutas medonhas.
Alertado pela chinfrineira desta babilónia e por um tomate que, fugindo da lascívia concupiscente de umas luvas de borracha, lhe acertara inadvertidamente no nariz pedindo imensa desculpa ao mesmo, um transeunte anónimo alertou as autoridades.
Imediatamente, foram deslocadas para o local todas as forças vivas e mortas, armadas e desarmadas, de botas, de carro, de jipe, de ambulância, a cavalo ou de mota que a edilidade possuía. Ao chegarem ao local, era tal a confusão que apenas meia dúzia de polícias conseguiu, a custo, entrar no supermercado. Foi o suficiente, no entanto, para que a pândega se multiplicasse proporcionalmente ao número de polícias entrados. Em cada defensor da ordem e da lei que entrava, imediatamente, o bastão lhe fugia do devido local e, depois de uma rápida inspecção à ocorrência, procurava, também, um sítio onde pudesse satisfazer ancestrais desejos. Ora, como o único local côncavo, à altura disponível, era o ânus dos agentes, foi para lá que eles se dirigiram, sem se darem sequer ao trabalho (era o mínimo que se lhes exigia) de procurarem aquele que diariamente se bamboleava a seu lado em sã e alegre concorrência. Podemos acrescentar, no entanto, que, aquando do julgamento mais tarde realizado, esta atitude dos bastões teve como atenuante a confusão existente no infeliz momento e é elucidativo, sobre o assunto, o diálogo travado no tribunal. O advogado de acusação perorava acerbamente que “o bastão deve meter-se no cu do próprio dono”, enquanto o advogado de defesa se estribava no aforisma de que “em tempo de guerra não se limpam armas”. O juiz aceitou os argumentos da defesa, considerando que a situação vivida podia ser considerada tempo de guerra e louvou a perspicácia do advogado. Mandou em paz os bastões, mas aconselhou-os a que, sempre que possível, seguissem à risca o argumento da acusação para evitarem mais situações desagradáveis; não era bonito, que lhe desculpassem a ingénua e infeliz comparação, meter o bastão em cus alheios, tal como quem mete o nariz onde não é chamado. E mais não disse.
Voltando, no entanto, à vaca fria, salvo seja, que é como quem diz, voltando aos acontecimentos fervilhantes que estávamos a descrever, a confusão, fora do local, era indescritível e é por isso mesmo, e por uma questão de coerência e de pudor, que nos abstemos de a descrever. Acrescentaremos, apenas, para levantar o véu à imaginação do leitor, que, desde os polvos até aos bonecos articulados que havia no supermercado, todos tinham saído para a rua e se guerreavam, utilizando todas as viaturas da polícia (até cavalos), apenas com o infantil intuito de provar qual deles era o mais digno herdeiro de Juan Manuel Fangio. Foi, até, ali, naquele lugar, momento e circunstância que, pela primeira vez, foi proferida a expressão “estar armado em Fangio”. Durante anos, discutiu-se, apaixonadamente, em toda a cidade, desde a tasca do Pedrado até à Faculdade da Dificuldade, sobre a identidade do autor de tão gracioso e oportuno dito. O Miraculado, assim chamado por ter sido vítima da bondade da Senhora dos Aflitos, (havia quem garantisse que o autor do milagre tinha sido o São Gregório, o que mais uma vez atesta a tendência inata para a dúvida e a discussão entre os indígenas desta localidade) que, repentinamente, (também nisto as opiniões vão desde os poucos segundos até às três horas e mais, o que prova, além do já provado, que Kant não tinha razão quando afirmava que todo o homem, por natureza, trazia na cabeça um metro e um relógio), o livrara de uma monumental bebedeira de três dias, (aqui ninguém duvidava, muito embora alguns intelectuais e artistas lá do sítio hesitassem quanto à monumentalidade da borracheira), no momento em que, ao entrar em casa, deparou com a sogra em carne e osso, qual bispo da Inquisição ou Senhora dos Aflitos (seria, aliás, devido a essas comparações possíveis com a