quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


LOUCURA SEGUNDO ZARATUSTRA

 

 

Voltei a perder-me.

Algo de mau, de terrível, cresce em mim.

Os seus tentáculos, sinto-os.

Começam a apanhar-me a boca do estômago, as entranhas, o peito,

Espalham-se aos membros desejosos de destruição

E finalmente a cabeça explode

Num feérico fogo de artifício multicor.

O nada, o sem-sentido, cresce como um polvo invisível

Dentro do meu corpo que me apanha, me arrasta,

Me joga na lama em que me afogo.

Perdi o centro e giro à volta de nada, no abismo.

Tenho necessidade de reencontrar aquela certeza que me orientava;

Aquela imunidade que me protegia;

Aquela indiferença que nunca consegui.

É necessário que eu não confie em ninguém.

Tenho vontade de mentir, de ser cruel, de ser mau, de ser cínico,

De rir, rir, rir, por trás de uma máscara,

Fazendo ecoar o meu riso por pinhais povoados de duendes

Que transformam o riso em música suave

Embaladora de meninos inocentes.

Cada vez que me perco,

Sinto crescer em mim esse desejo,

Esse terrível desejo de vingança,

De destruição,

De maldade.

Apetece-me ser soldado de Herodes,

Degolar crianças inocentes e devorar as suas cabeças,

Escorrendo sangue pelas barbas imundas.

Ele vem aí, o polvo monstruoso,

Aquele que me possui e me há-de libertar.

Um dia, passarei na rua como um vendaval terrível

Que ninguém vê e tudo destrói,

Anjo da morte,

Anjo exterminador,

Filho de Satanás.

O louco;

Aquele que o é por tanto não o ser;

Aquele que por tanto acreditar não confia nele próprio;

Aquele que por tanto amar se odeia a si próprio;

Aquele que por tanto lutar se destrói a si próprio;

Aquele que por tanto querer perdeu a vontade.

Aquele que se esgotou.

Não posso.

Construo um muro indestrutível à minha volta, de betão armado.

Hei-de conseguir cimentar o último buraco.

E quando o oxigénio não alimentar mais o meu espírito,

O meu corpo há-de explodir

Destruindo a obra divina.

O dia está para breve.

Preparai-vos para a grande explosão.

Para serdes esmagados nos tentáculos do polvo.

Estou louco e destruir-vos-ei a todos!

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! ...

 

 

 

José Júlio Campos

 

IMPRESSIONISMO COM POUCOS VERBOS

 

 

 

Pois.

No escuro me derramo,

Tristeza e abandono,

Sol e sonho num deserto.

As palavras sem sentido,

As ideias sem palavras,

A vida morta numa terra fria.

A loucura próxima,

O arame,

A inconsciência,

O pesadelo do abismo.

Estar sem ser, viver sem nada, sangrar sem ferida.

Matéria fecunda, ideias vazias, memória inerte.

Um tronco velho, seco, mirrado.

A ausência permanente, redentora, silenciosa.

A dúvida, o nada.

Perder-se num mundo real, idêntico, unívoco.

A verdade e a mentira, a ilusão,

A certeza, a palavra e o silêncio.

A abstenção e a vontade,

O desejo e o sofrimento,

A indecisão permanente.

O sentimento e o medo.

Um palhaço ridículo, um actor falhado, pretensioso.

Uma comédia dramática, um riso chorado e sofrido,

Mas também cruel.

Uma ópera bufa, cortinas diáfanas,

Verdade ou mentira,

Comédia de costumes, de sentimentos, de ideias.

Máscaras.

Teatro.

Uma vontade forte de nada.

Uma fuga centrípta de tudo.

Ser sem pensar, sentir sem amar, querer sem desejar.

Não ser.

O silêncio.

A solidão assumida, a comunhão natural, o desinteresse absoluto.

A felicidade.

O medo da morte expelido, o medo da vida desprezado.

Querer vencer.

A vingança necessária, o ódio recalcado,

O cinismo de um riso irónico.

O apaziguamento de quem sabe.

A vida fora do tempo.

Desligado,

Duvidoso,

Indiferente,

Impotente,

Contraditório,

Maníaco,

Cínico,

Ridículo,

Sábio,

Iludido,

Pretensioso,

Imune,

Misericordioso,

Ignorante,

Calmo,

Vingativo,

Medroso,

Ardente,

Frio,

Misterioso,

Longínquo,

Impávido,

Forte.

Bom e mau.

 

 

 

José Júlio Campos

DEUS!

