quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


 

UMA COISA BONITA PARA TI

 

 

Esta noite,

Queria escrever uma coisa bonita para ti.

Não te conheço, não sei quem és.

A tristeza, a minha solidão,

Também o meu orgulho,

Tu podes ser tudo isso.

A beleza de uma folha que cai no chão,

O papel que voa na calçada,

Impelido pela ventania.

Estas coisas simples

Que me fazem sentir pequeno como elas.

Não sei dizê-las,

Mas gosto de as ver e de as sentir.

Lisboa já foi essa terra amada,

Esses sons conhecidos,

Essa paisagem nocturna,

Essas ruas de pedra e de mim.

Hoje é o silêncio e o vento

E o isolamento.

Uma prisão invisível, natural,

E o medo de falar dela.

As pessoas fogem dos outros

E não é possível encontrar alguém.

Aqui, o dia e a noite

São duas faces da mesma moeda.

O encontro com os outros,

O encontro comigo mesmo,

A impossibilidade do encontro.

Solitário e farto de o ser,

Mergulho numa tristeza infinita

E canto como a fonte que ouço:

Sempre igual, sempre simples, sempre só.

O trabalho de me descobrir

Reduz-se a um cigarro no escuro

E a duas lágrimas que não saltam.

A impressão de que o tempo parou

E tudo se resume a este silêncio

E a esta distância de tudo.

Estas amarras que nos prendem

Nesta vida sem sentido,

Neste destino de água de fonte.

A noite

A tristeza

A solidão

O orgulho

O cigarro

A beleza de uma folha que cai no chão

Tu podes ser tudo isso.

Esta noite

Quis escrever uma coisa bonita para ti.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

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