severa senhora sogra do Miraculado que os debates, durante um ano, assentaram, exclusivamente, sobre a identidade da aparição que, indiscutivelmente, para o sujeito desta enorme frase que ainda não terminou, era a sogra e por isso invocou São Gregório, tendo-lhe valido, na circunstância, é a opinião da maioria, a Senhora dos Aflitos), o Miraculado, dizíamos, afirmava, a pés juntos, ter ouvido a expressão em causa da boquinha de um Menino Jesus de barro, no momento em que disputava, com um porquinho mealheiro, o lugar ao volante de um jipe da PM. Convenhamos que, apesar de vir a opinião da boca de tão suspeito autor, ela não deixa de ter a sua lógica, pois um dito tão jocoso vem mesmo a calhar na boca de tão esperto infante. Foi por isso que, imediatamente após ter botado faladura na tasca do Pedrado, o Miraculado e a sua opinião passaram a ser defendidos e admirados por todo o exército religioso da cidade. Desde o cura até ao chefe da irmandade, passando pela Dona Sameirinho, capitã da “intrépida legião de Maria”, como ela chamava ao grupo de duas dezenas de beatas que todos os meses de maio lamuriavam a Salve Regina atrás dela, passaram a defender, com paixão, a teoria do Miraculado e introduziram, mesmo, na ladainha, apesar de o cura não ouvir isso com bons ouvidos, mais duas jaculatórias, a saber: “Mãe do Divino Autor da Graça” e “Salvadora do Miraculado”.
Coube a outra opinião mais disputada e defendida a uma ilustre catedrática da já referida Faculdade, regente da cadeira de Semiótica de Máquinas, cuja afirmava e provava, por a mais b e x vezes y, que o autor do gracioso dito tinha sido um polvo. “Um polvo?!...”, gozavam os detractores. “Sim, senhores; um polvo.”, retorquia a dita senhora que baseava experiencialmente a sua teoria. Efectivamente, a senhora encontrava-se, à data de tão marcante acontecimento para a memória dos cidadãos, dentro do supermercado. E, no preciso momento em que transpunha a saída, com uma enorme banana semi-cravada na vagina e a saia completamente levantada, mais parecendo uma dama de chicote ou um escocês de pau feito, vira, não tinha a menor dúvida apesar do seu cartesianismo, um polvo, ao volante de um carro da polícia, que dizia, revirando os olhinhos e tremelicando os tentáculos: “Agora, vou armar-me em Fangio!”. E, àqueles que objectavam com o facto de não falarem os polvos, ela contra argumentava (era aqui que entrava a semiótica, provavelmente), que se o homem veio do peixe, como diziam os antigos, entre os quais Anaximandro, (e a simples menção deste nome levantava logo dúvidas nos espíritos mais ingénuos que não acreditavam poder ter existido gente, por mais sábia, com tal apelativo), então, o gérmen da linguagem já estaria nesses peixes. O polvo, como parente afastado, mas habituado a conviver com eles, tinha aproveitado o estado de excepção do momento para fazer vir ao de cima todas as suas potencialidades culturais e linguísticas.
Todos os intelectuais de esquerda, comunistas, sindicalistas e até, mesmo, anarquistas aproveitaram a teoria para entrar em guerra aberta com a falange cristã e defendiam, com a maior erudição, aquilo que, entre eles, secretamente, consideravam ser o evolucionismo e o materialismo histórico presentes em tão douta opinião.
A discussão generalizou-se, as opiniões entrincheiraram-se e, mais de uma vez, falou-se na eminência de uma guerra civil. Salvou a situação o proverbial bom senso do meu amigo Zé Pé-de-Vento que, não tomando partido por nenhuma das facções, ia ganhando adeptos para a sua teoria: “ao Menino Jesus, o que é do Menino Jesus e ao polvo o que é do polvo.”



José Júlio Campos

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

OS CÃES QUE NÃO MORDERAM O DONO

Esta é a história de dois cães de guarda que se venderam em troca de uns ossos.

A história, verídica, ou, pelo menos, verosímil, passou-se numa quintarola, situada à beira-mar.
