quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


“UM ADEUS PORTUGUÊS”

 

 

.(Impressionado pelo filme com o mesmo nome)

 

Um homem de pé, esperando a morte,

Pressentindo-a em cada ruído.

A noite; a guerra; o medo.

A solidão e a saudade num ritual silencioso,

Feito de desespero e de impotência.

Um cigarro; um fósforo; um tiro.

Uma espera sem futuro e sem sentido

De uma mulher terna e frágil.

O carinho; a mentira; a insatisfação.

A morte sempre adiada e sempre presente,

Marcada num rosto triste de mãe.

O filho; a memória; o abandono.

A indiferença notada e fria de um velho

Empedernido numa certeza desmentida.

A pátria; a derrota; a esterilidade.

Alguém vivendo uma vida alheia e determinada

Com uma esperança melancólica.

O passado; o destino; o irmão.

Um povo culpado querendo esquecer

A vergonha escondida e recente.

A culpa; a hipocrisia; a consciência.

Uma memória que perdura e fere a carne

De mortos vivos e sepultados.

A inutilidade; o sofrimento; o sangue.

A vida desejada que nunca se realiza

Porque não somos donos de nós.

O tudo; o nada; a vida.

Um homem de pé, esperando a morte,

Pressentindo-a em cada ruído.

O medo; a guerra; a noite.

A morte.

 

 

 

José Júlio Campos

 

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