PORQUANTO SOU SEM SABER …
Porquanto sou, sem saber,
Vítima injusta e cruel de mim mesmo.
Vivo amarrado a milhentas cordas
E dependente de inúmeras e incontáveis amarras.
O tédio é de uma viscosidade repugnante.
Bloqueio físico e mental,
Preguiça,
Vontade de fugir,
Saudade dos tempos alegres,
Invencível vontade de vencer,
Contradição,
Dor.
Tempo inesgotável,
Escorrido friamente,
Apetece-me virar-te do avesso,
Fazer contigo diabruras,
Não te dar mais corda,
Não mais te virar a folha do calendário.
Um cigarro.
Uma máquina.
Dor.
Faltam-me os ovos.
Matei a galinha da fábula.
E agora?
Dormir um sono sem sonho até acordar in illo tempore.
Palavras sem recheio,
Regurgitadas à conta de dois dedos,
Arrastadas pegajosamente como a lama dos caminhos.
Inutilidade e abandono.
Pegar o touro pelos cornos,
Realizar o impossível,
A loucura espera por si no virar daquela rua.
Risos,
Facas,
Estiletes aguçados
Rasgam as entranhas da vida;
Vazio,
Abismo,
Alegria.
A origem de todas as coisas,
A liberdade,
O desejo,
A origem de todo o mal,
A engrenagem bloqueada,
Onde está a pedrinha?
Dissequem-me,
Revirem-me,
Encontrem em mim algum indício.
Carne e só carne.
Porquanto sou, sem saber,
Vítima injusta e cruel de mim mesmo.
José Júlio Campos
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