UM CONFLITO SEM FIM À VISTA
O Próximo
Oriente é uma das regiões mais problemáticas do planeta, desde os primórdios
das civilizações. No Antigo Testamento são relatados inúmeros episódios da
história dos povos que foram deambulando por esses territórios. Desses povos
restam, ainda, os israelitas e os palestinianos. Judeus, os primeiros, árabes e
maioritariamente muçulmanos, os segundos, nunca tiveram uma convivência
pacífica, nem entre si, nem com outros povos que, ao longo dos tempos, foram
controlando essas regiões, como os persas, os romanos, mais tarde, ou os
franceses e os ingleses, mais recentemente.
Das convulsões
permanentes e imemoriais que fizeram desse território uma terra disputada por
vários povos e religiões, mas a que nenhum pode, em rigor, chamar sua,
chegou-se à atual situação de um conflito sem fim à vista. Na
contemporaneidade, o conflito reacendeu-se quando entre os judeus, espalhados
pelo mundo em virtude de várias diásporas ocorridas ciclicamente, (das quais se
destacam a que foi provocada por Nabucodonosor, há cerca de 2500 anos e a que
foi causada pelos romanos, há cerca de 2000 anos), ganhou força o movimento
sionista que teve como objetivo primordial o regresso do povo de Israel à
“terra prometida”, ao sagrado monte Sião, onde tinha existido o Templo de
Jerusalém. No início do séc. XX, esse território, que se encontrava sob o
domínio dos franceses, nas zonas mais a norte, próximas da Síria, e dos
ingleses, nas zonas próximas da Jordânia e do Egito, era habitado por vários
povos, maioritariamente os palestinianos.
Após a 2ª guerra
mundial, e como uma espécie de compensação pelos horrores infligidos aos judeus
pelos nazis, a comunidade internacional, sob a égide da recém-criada ONU,
entendeu satisfazer os velhos anseios dos sionistas. Assim, através da
resolução 181, aprovada em 29 de novembro de 1947, a ONU procedeu a uma
partilha desse território entre os palestinianos que ficavam pela Cisjordânia,
a Faixa de Gaza e uma pequena região a sul do Líbano, e os israelitas que
podiam regressar e ocupar o restante território. A cidade mais disputada do
planeta, Jerusalém, ficaria sob administração da ONU e nela continuariam as
três religiões monoteístas a ter os seus lugares de culto e a podê-lo praticar
em liberdade e segurança. No entanto, esta resolução não chegou praticamente a
ser implementada, pois os diferendos entre árabes e judeus relativamente a esta
partilha iniciaram-se de imediato, dando origem a um conflito que tem tido
inúmeros episódios bélicos, uns mais graves do que outros, ao longo dos últimos
70 anos. O mais relevante desses episódios foi a chamada “guerra dos seis
dias”, em junho de 1967, em que o poder militar, sobretudo aéreo, dos
israelitas impôs aos países árabes envolvidos, principalmente ao Egito, à
Jordânia e à Síria, uma pesada derrota, com consequências desastrosas,
sobretudo para os palestinianos que viram os seus territórios ser ocupados por
Israel. Essa ocupação dura até aos dias de hoje, apesar da permanente revolta
dos palestinianos e das resoluções da ONU, nomeadamente da célebre resolução
242 que impõe, taxativamente, a Israel a obrigação de abandonar os territórios
árabes ocupados e que Israel nunca cumpriu. Ao invés, tem vindo a expulsar os
palestinianos de algumas das regiões que lhes tinham sido atribuídas,
transformando-as em colonatos judeus e reprimindo de forma extremamente
violenta toda e qualquer tentativa dos palestinianos em fazer valer os seus
direitos, quer como povo, quer como seres humanos. Uma grande parte dos
palestinianos, sobretudo nos territórios ocupados das regiões de Gaza e de
Ramallah, na Cisjordânia, vivem hoje em autênticos campos de concentração,
dentro das suas próprias terras, vigiados pelos soldados israelitas. As forças
em confronto são, claramente, desproporcionadas. De um lado temos os
israelitas, dotados de grande poder militar, alimentado pela riqueza que os
judeus da diáspora lhes fazem chegar generosamente; do outro lado temos um povo
pobre, com pouco e rudimentar armamento, tantas vezes dividido em termos de
liderança. É por isso que a luta palestiniana pela sua liberdade tem oscilado
entre duas estratégias igualmente condenadas ao fracasso, embora por razões
diferentes: os ataques terroristas contra alvos israelitas, que acabam por
gerar antipatia aos olhos da opinião pública internacional, e as célebres
intifadas, protagonizadas por adolescentes revoltados que atacam à pedrada
soldados israelitas armados até aos dentes e que não hesitam em disparar sobre
eles a matar. A estratégia que devia resultar, mas na qual já ninguém acredita,
seria obrigar coercivamente Israel a cumprir a resolução 242 da ONU. Acontece
que esta organização é, hoje, uma instituição desacreditada e inócua, tantas
vezes instrumentalizada ao serviço da vontade e dos interesses dos cinco países
com direito de veto. Além disso, decisões estúpidas, como a que foi
recentemente tomada por Trump, de mudar a embaixada norte americana para
Jerusalém, dando força à ambição israelita de fazer dessa cidade a capital do
país, só servem para lançar gasolina num incêndio já bem ateado. Mas outra
coisa não seria de esperar daquele que é atualmente o maior incendiário à face
da terra. Problema maior será se o incêndio alastrar a outras regiões e países
do Médio Oriente, como a Síria (já numa guerra civil), a Jordânia, o Iraque ou
o Irão. E o referido incendiário também tudo está a fazer para que isso
aconteça.
José Júlio
Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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