sexta-feira, 21 de março de 2014

O PAPA FRANCISCO E O RETORNO ÀS ORIGENS DO CRISTIANISMO (I)

No próximo dia treze de março, passará um ano sobre a eleição do Papa Francisco. Ao longo deste ano, tornou-se por demais evidente que estamos perante uma forma totalmente nova de seguir à frente dos caminhos da Igreja Católica. Humildade, simplicidade e proximidade são a sua imagem de marca. No entanto, na minha modesta opinião, mais relevante do que a simpatia que irradia e a afabilidade com que acolhe e se dirige a todos, é a “revolução tranquila” que está a implementar na Igreja. Essa “revolução” consiste “tão somente” em promover um retorno às origens por parte da Igreja Católica, nomeadamente por parte dos seus responsáveis eclesiásticos, constituindo-se, ele próprio, como o primeiro exemplo desse retorno. Constata-se facilmente tal desiderato tanto na sua prática quotidiana como, essencialmente, nas orientações doutrinárias que tem emanado ao longo deste ano.
Nesse sentido é incontornável o documento máximo doutrinário que facultou aos católicos, recentemente, a encíclica intitulada Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho). Trata-se de um documento importante por várias razões, a começar pela clareza e profundidade com que analisa o mundo atual e pela honestidade e sabedoria com que exorta a Igreja a dar respostas adequadas aos problemas diagnosticados. De entre os vários temas abordados, sobressai a forma livre e desassombrada com que trata as questões económicas e sociais do mundo contemporâneo. Os fenómenos da pobreza e das desigualdades sociais, assim como os direitos humanos e a solidariedade mereceram do Papa uma reflexão plena de lucidez filosófica e religiosa, consubstanciada em propostas retiradas do mais puro espírito cristão e evangélico. É nestes aspetos que o retorno às origens do cristianismo e à essência da mensagem dos apóstolos contida nos Evangelhos se torna totalmente evidente. Se é certo que Cristo veio para salvar todos, também não o é menos que os fracos, os pobres, os infelizes, os desprotegidos da sorte e da fortuna e os próprios pecadores mereceram sempre uma atenção privilegiada. A mensagem do Evangelho é bem clara no que respeita à simpatia de Jesus Cristo relativamente a esta espécie de “luta de classes” entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos, como o provam a passagem das bem-aventuranças ou a célebre frase de Cristo: “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Acontece que, ao longo dos tempos, a Igreja Católica, nomeadamente na esfera superior da sua hierarquia, nem sempre esteve à altura dessa mensagem, deixando-se contaminar pelos cantos de sereia da riqueza, do poder e até da opulência. O Papa Francisco, tanto na sua prática como nesta encíclica, dá uma indicação clara à sua Igreja de que é preciso voltar à pureza original dos ensinamentos de Cristo, ultrapassando os séculos mais recentes em que, às vezes, se afastou deles.
Para percebermos claramente o alcance desta exortação doutrinária do Papa, nada melhor do que fazer uma abordagem da referida encíclica, transcrevendo e comentando algumas das suas ideias sobre o mundo atual. Desde logo, é de salientar a forma corajosa como condena determinado tipo de ideologias que hoje são dominantes no mundo, e na Europa em particular. Diz ele no ponto 53: “devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco”. E continua, no ponto 54: “alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante”. Mas a denúncia do neo-liberalismo, que domina a Europa em geral, sob as ordens da sra Merkel, servida por acólitos como o sr Passos e o sr Portas, não se fica por aqui. Escreve ele no ponto 56: “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respetivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais”. É exactamente isto que está a acontecer, como o prova um relatório apresentado recentemente no Forum Económico de Davos, segundo o qual, oitenta e cinco pessoas detêm metade da riqueza mundial.
O Papa Francisco aponta, ainda, a corrupção como causa de grande parte dos problemas económicos e não os supostos desvarios dos países e das pessoas mais pobres, como muitos “iluminados” nos querem fazer crer. Diz ele no ponto 60: “Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa «educação» que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos veem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes”. E, no ponto 190, repete: “o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente”.
(continua na próxima edição)


José Júlio Campos

(pensarnotempo.blogspot.com)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


 

VALENTINE’S DAY

 

 

 

Tom Waits,

Para os solitários.

