UMA COISA BONITA PARA TI
Esta noite,
Queria escrever uma coisa bonita para ti.
Não te conheço, não sei quem és.
A tristeza, a minha solidão,
Também o meu orgulho,
Tu podes ser tudo isso.
A beleza de uma folha que cai no chão,
O papel que voa na calçada,
Impelido pela ventania.
Estas coisas simples
Que me fazem sentir pequeno como elas.
Não sei dizê-las,
Mas gosto de as ver e de as sentir.
Lisboa já foi essa terra amada,
Esses sons conhecidos,
Essa paisagem nocturna,
Essas ruas de pedra e de mim.
Hoje é o silêncio e o vento
E o isolamento.
Uma prisão invisível, natural,
E o medo de falar dela.
As pessoas fogem dos outros
E não é possível encontrar alguém.
Aqui, o dia e a noite
São duas faces da mesma moeda.
O encontro com os outros,
O encontro comigo mesmo,
A impossibilidade do encontro.
Solitário e farto de o ser,
Mergulho numa tristeza infinita
E canto como a fonte que ouço:
Sempre igual, sempre simples, sempre só.
O trabalho de me descobrir
Reduz-se a um cigarro no escuro
E a duas lágrimas que não saltam.
A impressão de que o tempo parou
E tudo se resume a este silêncio
E a esta distância de tudo.
Estas amarras que nos prendem
Nesta vida sem sentido,
Neste destino de água de fonte.
A noite
A tristeza
A solidão
O orgulho
O cigarro
A beleza de uma folha que cai no chão
Tu podes ser tudo isso.
Esta noite
Quis escrever uma coisa bonita para ti.
José Júlio Campos
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