A quinta, sobre o comprido, em forma de retângulo, não era grande. A sua capacidade produtiva quase se cingia ao vinho e ao azeite de qualidade, produzidos nas encostas e vales mais solarengos; o resto eram serranias e matagais, onde umas quantas cabeças de gado bovino, ovino e caprino pastavam pachorrentamente.
Os donos da quinta viviam numa casa antiga, brasonada, situada no mesmo local em que um pequeno riacho lançava as suas parcas águas ao mar. A família, numerosa, à semelhança da casa agora votada ao desmazelo, já tinha conhecido melhores dias: as dívidas acumulavam-se devido aos seus próprios desmandos, os credores, usurários, não saíam da porta, as discussões sem razão abundavam numa casa sem pão. O único motivo de orgulho desta gente, herdado de tempos em que a quinta era invejada pelas redondezas, era a imponente escadaria que se guindava desde o terreiro, onde descansavam máquinas e alfaias, até à majestosa entrada da casa. Até ao terreiro, qualquer um chegava; do terreiro para cima, até às várias entradas em arcos de volta perfeita, ninguém tinha a ousadia de pisar, fosse ladrão cobiçoso, ou trabalhador descontente com a jorna. Aquelas escadas eram território sagrado, qual monte Sinai onde para sempre brilhasse a sarça ardente. Essa inacessibilidade era garantida por dois cães de guarda, cuja feroz presença de leões com ar ameaçador era suficiente para manter à distância os mais temeratos. Os outros, os mais intrépidos e atrevidos, porventura desejosos de chegar a roupa ao pêlo aos donos da casa, esses eram corridos à dentada, conforme consta dos anais. E, assim, os donos da quinta prosseguiam na sua saga de malvadez: atropelos aos direitos dos seus súbditos e malfeitorias a todos os que viviam na quinta; mentira e cinismo distribuídos a esmo, sempre protegidos por esses dois farçolas que davam pelo nome de Guarda o Nosso Reino (o Guarda) e Porrada Sobre o Povo (o Porrada). Era uma mania que vinha de tempos imemoriais, nesta casa, darem nomes esquisitos aos cães de guarda.
O Guarda e o Porrada eram exemplares no serviço que prestavam aos donos da casa, apesar de serem, por estes, aqui e além, tratados como cães que eram: com desprezo. E eles não mereciam isso. Além de guardarem a casa e a sua escadaria com a eficácia já referida, eram eles que, em tempos de mais aperto como os que viviam agora, davam o corpo ao manifesto, angariando boa parte do sustento dos donos da casa. Encarregavam-se de cobranças difíceis a devedores mais renitentes; escondiam-se em becos, lugares esconsos, curvas da estrada e outros locais inopinados para, de surpresa, saltarem sobre as suas presas, vítimas indefesas das suas garras, e lhes sacarem grossas maquias que, diligentemente, depositavam aos pés do dono. Faziam-no na esperança de verem a sua ração aumentada e até, quiçá, de poderem gozar de um merecido retiro, antes de as pernas trôpegas os traírem na sua luta contra o “inimigo”. Em vez disso, o dono cortava-lhes na ração e obrigava-os a ser ainda mais ferozes na pilhagem aos que passavam pela quinta. De desfeita em desfeita, foi crescendo no Guarda e no Porrada um sentimento de injustiça que a eles mesmos atemorizava. Como era possível começarem a sentir raiva para com os seus donos? Como podiam ter vontade de os morder nas canelas quando eles, com ar de gozo, lhes diziam, ao dar-lhes a única e cada vez menor dose diária de ração: “vá, tomai e calai; tendes de comer cada vez menos para correr cada vez mais!”
O Guarda e o Porrada sentiam essa raiva crescer dentro deles como uma cria indesejada. Insinuou-se como um sentimento desconhecido e absurdo que quiseram rejeitar; foi resistindo e crescendo larvarmente à medida que era recalcado; até que um dia explodiu claramente no seu corpo e na sua consciência, como um desejo irreprimível de loucura: “não aguentamos mais!”
E aconteceu a revolta.
