terça-feira, 27 de novembro de 2018


UM CONFLITO SEM FIM À VISTA

O Próximo Oriente é uma das regiões mais problemáticas do planeta, desde os primórdios das civilizações. No Antigo Testamento são relatados inúmeros episódios da história dos povos que foram deambulando por esses territórios. Desses povos restam, ainda, os israelitas e os palestinianos. Judeus, os primeiros, árabes e maioritariamente muçulmanos, os segundos, nunca tiveram uma convivência pacífica, nem entre si, nem com outros povos que, ao longo dos tempos, foram controlando essas regiões, como os persas, os romanos, mais tarde, ou os franceses e os ingleses, mais recentemente.
Das convulsões permanentes e imemoriais que fizeram desse território uma terra disputada por vários povos e religiões, mas a que nenhum pode, em rigor, chamar sua, chegou-se à atual situação de um conflito sem fim à vista. Na contemporaneidade, o conflito reacendeu-se quando entre os judeus, espalhados pelo mundo em virtude de várias diásporas ocorridas ciclicamente, (das quais se destacam a que foi provocada por Nabucodonosor, há cerca de 2500 anos e a que foi causada pelos romanos, há cerca de 2000 anos), ganhou força o movimento sionista que teve como objetivo primordial o regresso do povo de Israel à “terra prometida”, ao sagrado monte Sião, onde tinha existido o Templo de Jerusalém. No início do séc. XX, esse território, que se encontrava sob o domínio dos franceses, nas zonas mais a norte, próximas da Síria, e dos ingleses, nas zonas próximas da Jordânia e do Egito, era habitado por vários povos, maioritariamente os palestinianos.
Após a 2ª guerra mundial, e como uma espécie de compensação pelos horrores infligidos aos judeus pelos nazis, a comunidade internacional, sob a égide da recém-criada ONU, entendeu satisfazer os velhos anseios dos sionistas. Assim, através da resolução 181, aprovada em 29 de novembro de 1947, a ONU procedeu a uma partilha desse território entre os palestinianos que ficavam pela Cisjordânia, a Faixa de Gaza e uma pequena região a sul do Líbano, e os israelitas que podiam regressar e ocupar o restante território. A cidade mais disputada do planeta, Jerusalém, ficaria sob administração da ONU e nela continuariam as três religiões monoteístas a ter os seus lugares de culto e a podê-lo praticar em liberdade e segurança. No entanto, esta resolução não chegou praticamente a ser implementada, pois os diferendos entre árabes e judeus relativamente a esta partilha iniciaram-se de imediato, dando origem a um conflito que tem tido inúmeros episódios bélicos, uns mais graves do que outros, ao longo dos últimos 70 anos. O mais relevante desses episódios foi a chamada “guerra dos seis dias”, em junho de 1967, em que o poder militar, sobretudo aéreo, dos israelitas impôs aos países árabes envolvidos, principalmente ao Egito, à Jordânia e à Síria, uma pesada derrota, com consequências desastrosas, sobretudo para os palestinianos que viram os seus territórios ser ocupados por Israel. Essa ocupação dura até aos dias de hoje, apesar da permanente revolta dos palestinianos e das resoluções da ONU, nomeadamente da célebre resolução 242 que impõe, taxativamente, a Israel a obrigação de abandonar os territórios árabes ocupados e que Israel nunca cumpriu. Ao invés, tem vindo a expulsar os palestinianos de algumas das regiões que lhes tinham sido atribuídas, transformando-as em colonatos judeus e reprimindo de forma extremamente violenta toda e qualquer tentativa dos palestinianos em fazer valer os seus direitos, quer como povo, quer como seres humanos. Uma grande parte dos palestinianos, sobretudo nos territórios ocupados das regiões de Gaza e de Ramallah, na Cisjordânia, vivem hoje em autênticos campos de concentração, dentro das suas próprias terras, vigiados pelos soldados israelitas. As forças em confronto são, claramente, desproporcionadas. De um lado temos os israelitas, dotados de grande poder militar, alimentado pela riqueza que os judeus da diáspora lhes fazem chegar generosamente; do outro lado temos um povo pobre, com pouco e rudimentar armamento, tantas vezes dividido em termos de liderança. É por isso que a luta palestiniana pela sua liberdade tem oscilado entre duas estratégias igualmente condenadas ao fracasso, embora por razões diferentes: os ataques terroristas contra alvos israelitas, que acabam por gerar antipatia aos olhos da opinião pública internacional, e as célebres intifadas, protagonizadas por adolescentes revoltados que atacam à pedrada soldados israelitas armados até aos dentes e que não hesitam em disparar sobre eles a matar. A estratégia que devia resultar, mas na qual já ninguém acredita, seria obrigar coercivamente Israel a cumprir a resolução 242 da ONU. Acontece que esta organização é, hoje, uma instituição desacreditada e inócua, tantas vezes instrumentalizada ao serviço da vontade e dos interesses dos cinco países com direito de veto. Além disso, decisões estúpidas, como a que foi recentemente tomada por Trump, de mudar a embaixada norte americana para Jerusalém, dando força à ambição israelita de fazer dessa cidade a capital do país, só servem para lançar gasolina num incêndio já bem ateado. Mas outra coisa não seria de esperar daquele que é atualmente o maior incendiário à face da terra. Problema maior será se o incêndio alastrar a outras regiões e países do Médio Oriente, como a Síria (já numa guerra civil), a Jordânia, o Iraque ou o Irão. E o referido incendiário também tudo está a fazer para que isso aconteça.


José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com


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