O
PAPA FRANCISCO E O RETORNO ÀS ORIGENS DO CRISTIANISMO (I)
No
próximo dia treze de março, passará um ano sobre a eleição do Papa Francisco.
Ao longo deste ano, tornou-se por demais evidente que estamos perante uma forma
totalmente nova de seguir à frente dos caminhos da Igreja Católica. Humildade,
simplicidade e proximidade são a sua imagem de marca. No entanto, na minha
modesta opinião, mais relevante do que a simpatia que irradia e a afabilidade
com que acolhe e se dirige a todos, é a “revolução tranquila” que está a
implementar na Igreja. Essa “revolução” consiste “tão somente” em promover um
retorno às origens por parte da Igreja Católica, nomeadamente por parte dos
seus responsáveis eclesiásticos, constituindo-se, ele próprio, como o primeiro exemplo
desse retorno. Constata-se facilmente tal desiderato tanto na sua prática
quotidiana como, essencialmente, nas orientações doutrinárias que tem emanado
ao longo deste ano.
Nesse
sentido é incontornável o documento máximo doutrinário que facultou aos
católicos, recentemente, a encíclica intitulada Evangelii Gaudium (A Alegria do
Evangelho). Trata-se de um documento importante por várias razões, a começar
pela clareza e profundidade com que analisa o mundo atual e pela honestidade e
sabedoria com que exorta a Igreja a dar respostas adequadas aos problemas
diagnosticados. De entre os vários temas abordados, sobressai a forma livre e
desassombrada com que trata as questões económicas e sociais do mundo
contemporâneo. Os fenómenos da pobreza e das desigualdades sociais, assim como
os direitos humanos e a solidariedade mereceram do Papa uma reflexão plena de
lucidez filosófica e religiosa, consubstanciada em propostas retiradas do mais
puro espírito cristão e evangélico. É nestes aspetos que o retorno às origens
do cristianismo e à essência da mensagem dos apóstolos contida nos Evangelhos
se torna totalmente evidente. Se é certo que Cristo veio para salvar todos,
também não o é menos que os fracos, os pobres, os infelizes, os desprotegidos
da sorte e da fortuna e os próprios pecadores mereceram sempre uma atenção
privilegiada. A mensagem do Evangelho é bem clara no que respeita à simpatia de
Jesus Cristo relativamente a esta espécie de “luta de classes” entre ricos e
pobres, entre poderosos e fracos, como o provam a passagem das bem-aventuranças
ou a célebre frase de Cristo: “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma
agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Acontece que, ao longo dos
tempos, a Igreja Católica, nomeadamente na esfera superior da sua hierarquia,
nem sempre esteve à altura dessa mensagem, deixando-se contaminar pelos cantos
de sereia da riqueza, do poder e até da opulência. O Papa Francisco, tanto na
sua prática como nesta encíclica, dá uma indicação clara à sua Igreja de que é
preciso voltar à pureza original dos ensinamentos de Cristo, ultrapassando os
séculos mais recentes em que, às vezes, se afastou deles.
Para
percebermos claramente o alcance desta exortação doutrinária do Papa, nada
melhor do que fazer uma abordagem da referida encíclica, transcrevendo e
comentando algumas das suas ideias sobre o mundo atual. Desde logo, é de
salientar a forma corajosa como condena determinado tipo de ideologias que hoje
são dominantes no mundo, e na Europa em particular. Diz ele no ponto 53: “devemos dizer «não a uma economia da
exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a
morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a
descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o
facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é
desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do
mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco”. E continua, no ponto 54: “alguns defendem ainda as teorias da
«recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido
pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão
social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime
uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e
nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante”. Mas a denúncia
do neo-liberalismo, que domina a Europa em geral, sob as ordens da sra Merkel,
servida por acólitos como o sr Passos e o sr Portas, não se fica por aqui. Escreve
ele no ponto 56: “Enquanto os lucros de
poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do
bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que
defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por
isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela
tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual,
que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras.
Além disso, a dívida e os respetivos juros afastam os países das possibilidades
viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto
vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que
assumiram dimensões mundiais”. É exactamente isto que está a acontecer,
como o prova um relatório apresentado recentemente no Forum Económico de Davos,
segundo o qual, oitenta e cinco pessoas detêm metade da riqueza mundial.
O
Papa Francisco aponta, ainda, a corrupção como causa de grande parte dos
problemas económicos e não os supostos desvarios dos países e das pessoas mais
pobres, como muitos “iluminados” nos querem fazer crer. Diz ele no ponto 60: “Alguns comprazem-se simplesmente em culpar,
dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas,
e pretendem encontrar a solução numa «educação» que os tranquilize e transforme
em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando
os excluídos veem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente
radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições –
seja qual for a ideologia política dos governantes”. E, no ponto 190,
repete: “o simples facto de ter nascido
num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que
algumas pessoas vivam menos dignamente”.
(continua
na próxima edição)
José
Júlio Campos
(pensarnotempo.blogspot.com)
Sem comentários:
Enviar um comentário