quarta-feira, 16 de setembro de 2015

NOVA ENCÍCLICA DO PAPA FRANCISCO (II)

(continuação do número anterior)

Esta encíclica, pese embora o cuidado “cristão” de não ferir profundamente “certas” suscetibilidades, não deixa de ser um libelo acusatório contra os países ricos e industrializados do Norte que têm, segundo o Papa, uma “dívida ecológica” que também devia ser contabilizada no âmbito internacional: “A dívida externa dos países transformou-se num instrumento de controlo, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica”.(ponto 52) Ou seja, os alemães, por exemplo, para além da dívida da guerra (ou das guerras) que têm para com os gregos, os polacos, os austríacos e tantos outros povos europeus, têm, também, juntamente com outros, uma dívida ecológica para com os africanos, os asiáticos, os sul americanos, etc. Há, pois, que contabilizar e saldar essa dívida. O problema é que esses povos do Norte nunca conseguiriam produzir riqueza suficiente para isso! No entanto, continuam a usar o poder financeiro para, através das dívidas soberanas, subjugarem os países com economias mais frágeis, explorando-os e lançando neles a pobreza, a desigualdade e o desespero. Mas talvez se estejam a “esquecer” de qualquer coisa muito importante. A globalização que lhes permite a exploração económica e ecológica doutros povos acabará por funcionar como um “boomerang”, fazendo cair sobre eles as suas consequências. No plano económico, toda aquela massa de miseráveis que as suas políticas produzem, mais cedo ou mais tarde, forçarão a entrada nos eldorados por eles criados egoisticamente. O que está a acontecer, todos os dias, no Mar Mediterrâneo, é, apenas, o início de uma movimentação de massas humanas capaz de acabar em tragédia na Europa se esta não inverter a tempo essas políticas. No plano ecológico, a partilha das consequências da destruição do ambiente é, ainda, mais evidente e inevitável, pois essas não respeitam fronteiras, exércitos, polícias, dinheiro ou governantes despóticos, inchados de poder.
Pese embora toda a relevância desta encíclica, é de prever que, infelizmente, ela não passará de mais uma “voz que clama no deserto” contra os desvarios do modelo económico em vigor, pois o comboio do consumismo, da produtividade, do lucro máximo, do capital, do maquiavelismo financeiro caminha em marcha desenfreada rumo ao abismo. Não passará de uma mini barreira incapaz de travar essa marcha e que, como tantas outras, terá um efeito impercetível face à violência irreprimível com que esse comboio estilhaça triunfalmente todos os obstáculos, sob o orgíaco comando do seu louco maquinista – o capitalismo internacional. Aliás, o capitalismo, o liberalismo económico e o seu deus – o mercado – voltam a ser zurzidos pelo Papa na “Laudato Si”, tal como acontecera na “Evangelii Gaudium”. Escreve ele, no ponto 109: “Nalguns círculos defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais e afirma-se que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado. Mas o mercado não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social”. O profundo respeito pela dignidade do ser humano marca, claramente, o pensamento do Papa, levando-o a afirmar que “não há ecologia sem uma adequada antropologia”. Além disso, ele consegue, nesta obra, aprofundar de forma integrada aspetos essenciais da vida humana e da filosofia. Poderíamos, mesmo, sob certos pontos considerá-la uma obra de ecologia, ou de antropologia, ou de ética, mas, na minha opinião, ela é, sobretudo, uma grande obra de filosofia social e política, onde não se coíbe de fazer análises como as que se seguem: “a orientação da economia favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos por máquinas. Renunciar a investir nas pessoas para se obter mais receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade”.(ponto 128) O Papa preconiza a necessidade de os Estados intervirem na regulação da atividade económica e das relações laborais em vez de deixarem esses fenómenos sujeitos à regulação natural do mercado livre como defendem as ideologias da direita liberal e neoliberal. O seu discurso enquadra-se, pois, na perspetiva de uma distribuição equitativa dos bens comuns, como é defendida, por exemplo, por John Rawls. Mais uma vez, nada melhor do que citar o próprio Papa para justificar esta tese: “As autoridades têm o direito e a responsabilidade de adotar medidas de apoio claro e firme aos pequenos produtores e à diversificação da produção. Às vezes, para que haja uma liberdade económica da qual todos realmente beneficiem, pode ser necessário pôr limites àqueles que detêm maiores recursos e poder financeiro”.(ponto 129) Mas este discurso de esquerda do Papa não fica por aqui, indo mesmo ao ponto de apontar contradições e problemas inerentes ao capitalismo, fazendo-lhe uma crítica em tudo semelhante à que é feita pelos partidos de esquerda: “A política não deve submeter-se à economia. A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises, depois de uma longa, custosa e aparente cura”.(ponto 189) Francisco qualifica, mesmo, de “obsoletos”, os “critérios que continuam a governar o mundo”. E o que ele considera como “obsoleto” mais não são do que as lógicas e as ideologias políticas de direita, combinadas com a destruição do meio ambiente, que hoje prevalecem nos países europeus e em muitos outros países poderosos do mundo: “Hoje, alguns setores económicos exercem mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação com o meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação para integrar os mais frágeis, porque, no modelo de êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida.”(ponto 196)
E é assim. Por muito que custe a certos setores da sociedade e da Igreja, o Papa Francisco tem um pensamento e um discurso revolucionários. À imagem do próprio Jesus Cristo. Finalmente e felizmente. Importa que este discurso não caia em saco roto e possa mesmo transformar a Igreja, porque só assim pode ter repercussão na sociedade civil. É preciso que toda a Igreja, laica ou clerical, leia, reflita e interiorize a mensagem do Papa, ainda que isso redunde no rompimento com ideologias e práticas esclerosadas e “obsoletas”. Esta necessidade de mudança é tão premente que o Papa chega ao ponto de dizer, no ponto 114: “O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa corajosa revolução cultural… Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma”. Assim saiba a Igreja ser o “grão de fermento” que faça crescer essa revolução.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


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