Arrefecimento diurno

Ruas troteadas ou pedilentas

Escuro, trinta e cinco milímetros.

Palavras. Novas.

Sapatos gastos, comidos, mastigados, rotos.

Na biqueira.

Meia-noite. S. Valentine’s Day.

Arrefecimento nocturno

Ruas cambaleadas ou cusifrias

Negativo, trinta e cinco milímetros.

Palavras. Impossíveis.

Ideias inúteis, fugidias, vertiginosas, cruas.

No caleidoscópio.

Madrugada. S. Valentine’s Day.

Sol.

 

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

 

UMA COISA BONITA PARA TI

 

 

Esta noite,

Queria escrever uma coisa bonita para ti.

Não te conheço, não sei quem és.

A tristeza, a minha solidão,

Também o meu orgulho,

Tu podes ser tudo isso.

A beleza de uma folha que cai no chão,

O papel que voa na calçada,

Impelido pela ventania.

Estas coisas simples

Que me fazem sentir pequeno como elas.

Não sei dizê-las,

Mas gosto de as ver e de as sentir.

Lisboa já foi essa terra amada,

Esses sons conhecidos,

Essa paisagem nocturna,

Essas ruas de pedra e de mim.

Hoje é o silêncio e o vento

E o isolamento.

Uma prisão invisível, natural,

E o medo de falar dela.

As pessoas fogem dos outros

E não é possível encontrar alguém.

Aqui, o dia e a noite

São duas faces da mesma moeda.

O encontro com os outros,

O encontro comigo mesmo,

A impossibilidade do encontro.

Solitário e farto de o ser,

Mergulho numa tristeza infinita

E canto como a fonte que ouço:

Sempre igual, sempre simples, sempre só.

O trabalho de me descobrir

Reduz-se a um cigarro no escuro

E a duas lágrimas que não saltam.

A impressão de que o tempo parou

E tudo se resume a este silêncio

E a esta distância de tudo.

Estas amarras que nos prendem

Nesta vida sem sentido,

Neste destino de água de fonte.

A noite

A tristeza

A solidão

O orgulho

O cigarro

A beleza de uma folha que cai no chão

Tu podes ser tudo isso.

Esta noite

Quis escrever uma coisa bonita para ti.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

“UM ADEUS PORTUGUÊS”

 

 

.(Impressionado pelo filme com o mesmo nome)

 

Um homem de pé, esperando a morte,

Pressentindo-a em cada ruído.

A noite; a guerra; o medo.

A solidão e a saudade num ritual silencioso,

Feito de desespero e de impotência.

Um cigarro; um fósforo; um tiro.

Uma espera sem futuro e sem sentido

De uma mulher terna e frágil.

O carinho; a mentira; a insatisfação.

A morte sempre adiada e sempre presente,

Marcada num rosto triste de mãe.

O filho; a memória; o abandono.

A indiferença notada e fria de um velho

Empedernido numa certeza desmentida.

A pátria; a derrota; a esterilidade.

Alguém vivendo uma vida alheia e determinada

Com uma esperança melancólica.

O passado; o destino; o irmão.

Um povo culpado querendo esquecer

A vergonha escondida e recente.

A culpa; a hipocrisia; a consciência.

Uma memória que perdura e fere a carne

De mortos vivos e sepultados.

A inutilidade; o sofrimento; o sangue.

A vida desejada que nunca se realiza

Porque não somos donos de nós.

O tudo; o nada; a vida.

Um homem de pé, esperando a morte,

Pressentindo-a em cada ruído.

O medo; a guerra; a noite.

