VIAGEM A ITÁLIA
No passado mês de agosto fiz um
circuito por Itália, durante uma semana, que me permitiu visitar cidades como
Veneza, Florença e Roma, entre outras de menor dimensão.
A importância histórica e cultural
de Itália prende-se com o facto de nela encontrarmos uma grande parte das
origens da civilização ocidental a que pertencemos. A civilização romana
transformou, integrou e aculturou um conjunto de culturas que, desde os
primórdios da História, viviam nos vastos territórios que circundam o Mediterrâneo,
criando um concentrado a que chamamos civilização ocidental. As culturas
greco-romanas e judaico-cristãs foram os pilares que sustentaram uma
civilização cujas origens etruscas se foram misturando, ao longo dos séculos,
com culturas tão diversas como a persa, a egípcia, a árabe ou a bizantina. Essa
amálgama de culturas encontra-se bem evidenciada no património arquitetónico e
artístico de toda a Itália, sendo a cidade de Roma, fundada há quase três mil
anos, o seu epicentro. Após a queda do império romano do ocidente, no séc. V, e
da fragmentação política da Península Itálica em vários reinos e repúblicas ao
longo de mais de mil anos, a influência de Roma sobre a Europa ocidental
manteve-se, enquanto centro do cristianismo. No séc. XV, a partir de Florença,
eclodiu o movimento renascentista que teve uma influência determinante em toda
a cultura ocidental, com especial incidência nas artes clássicas – a pintura, a
escultura, a arquitetura, a música, a literatura, o teatro…
A Itália, enquanto unidade
territorial e política, isto é, como estado/nação, data apenas da segunda
metade do séc. XIX, entrando no séc. XX como um dos países mais jovens e
politicamente mais complexos e conturbados da Europa. No entanto, mesmo depois
de ter estado grandemente envolvida em duas guerras mundiais, a Itália
continuou a exercer um papel preponderante na cultura ocidental, sobretudo na
segunda metade desse séc. XX.
Pessoalmente, da minha experiência
como jovem estudante, nos anos oitenta, recordo a importância que, principalmente,
o cinema e a literatura desse país tinham sobre o mundo universitário, em
Portugal e não só. Realizadores como Fellini, Tornatore, Antonioni, de Sica,
Visconti, os irmãos Taviani, Pasolini e tantos outros fizeram do cinema
italiano o melhor que alguma vez se produziu. Escritores como Alberto Moravia,
Italo Calvino, Antonio Tabucchi ou Umberto Eco, para citar apenas alguns dos
que li, são absolutamente fantásticos e incontornáveis na grande literatura
contemporânea.
Esta viagem a Itália permitiu-me,
pois, conhecer alguns dos locais onde teve origem uma boa parte da nossa
cultura comum e evocar a importância que algumas figuras da cultura italiana
mais recente tiveram sobre a minha formação pessoal. Além disso tive, também, a
oportunidade de verificar que a Itália de hoje é um país bastante fragmentado e
extremado politicamente, que vive mais um dos muitos períodos conturbados da
sua história. A manifesta tendência racista e xenófoba do atual governo de
coligação entre populistas e extrema-direita manifesta-se diariamente na
polémica dominante sobre a forma de lidar com os refugiados que continuam a
atravessar o Mediterrâneo. A par dos acidentes que ultimamente têm penalizado a
Itália, a questão dos refugiados é o grande tema da atualidade política e
mediática. Mas percebe-se que a questão das relações com a União Europeia,
sobretudo à medida em que nos aproximamos das eleições para o Parlamento
Europeu, será também um tema latente e potencialmente fraturante.
Desta viagem resultou a ideia de
que tanto o humanismo renascentista, que foi fulcral para o desenvolvimento do
iluminismo e da reflexão filosófica que levaram à conquista dos direitos
humanos, como o papel pioneiro da Itália na criação e construção da União
Europeia, não passam, hoje, de recordações mais ou menos gratas ou
fossilizadas, conforme a perspetiva com que os italianos os olham. No entanto,
apesar da encruzilhada em que se encontra, a Itália de hoje, sendo uma
caricatura dos seus tempos áureos, não deixa de ser herdeira de um passado
grandioso e fascinante e que, por isso mesmo, vale a pena conhecer.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com
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