quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ALDEIA DA PENA: MARAVILHA PAISAGÍSTICA

Sobe-se a Serra de S. Macário, chega-se ao cimo por entre pinheiros, e, do outro lado, os olhos perdem-se na contemplação de vales profundos, quase a pique, rodeados de montanhas desoladas e quase geométricas. Algumas escarpas, aqui e ali, conferem, ainda, uma maior agressividade a esta paisagem insólita: uma espécie de “belo horrível” como alguém, talvez exageradamente, lhe chamou. Começa-se a descer uma estreita estrada de macadame, esburacada pelas torrentes das chuvas invernais e, no fundo de uma vertiginosa encosta, algo nos desperta a atenção: uma aldeia. Também ela aparece insólita como a paisagem, por inesperada naquele contexto e na profundidade daquele vale. Parece, mesmo, que a aldeia não tem saída, senão montanha acima. De todos os lados, como num caldeirão, a montanha sobe na vertical. E, no meio, no fundo, sobre uma pequena colina, um minúsculo aglomerado de habitações, cuja visão, a algumas centenas de metros de altura, faz lembrar a de uma aldeia pré-histórica. Se a existência de vida humana naquele local pode causar estranheza, o certo é que o casamento paisagístico entre a aldeia e a montanha é perfeito. Quase poderíamos chamar-lhe uma aldeia camaleão. As pedras negras arrancadas do monte serviram e servem, indiscriminadamente, para a construção de paredes e telhados das habitações.
Enquanto serpenteamos encosta abaixo, evitando pedras soltas no caminho de buracos, tão depressa temos, na boca das sucessivas curvas apertadas, a sensação de que vamos entrar terra dentro, como a de que nos vamos despenhar no abismo. À medida que sentimos a montanha crescer sobre as nossas cabeças somo levados a interrogar-nos acerca dos motivos que, provavelmente há centenas ou milhares de anos, fizeram alguém sedentarizar-se neste último reduto. Que terrível combate ou flagelo os terá obrigado a fugir para aqui? Por que lado da montanha terão descido? E como? Se perseguidos, porque terão parado os perseguidores? Medo do abismo?! Aquilo que o tempo fez esquecer, esforça-se a imaginação por recriar.
Chegamos, enfim, à aldeia da Pena, assim com propriedade se lhe deu este nome próprio, onde alguns teimosos da história teimam em permanecer. São poucos, uma meia dúzia de moradores, dizem-nos. Mas a aldeia parece maior, devido a um conjunto de construções semiarruinadas existentes na parte mais elevada da colina. Agora servem para guardar o gado que, juntamente com as poucas terras de cultivo, em socalco, onde o sopé da montanha é mais acessível, constituem o modo de sobrevivência dos velhos desta terra. Sim, que os novos, esses, ou emigraram ou casaram em terras da (afastada) redondeza para onde se mudaram. A Pena pertence ao concelho de S. Pedro do Sul. Alguém nos diz que, em tempos, aqui não muito remotos, quando todas as viagens se faziam a pé, se gastava um dia inteiro para ir à sede do concelho. Hoje, só de táxi, ou a pé como antigamente, pois transportes colectivos, aqui como noutras zonas do interior, são coisas impensáveis. Apesar de já existirem, na Pena, telefone e energia eléctrica, assinaláveis benefícios, o isolamento é muito difícil de vencer e os problemas de saúde, os mais urgentes, acabam por não ter solução. Contam-nos que, ainda há pouco tempo, vítima de um qualquer ataque, alguém foi transportado em maca improvisada, a pé, montanha fora, até ao médico mais próximo, em Sul, distante vinte quilómetros.
Um dos mais recentes e significativos melhoramentos na aldeia da Pena foi a construção de um cemitério. Tem cerca de trinta metros quadrados, no máximo, e nele existem, apenas, até ao momento, duas campas rasas que o ocupam quase por completo. No entanto, talvez seja suficiente para evitar que mais mortos continuem a matar vivos! Quando não havia cemitério, os defuntos eram transportados, nos seus esquifes, até à povoação de Covas do Rio, onde eram sepultados. Para isso, tornava-se necessária uma longa viagem a pé, marcada pela descida de um desfiladeiro, única passagem para o vale contíguo. E teria sido nesse desfiladeiro, composto de obtusos degraus naturais que, segundo a lenda, o morto matou o vivo e a cabra matou o lobo! No primeiro caso, o caixão onde seguia um morto teria caído sobre aqueles que o transportavam, na descida íngreme, acabando por causar uma vítima. A cabra teria morto o lobo quando, perseguida por este, subia o desfiladeiro, em direcção à aldeia. Acossada, ter-se-ia virado para trás, marrando, corajosamente, no lobo que, perdendo o equilíbrio, se teria despenhado pelo fatal precipício.
A vida destas pessoas é feita, assim, de pequenas coisas, de pequenas histórias, sobretudo, e porque se trata de velhos, de memórias do passado. Curioso é esse passado ser recordado com nostalgia, mesmo quando se referem a ele como “tempos muito difíceis”. Também nisto se nota uma simbiose perfeita entre o homem e a natureza: a simplicidade e a grandeza de alma desta gente combinam, na perfeição, com a grandiosidade simples e agreste da paisagem.
À medida que subimos, de regresso, a montanha, é inconsciente uma sensação de libertação, de saída. O Sol, afinal, não vai ter já o seu ocaso. Lá em baixo, sim. Na aldeia, nos dias pequenos do Inverno, o Sol só é visível durante cerca de três horas.
Cá do alto, ninguém resiste a uma nova contemplação da Pena. E é com ela nos olhos que a deixam, que vamos deixando esta maravilha da natureza. Facilmente se imagina um arco-íris na abóbada daquele vale, os pés assentes nos dois cumes mais altos da circular cordilheira, qual asa de uma cestinha, levada na mão do Criador para a Feira das Vaidades dos Deuses. No fundo dessa cestinha, segue a Pena, trunfo do Pai Eterno, para mostrar a todos os outros criadores de maravilhas…


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


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