NOVA ENCÍCLICA
DO PAPA FRANCISCO (II)
(continuação do número anterior)
Esta encíclica, pese embora o cuidado “cristão” de não
ferir profundamente “certas” suscetibilidades, não deixa de ser um libelo
acusatório contra os países ricos e industrializados do Norte que têm, segundo
o Papa, uma “dívida ecológica” que também devia ser contabilizada no âmbito
internacional: “A dívida externa dos
países transformou-se num instrumento de controlo, mas não se dá o mesmo com a
dívida ecológica”.(ponto 52) Ou seja, os alemães, por exemplo, para além da
dívida da guerra (ou das guerras) que têm para com os gregos, os polacos, os
austríacos e tantos outros povos europeus, têm, também, juntamente com outros,
uma dívida ecológica para com os africanos, os asiáticos, os sul americanos,
etc. Há, pois, que contabilizar e saldar essa dívida. O problema é que esses
povos do Norte nunca conseguiriam produzir riqueza suficiente para isso! No
entanto, continuam a usar o poder financeiro para, através das dívidas
soberanas, subjugarem os países com economias mais frágeis, explorando-os e
lançando neles a pobreza, a desigualdade e o desespero. Mas talvez se estejam a
“esquecer” de qualquer coisa muito importante. A globalização que lhes permite
a exploração económica e ecológica doutros povos acabará por funcionar como um
“boomerang”, fazendo cair sobre eles as suas consequências. No plano económico,
toda aquela massa de miseráveis que as suas políticas produzem, mais cedo ou
mais tarde, forçarão a entrada nos eldorados por eles criados egoisticamente. O
que está a acontecer, todos os dias, no Mar Mediterrâneo, é, apenas, o início
de uma movimentação de massas humanas capaz de acabar em tragédia na Europa se
esta não inverter a tempo essas políticas. No plano ecológico, a partilha das consequências
da destruição do ambiente é, ainda, mais evidente e inevitável, pois essas não
respeitam fronteiras, exércitos, polícias, dinheiro ou governantes despóticos,
inchados de poder.
Pese embora toda a relevância desta encíclica, é de prever
que, infelizmente, ela não passará de mais uma “voz que clama no deserto”
contra os desvarios do modelo económico em vigor, pois o comboio do consumismo,
da produtividade, do lucro máximo, do capital, do maquiavelismo financeiro
caminha em marcha desenfreada rumo ao abismo. Não passará de uma mini barreira
incapaz de travar essa marcha e que, como tantas outras, terá um efeito
impercetível face à violência irreprimível com que esse comboio estilhaça
triunfalmente todos os obstáculos, sob o orgíaco comando do seu louco
maquinista – o capitalismo internacional. Aliás, o capitalismo, o liberalismo
económico e o seu deus – o mercado – voltam a ser zurzidos pelo Papa na
“Laudato Si”, tal como acontecera na “Evangelii Gaudium”. Escreve ele, no ponto
109: “Nalguns círculos defende-se que a
economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais e
afirma-se que os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos
simplesmente com o crescimento do mercado. Mas o mercado não garante o
desenvolvimento humano integral nem a inclusão social”. O profundo respeito
pela dignidade do ser humano marca, claramente, o pensamento do Papa, levando-o
a afirmar que “não há ecologia sem uma
adequada antropologia”. Além disso, ele consegue, nesta obra, aprofundar de
forma integrada aspetos essenciais da vida humana e da filosofia. Poderíamos,
mesmo, sob certos pontos considerá-la uma obra de ecologia, ou de antropologia,
ou de ética, mas, na minha opinião, ela é, sobretudo, uma grande obra de
filosofia social e política, onde não se coíbe de fazer análises como as que se
seguem: “a orientação da economia
favoreceu um tipo de progresso tecnológico cuja finalidade é reduzir os custos
de produção com base na diminuição dos postos de trabalho, que são substituídos
por máquinas. Renunciar a investir nas pessoas para se obter mais receita
imediata é um péssimo negócio para a sociedade”.(ponto 128) O Papa
preconiza a necessidade de os Estados intervirem na regulação da atividade
económica e das relações laborais em vez de deixarem esses fenómenos sujeitos à
regulação natural do mercado livre como defendem as ideologias da direita
liberal e neoliberal. O seu discurso enquadra-se, pois, na perspetiva de uma
distribuição equitativa dos bens comuns, como é defendida, por exemplo, por John
Rawls. Mais uma vez, nada melhor do que citar o próprio Papa para justificar
esta tese: “As autoridades têm o direito
e a responsabilidade de adotar medidas de apoio claro e firme aos pequenos
produtores e à diversificação da produção. Às vezes, para que haja uma
liberdade económica da qual todos realmente beneficiem, pode ser necessário pôr
limites àqueles que detêm maiores recursos e poder financeiro”.(ponto 129)
Mas este discurso de esquerda do Papa não fica por aqui, indo mesmo ao ponto de
apontar contradições e problemas inerentes ao capitalismo, fazendo-lhe uma
crítica em tudo semelhante à que é feita pelos partidos de esquerda: “A política não deve submeter-se à economia.
A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a
firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio
absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises, depois
de uma longa, custosa e aparente cura”.(ponto 189) Francisco qualifica,
mesmo, de “obsoletos”, os “critérios que continuam a governar o mundo”. E o que
ele considera como “obsoleto” mais não são do que as lógicas e as ideologias
políticas de direita, combinadas com a destruição do meio ambiente, que hoje
prevalecem nos países europeus e em muitos outros países poderosos do mundo: “Hoje, alguns setores económicos exercem mais
poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem
política. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação com o meio
ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação para integrar os
mais frágeis, porque, no modelo de êxito e individualista em vigor, parece que
não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam
também singrar na vida.”(ponto 196)
E é assim. Por muito que custe a certos setores da
sociedade e da Igreja, o Papa Francisco tem um pensamento e um discurso
revolucionários. À imagem do próprio Jesus Cristo. Finalmente e felizmente.
Importa que este discurso não caia em saco roto e possa mesmo transformar a
Igreja, porque só assim pode ter repercussão na sociedade civil. É preciso que
toda a Igreja, laica ou clerical, leia, reflita e interiorize a mensagem do
Papa, ainda que isso redunde no rompimento com ideologias e práticas
esclerosadas e “obsoletas”. Esta necessidade de mudança é tão premente que o
Papa chega ao ponto de dizer, no ponto 114: “O que está a acontecer põe-nos perante a urgência de avançar numa
corajosa revolução cultural… Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é
indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma”. Assim
saiba a Igreja ser o “grão de fermento” que faça crescer essa revolução.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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