terça-feira, 27 de novembro de 2018


VIAGEM A ITÁLIA

No passado mês de agosto fiz um circuito por Itália, durante uma semana, que me permitiu visitar cidades como Veneza, Florença e Roma, entre outras de menor dimensão.
A importância histórica e cultural de Itália prende-se com o facto de nela encontrarmos uma grande parte das origens da civilização ocidental a que pertencemos. A civilização romana transformou, integrou e aculturou um conjunto de culturas que, desde os primórdios da História, viviam nos vastos territórios que circundam o Mediterrâneo, criando um concentrado a que chamamos civilização ocidental. As culturas greco-romanas e judaico-cristãs foram os pilares que sustentaram uma civilização cujas origens etruscas se foram misturando, ao longo dos séculos, com culturas tão diversas como a persa, a egípcia, a árabe ou a bizantina. Essa amálgama de culturas encontra-se bem evidenciada no património arquitetónico e artístico de toda a Itália, sendo a cidade de Roma, fundada há quase três mil anos, o seu epicentro. Após a queda do império romano do ocidente, no séc. V, e da fragmentação política da Península Itálica em vários reinos e repúblicas ao longo de mais de mil anos, a influência de Roma sobre a Europa ocidental manteve-se, enquanto centro do cristianismo. No séc. XV, a partir de Florença, eclodiu o movimento renascentista que teve uma influência determinante em toda a cultura ocidental, com especial incidência nas artes clássicas – a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, a literatura, o teatro…
A Itália, enquanto unidade territorial e política, isto é, como estado/nação, data apenas da segunda metade do séc. XIX, entrando no séc. XX como um dos países mais jovens e politicamente mais complexos e conturbados da Europa. No entanto, mesmo depois de ter estado grandemente envolvida em duas guerras mundiais, a Itália continuou a exercer um papel preponderante na cultura ocidental, sobretudo na segunda metade desse séc. XX.
Pessoalmente, da minha experiência como jovem estudante, nos anos oitenta, recordo a importância que, principalmente, o cinema e a literatura desse país tinham sobre o mundo universitário, em Portugal e não só. Realizadores como Fellini, Tornatore, Antonioni, de Sica, Visconti, os irmãos Taviani, Pasolini e tantos outros fizeram do cinema italiano o melhor que alguma vez se produziu. Escritores como Alberto Moravia, Italo Calvino, Antonio Tabucchi ou Umberto Eco, para citar apenas alguns dos que li, são absolutamente fantásticos e incontornáveis na grande literatura contemporânea.
Esta viagem a Itália permitiu-me, pois, conhecer alguns dos locais onde teve origem uma boa parte da nossa cultura comum e evocar a importância que algumas figuras da cultura italiana mais recente tiveram sobre a minha formação pessoal. Além disso tive, também, a oportunidade de verificar que a Itália de hoje é um país bastante fragmentado e extremado politicamente, que vive mais um dos muitos períodos conturbados da sua história. A manifesta tendência racista e xenófoba do atual governo de coligação entre populistas e extrema-direita manifesta-se diariamente na polémica dominante sobre a forma de lidar com os refugiados que continuam a atravessar o Mediterrâneo. A par dos acidentes que ultimamente têm penalizado a Itália, a questão dos refugiados é o grande tema da atualidade política e mediática. Mas percebe-se que a questão das relações com a União Europeia, sobretudo à medida em que nos aproximamos das eleições para o Parlamento Europeu, será também um tema latente e potencialmente fraturante.
Desta viagem resultou a ideia de que tanto o humanismo renascentista, que foi fulcral para o desenvolvimento do iluminismo e da reflexão filosófica que levaram à conquista dos direitos humanos, como o papel pioneiro da Itália na criação e construção da União Europeia, não passam, hoje, de recordações mais ou menos gratas ou fossilizadas, conforme a perspetiva com que os italianos os olham. No entanto, apesar da encruzilhada em que se encontra, a Itália de hoje, sendo uma caricatura dos seus tempos áureos, não deixa de ser herdeira de um passado grandioso e fascinante e que, por isso mesmo, vale a pena conhecer.


José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.com


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