quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


PORQUANTO SOU SEM SABER …

 

 

 

Porquanto sou, sem saber,

Vítima injusta e cruel de mim mesmo.

Vivo amarrado a milhentas cordas

E dependente de inúmeras e incontáveis amarras.

O tédio é de uma viscosidade repugnante.

Bloqueio físico e mental,

Preguiça,

Vontade de fugir,

Saudade dos tempos alegres,

Invencível vontade de vencer,

Contradição,

Dor.

Tempo inesgotável,

Escorrido friamente,

Apetece-me virar-te do avesso,

Fazer contigo diabruras,

Não te dar mais corda,

Não mais te virar a folha do calendário.

Um cigarro.

Uma máquina.

Dor.

Faltam-me os ovos.

Matei a galinha da fábula.

E agora?

Dormir um sono sem sonho até acordar in illo tempore.

Palavras sem recheio,

Regurgitadas à conta de dois dedos,

Arrastadas pegajosamente como a lama dos caminhos.

Inutilidade e abandono.

Pegar o touro pelos cornos,

Realizar o impossível,

A loucura espera por si no virar daquela rua.

Risos,

Facas,

Estiletes aguçados

Rasgam as entranhas da vida;

Vazio,

Abismo,

Alegria.

A origem de todas as coisas,

A liberdade,

O desejo,

A origem de todo o mal,

A engrenagem bloqueada,

Onde está a pedrinha?

Dissequem-me,

Revirem-me,

Encontrem em mim algum indício.

Carne e só carne.

Porquanto sou, sem saber,

Vítima injusta e cruel de mim mesmo.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

Sem comentários:

Enviar um comentário