A morte.

 

 

 

José Júlio Campos

 

PORQUANTO SOU SEM SABER …

 

 

 

Porquanto sou, sem saber,

Vítima injusta e cruel de mim mesmo.

Vivo amarrado a milhentas cordas

E dependente de inúmeras e incontáveis amarras.

O tédio é de uma viscosidade repugnante.

Bloqueio físico e mental,

Preguiça,

Vontade de fugir,

Saudade dos tempos alegres,

Invencível vontade de vencer,

Contradição,

Dor.

Tempo inesgotável,

Escorrido friamente,

Apetece-me virar-te do avesso,

Fazer contigo diabruras,

Não te dar mais corda,

Não mais te virar a folha do calendário.

Um cigarro.

Uma máquina.

Dor.

Faltam-me os ovos.

Matei a galinha da fábula.

E agora?

Dormir um sono sem sonho até acordar in illo tempore.

Palavras sem recheio,

Regurgitadas à conta de dois dedos,

Arrastadas pegajosamente como a lama dos caminhos.

Inutilidade e abandono.

Pegar o touro pelos cornos,

Realizar o impossível,

A loucura espera por si no virar daquela rua.

Risos,

Facas,

Estiletes aguçados

Rasgam as entranhas da vida;

Vazio,

Abismo,

Alegria.

A origem de todas as coisas,

A liberdade,

O desejo,

A origem de todo o mal,

A engrenagem bloqueada,

Onde está a pedrinha?

Dissequem-me,

Revirem-me,

Encontrem em mim algum indício.

Carne e só carne.

Porquanto sou, sem saber,

Vítima injusta e cruel de mim mesmo.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

PAIXÃO VIRGINAL

 

 

 

 

Correm, azuis, espirais de fumo

Perfumadas de odores misteriosos

Secam-se no ar que eu consumo

E absorvo em devaneios gulosos.

 

Nada me garante a minha vida

Como fumo de cigarro que se gasta

A minha alma, coitada, está perdida

Por esta sensação vera e nefasta.

 

Tu que me comandas docemente

Repara em mim que ardo de paixão

E me afogo em álcool, loucamente.

 

Por já não fazer bom uso da razão

Afasto-me de mim perdidamente

E entrego-me ao sabor do coração.

 

 

 

José Júlio Campos

 

NO FILME ERRADO

 

 

(No dia depois da morte de Zeca Afonso)

 

Atolado.

Subi e desci com a facilidade da águia.

Hoje não compreendo nada.

A angústia apanhou-me mesmo na boca do estômago.

Apetece-me vomitar.

Dois wiskies.

Um conto de reis.

Sóbrio e vazio.

E depois a consciência.

Pão para repartir?

Pão que não há para repartir?

E então?

O Zeca morreu.

Pois.

Hipocrisia, só vejo a minha.

Leram e pensaram: este gajo é comunista.

Fizeram uma cara de circunstância como lhes competia.

Nem tinham que fazer mais nada.

Eu é que me preocupo com isso.

Lutar?

Pois.

Mas pianinho que a polícia tem cassetetes

E os cassetetes magoam as costas.

Mas depois há os pisang ambon

E a música brasileira

E as piadinhas inocentes

E os pubs de gente bem

E os vinte aninhos da menina

E as horas para chegar a casa

E quando não há que festa,

Vamos fazer uma noitada,

Só nos deitamos às três.

E eu?

Eu percorro isto, solitário,

O mais sabedor e o mais ignorante,

Ponham o Maradona a tocar violoncelo.

A boémia sem álcool

E a felicidadezinha do adoro, é tão querido, foi giro não foi, gostaste? Porquê?

Pergunta estúpida, resposta óbvia: porque eu não sou deste filme.

E este filme é tudo: o passado e o presente, o etilizado e o sóbrio.

Estou gasto sem lhe ter tomado o gosto.

Mas quero.

 

 

 

 

José Júlio Campos