DUZENTOS ANOS DE
KARL MARX
Há duzentos
anos, mais precisamente em 5 de maio de 1818, nasceu, na Alemanha, uma das
figuras mais importantes da História contemporânea – Karl Marx.
Independentemente dos preconceitos, nascidos geralmente da ignorância, que este
pensador continua a suscitar, é um facto que nenhum outro marcou tanto a
história social e política dos povos, nos últimos cento e cinquenta anos. O seu
pensamento influenciou uma quantidade enorme de movimentos políticos, muitas
vezes discordantes entre si, tantas vezes inconsequentes e outras tantas com
resultados, no mínimo, duvidosos e discutíveis. Malgrado toda a controvérsia
que a aplicação prática das suas teorias possa legitimar, o facto é que, ao
longo do séc. XX, foi surgindo, praticamente em todos os países do mundo, com
maior ou menor afirmação e sucesso, um conjunto de forças políticas inspiradas
no pensamento de Marx e, por isso mesmo, autodesignadas como marxistas.
Sindicatos,
partidos políticos, escolas de arte, movimentos culturais nas mais diversas
áreas, inspiraram-se nas teses de Karl Marx, constituindo-se como agentes
dinamizadores e transformadores da sociedade. Esse era, aliás, um dos objetivos
preconizados pelo filósofo e por ele afirmado na 11ª e última das suas “teses
sobre Feuerbach”, na qual sintetiza, no fundo, as dez anteriores: “Até hoje,
aquilo que os filósofos fizeram foi interpretar o mundo de maneiras diferentes;
é necessário, agora, transformá-lo”.
Esta tese pode
ser entendida como o ponto de fusão das teorias desenvolvidas nas diversas
dimensões do pensamento a que se dedicou: a filosofia, a economia e a política.
No plano filosófico, Marx evoluiu de um pensamento marcado pelo idealismo de
Hegel e Feuerbach, a partir do qual forjou o conceito de materialismo
histórico, para o conceito de materialismo dialético que constitui uma viragem
significativa na sua conceção da História, do indivíduo e da sociedade. Afirma
a “praxis” como base do pensamento, critério de verdade no conhecimento e fator
determinante de transformação do real. No plano social e político, Marx afirma
que a história de toda a sociedade até aos nossos dias não é mais do que a
história da luta de classes, a qual explica as transformações dos sistemas
sociais do passado e justifica as necessárias transformações no sistema social
da época. Os modos de produção esclavagista, feudal e capitalista resultam da
evolução económica da sociedade, baseada no processo dialético da luta de
classes. Todas as sociedades assentam, pois, sobre o antagonismo entre classes
opressoras e classes oprimidas. No séc. XIX, a classe dominante era a burguesia
capitalista, vencedora declarada do sistema feudal medieval. No entanto, a
burguesia dessa época continha, segundo Marx, contradições profundas que
precipitariam a sua destruição. No “Manifesto do Partido Comunista”, Marx e
Engels afirmam que “a burguesia não só forjou as armas que lhe dão a sua morte,
como produziu, também, os homens que virão a empunhar essas armas: os
trabalhadores modernos – os proletários”. E repare-se na pertinência atual da
seguinte análise, produzida na sequência da afirmação citada: “Na mesma medida
em que a burguesia, isto é, o capital, se desenvolve, desenvolve-se o
proletariado, a classe dos trabalhadores modernos, que só subsistirão enquanto
encontrarem trabalho e que só encontrarão trabalho enquanto o seu trabalho
aumentar o capital. Estes trabalhadores, que têm de vender-se pedaço a pedaço,
são uma mercadoria como qualquer outro artigo comercial, sujeito por isso a
todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado”. Acredita
Marx que a tomada de consciência da sua força levará o proletariado a vencer a
luta com a burguesia, na medida em que, por ser grandemente maioritária é uma
classe realmente revolucionária, capaz de aniquilar a classe dominante e,
simultaneamente, acabar com a sociedade de classes.
A terminar,
cumpre-me alertar o leitor para o facto de a complexidade filosófica do
pensamento de Marx não ser compaginável com análises breves e simplistas como
acontece num texto desta natureza. O objetivo não é, pois, o de “explicar” o
pensamento de Marx, mas despertar as mentes, sobretudo as mais jovens, para a
necessidade de estudarem os seus conceitos e teorias e a sua importância no
mundo contemporâneo. À semelhança de todos os pensadores, Marx pensou numa
época e para uma época, aquela em que viveu, marcada pela revolução industrial
e pela ascensão do capitalismo, com as suas contradições e aspetos fortemente
negativos. No entanto, e até porque o domínio da classe capitalista se tem
acentuado com base no desenvolvimento de mecanismos de dominação que Marx, à
época não podia prever, as suas teorias continuam, no essencial, adequadas e
capazes de nos permitir compreender as relações e os movimentos sociais e
políticos do séc. XXI. A categorização por ele idealizada para a compreensão da
História e da sua evolução continua, pois, a ser um instrumento de análise
útil, embora não de fácil utilização.
José Júlio
Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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