Um dia, à noite, enquanto a família jantava, enquanto, à mesa farta, a família debatia a melhor maneira de continuar a mentir e a roubar os trabalhadores da quinta, os cães, os cães de guarda, o Guarda e o Porrada, no seu posto habitual, ao fundo da escadaria, começaram a rosnar. Primeiro, um rosnar apagado, quase uma pacífica conversa entre dois cães; depois, a rosnadela subiu de tom: o rosnar dos dois cães parecia já o de uma matilha; pior, o de uma alcateia.
Dentro da casa, a família alvoroçou-se; primeiro pensou que houvesse ladrões a rondar a casa; depois percebeu, à medida que o clamor aumentava, que o caso era mais grave. Correram, precipitadamente, para as janelas sobranceiras à escadaria e não queriam acreditar no que viam: os dois cães, os dois guardas fiéis, o Guarda e o Porrada subiam, eles mesmos, a sagrada escadaria, lentamente, à medida que a sua consciência de guardas cedia e recuava face à pressão da injustiça e da revolta que os queimava. O ar ameaçador, as fuças arreganhadas, a tonitruante rosnadela em uníssono fizeram tremer os fundilhos das calças a todos os membros da família, mesmo aos que não as usavam. Em poucos minutos, o santuário da escadaria tinha sido violado; os cães de guarda, qual turba ululante e sedenta de sangue, galgaram com facilidade e segurança cada uma das escadas sagradas e tinham, agora, a casa à sua mercê.
Ó terrível sacrilégio! Ó inaudita afronta! Ó famigerado crime de lesa majestade.
A família já via o Guarda e o Porrada irromperem casa adentro, subir furiosamente ao salão onde se refugiavam e, tal como os viram tantas vezes, sob as suas ordens, fazer a outros, atirarem-se-lhes às canelas sem remorso, obrigando-os a precipitarem-se pela única saída possível, as janelas envidraçadas sobranceiras à escadaria.
Só que, no auge do pesadelo, algo de extraordinário acontece, uma espécie de milagre da natureza canina. Como que inebriados pela “vitória” conseguida sobre a sua consciência, os dois cães agarraram-se a essa “vitória” e recuam contidamente, escadaria abaixo, num misto de glória e de culpa que os afastava do local sagrado sem consumarem os horrores aguardados dentro da casa. O cão, afinal, não podia morder o dono!
A família, estática e estarrecida, recuperou a compostura e o sangue frio. Imediatamente decidiram que tal desaforo jamais poderia voltar a acontecer. A história não se repetiria, fossem eles ceguinhos. E congeminaram, desde logo, as medidas a tomar.
No dia seguinte, chamados o Guarda e o Porrada à presença dos seus donos, estes decretaram, de imediato, um processo de substituição da consciência do Porrada; parece que a violação do território sagrado se devera essencialmente a falhas dessa consciência. Quanto à razão que motivara tal ousadia, a revolta dos cães de guarda, essa seria aplacada lançando-lhes, todas as noites, desde o cimo das escadas, os ossos e outros restos do jantar, como complemento da ração diária. Ah! E esta também seria ligeiramente aumentada. Assim, como em semelhantes casos doutrora, se domaria a revolta dos cães de guarda, enchendo-lhes a barriga. Estava provado que a consciência dos cães de guarda só disfunciona de barriga vazia. Jamais um cão de ventre saciado ladrou ou rosnou ao dono. Mas, cuidado! Ai do Guarda e do Porrada se voltassem a lembrar-se, sequer, de repetir a façanha. Ai deles! Com esta ameaça, não concretizada, os humilhou o membro da família responsável pelo seu controlo e perante o qual eles eram sempre obrigados a abanar a cauda em sinal de subserviência.
A partir desse dia tudo voltou à “normalidade”.
Poucos dias depois “la famiglia” decretou mais um conjunto de medidas que fizeram recrudescer a miséria em que os seus subordinados viviam, na quinta. Estes, intimidados pelas dentuças dos cães de guarda, agora de barriga cheia como outrora, não podiam sequer aproximar-se da escadaria, quanto mais transpô-la, invadir a casa e correr os seus inquilinos à paulada como era seu desejo. E, assim, postos em sossego pelo medo, foram vivendo e morrendo, pobres, humilhados e resignados. Per omnia saecula saeculorum.

José Júlio Campos
(pensarnotempo.blogspot.com)