NO FILME ERRADO
(No dia depois da morte de Zeca
Afonso)
Atolado.
Subi e desci com a facilidade da águia.
Hoje não compreendo nada.
A angústia apanhou-me mesmo na boca do estômago.
Apetece-me vomitar.
Dois wiskies.
Um conto de reis.
Sóbrio e vazio.
E depois a consciência.
Pão para repartir?
Pão que não há para repartir?
E então?
O Zeca morreu.
Pois.
Hipocrisia, só vejo a minha.
Leram e pensaram: este gajo é comunista.
Fizeram uma cara de circunstância como lhes competia.
Nem tinham que fazer mais nada.
Eu é que me preocupo com isso.
Lutar?
Pois.
Mas pianinho que a polícia tem cassetetes
E os cassetetes magoam as costas.
Mas depois há os pisang ambon
E a música brasileira
E as piadinhas inocentes
E os pubs de gente bem
E os vinte aninhos da menina
E as horas para chegar a casa
E quando não há que festa,
Vamos fazer uma noitada,
Só nos deitamos às três.
E eu?
Eu percorro isto, solitário,
O mais sabedor e o mais ignorante,
Ponham o Maradona a tocar violoncelo.
A boémia sem álcool
E a felicidadezinha do adoro, é tão querido, foi giro não foi, gostaste?
Porquê?
Pergunta estúpida, resposta óbvia: porque eu não sou deste filme.
E este filme é tudo: o passado e o presente, o etilizado e o sóbrio.
Estou gasto sem lhe ter tomado o gosto.
Mas quero.
José Júlio Campos
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