“UM ADEUS PORTUGUÊS”
.(Impressionado pelo filme com o
mesmo nome)
Um homem de pé, esperando a morte,
Pressentindo-a em cada ruído.
A noite; a guerra; o medo.
A solidão e a saudade num ritual silencioso,
Feito de desespero e de impotência.
Um cigarro; um fósforo; um tiro.
Uma espera sem futuro e sem sentido
De uma mulher terna e frágil.
O carinho; a mentira; a insatisfação.
A morte sempre adiada e sempre presente,
Marcada num rosto triste de mãe.
O filho; a memória; o abandono.
A indiferença notada e fria de um velho
Empedernido numa certeza desmentida.
A pátria; a derrota; a esterilidade.
Alguém vivendo uma vida alheia e determinada
Com uma esperança melancólica.
O passado; o destino; o irmão.
Um povo culpado querendo esquecer
A vergonha escondida e recente.
A culpa; a hipocrisia; a consciência.
Uma memória que perdura e fere a carne
De mortos vivos e sepultados.
A inutilidade; o sofrimento; o sangue.
A vida desejada que nunca se realiza
Porque não somos donos de nós.
O tudo; o nada; a vida.
Um homem de pé, esperando a morte,
Pressentindo-a em cada ruído.
O medo; a guerra; a noite.
A morte.
José Júlio Campos
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