terça-feira, 27 de novembro de 2018


DUZENTOS ANOS DE KARL MARX

Há duzentos anos, mais precisamente em 5 de maio de 1818, nasceu, na Alemanha, uma das figuras mais importantes da História contemporânea – Karl Marx. Independentemente dos preconceitos, nascidos geralmente da ignorância, que este pensador continua a suscitar, é um facto que nenhum outro marcou tanto a história social e política dos povos, nos últimos cento e cinquenta anos. O seu pensamento influenciou uma quantidade enorme de movimentos políticos, muitas vezes discordantes entre si, tantas vezes inconsequentes e outras tantas com resultados, no mínimo, duvidosos e discutíveis. Malgrado toda a controvérsia que a aplicação prática das suas teorias possa legitimar, o facto é que, ao longo do séc. XX, foi surgindo, praticamente em todos os países do mundo, com maior ou menor afirmação e sucesso, um conjunto de forças políticas inspiradas no pensamento de Marx e, por isso mesmo, autodesignadas como marxistas.
Sindicatos, partidos políticos, escolas de arte, movimentos culturais nas mais diversas áreas, inspiraram-se nas teses de Karl Marx, constituindo-se como agentes dinamizadores e transformadores da sociedade. Esse era, aliás, um dos objetivos preconizados pelo filósofo e por ele afirmado na 11ª e última das suas “teses sobre Feuerbach”, na qual sintetiza, no fundo, as dez anteriores: “Até hoje, aquilo que os filósofos fizeram foi interpretar o mundo de maneiras diferentes; é necessário, agora, transformá-lo”.
Esta tese pode ser entendida como o ponto de fusão das teorias desenvolvidas nas diversas dimensões do pensamento a que se dedicou: a filosofia, a economia e a política. No plano filosófico, Marx evoluiu de um pensamento marcado pelo idealismo de Hegel e Feuerbach, a partir do qual forjou o conceito de materialismo histórico, para o conceito de materialismo dialético que constitui uma viragem significativa na sua conceção da História, do indivíduo e da sociedade. Afirma a “praxis” como base do pensamento, critério de verdade no conhecimento e fator determinante de transformação do real. No plano social e político, Marx afirma que a história de toda a sociedade até aos nossos dias não é mais do que a história da luta de classes, a qual explica as transformações dos sistemas sociais do passado e justifica as necessárias transformações no sistema social da época. Os modos de produção esclavagista, feudal e capitalista resultam da evolução económica da sociedade, baseada no processo dialético da luta de classes. Todas as sociedades assentam, pois, sobre o antagonismo entre classes opressoras e classes oprimidas. No séc. XIX, a classe dominante era a burguesia capitalista, vencedora declarada do sistema feudal medieval. No entanto, a burguesia dessa época continha, segundo Marx, contradições profundas que precipitariam a sua destruição. No “Manifesto do Partido Comunista”, Marx e Engels afirmam que “a burguesia não só forjou as armas que lhe dão a sua morte, como produziu, também, os homens que virão a empunhar essas armas: os trabalhadores modernos – os proletários”. E repare-se na pertinência atual da seguinte análise, produzida na sequência da afirmação citada: “Na mesma medida em que a burguesia, isto é, o capital, se desenvolve, desenvolve-se o proletariado, a classe dos trabalhadores modernos, que só subsistirão enquanto encontrarem trabalho e que só encontrarão trabalho enquanto o seu trabalho aumentar o capital. Estes trabalhadores, que têm de vender-se pedaço a pedaço, são uma mercadoria como qualquer outro artigo comercial, sujeito por isso a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado”. Acredita Marx que a tomada de consciência da sua força levará o proletariado a vencer a luta com a burguesia, na medida em que, por ser grandemente maioritária é uma classe realmente revolucionária, capaz de aniquilar a classe dominante e, simultaneamente, acabar com a sociedade de classes.
A terminar, cumpre-me alertar o leitor para o facto de a complexidade filosófica do pensamento de Marx não ser compaginável com análises breves e simplistas como acontece num texto desta natureza. O objetivo não é, pois, o de “explicar” o pensamento de Marx, mas despertar as mentes, sobretudo as mais jovens, para a necessidade de estudarem os seus conceitos e teorias e a sua importância no mundo contemporâneo. À semelhança de todos os pensadores, Marx pensou numa época e para uma época, aquela em que viveu, marcada pela revolução industrial e pela ascensão do capitalismo, com as suas contradições e aspetos fortemente negativos. No entanto, e até porque o domínio da classe capitalista se tem acentuado com base no desenvolvimento de mecanismos de dominação que Marx, à época não podia prever, as suas teorias continuam, no essencial, adequadas e capazes de nos permitir compreender as relações e os movimentos sociais e políticos do séc. XXI. A categorização por ele idealizada para a compreensão da História e da sua evolução continua, pois, a ser um instrumento de análise útil, embora não de fácil utilização.


José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com

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