 

 

 

 

A dor mais amarga, o cálice, o fel.

A impossibilidade reservada aos fracos,

A morte e a vida e a falta de coragem…

A loucura desejada e temida.

A derrota constante e a dor mais amarga.

Ah! Meu Deus! A vontade que tenho de acreditar em ti…

Deus! Impossível regaço idêntico ao nada.

Deus! Criador de fracos com tanta força.

Deus! Pai de tanto paradoxo infeliz.

Deus! Revolto-me contra ti por me teres criado assim:

Vítima de mim e de ti e de mim …

Porque não fico louco de uma vez por todas?

Porque tenho de beber o cálice até à última gota?

Deus! Qual o pecado que me estigmatizou?

Deus! Porquê???!!! …

 

 

 

 

 

José Júlio Campos

CHOVE

 

 

Chove. O tempo parou. Olho para o relógio várias vezes por minuto e por isso o ponteiro está sempre no mesmo sítio. Sons e ruídos na rua, esporádicos e distantes. Sensação de monotonia e de insatisfação. O jornal que há pouco devorava, parece-me agora enfadonho e sou incapaz de o ler. Está à minha frente e olho para ele como a criança que pega num brinquedo, vê para que é que ele serve e o abandona, desinteressada. Aquela vontade de fazer coisas, de pegar num complicado Aristóteles ou num entediante Heidegger e deslindar os seus mistérios, descobrir neles variantes novas e inéditas, abandonam-me, neste instante. Com a vontade vai-se a inspiração.

Olho através da persiana da janela e vejo gotas de água que caem do beirado, espaçadamente, sobre um fundo cinzento recortado pelo verde escuro dos ciprestes. Esta paisagem transporta-se para mim e comungo dessa tristeza. Sinto-me deslizar no vazio do pensamento, um caminho escuro, sem paisagem nem horizonte. Apático e distante, nem o sonho me pode fazer vibrar. Que saudades do tempo em que construía vidas e situações imaginárias, plenas de perigos, aventuras e romance. Que saudades do tempo em que imaginava e me sentia feliz mesmo sabendo tratarem-se de quimeras. Hoje, quando o sonho parece confundir-se com a realidade, sinto que esta o manchou, o impediu de concretizar-se; e é por isso que o sonho me faz infeliz e eu não quero sonhar.

Nestes momentos, surge latente, em mim, uma pergunta venenosa, sórdida, cínica, mas pertinente: qual o sentido de tudo isto? A vida, a morte, o que são?

 Sinto que todas as hipóteses de acção comportam riscos e tenho medo. O sonho que se podia realizar esbarra no princípio da realidade. Uma realidade que é dura, cruel, dramática e cinzenta como este dia. Ai que saudades do tempo em que conseguia chorar lágrimas amargas e com elas regava as feridas que depois lambia. Ai que saudades daquele sabor a sal e daquela dor mitigada, daquela sensação agradável da dor que já passou.

Hoje, sofro pouco e sofro muito, porque já não sou capaz de sofrer a sério e já não tenho lágrimas para chorar. Para aqui me derramo neste papel branco que é o lenço onde seco o meu pranto inexistente.

E o tempo permanece parado. E chove.

 

 

José Júlio Campos

 

AVELEIRAS, 1989

 

 

Fim de tarde.

Crepúsculo.

Silêncio.

O céu carregado de nuvens mansas,

Manto plúmbeo de quente sossego.

Rumor de falas espaçadas,

Na calçada, arrastados passos,

Balidos tristes de ovelhas e suas crias.

Mas que silêncio se abateu

Sobre esta aldeia esquecida,

Aninhada, satisfeita,

No colo de um pequeno monte!

Donde lhe virá esta paz?

Que desígnio lhe concede este isolamento?

As duas tílias, no largo,

Dormem um sono de criança saudável.

A própria noite desce com brandura

Não vá perturbar o silêncio

Ao cobrir tão doce pacatez.

Um perfume de lenha queimada,

Nostálgica lembrança de outros crepúsculos,

Passa disfarçado no canto brioso de um galo.

A realidade solidificou neste silêncio.

É inevitável sentir os seus contornos.

 

 

 

 

 

 

José Júlio Campos

A MINHA PRIMEIRA ANTI-AULA

 

 

 

Um sentido para a vida. O que é isso? Engano-me e engano-vos deliberadamente. Isso não existe. Pobres de vós que aceitais as minhas patranhas sem sequer poderdes dizer: “isso não existe!” Sem sequer saberdes o que é “existir”. Mas vós existis. Eu já não tenho a certeza da minha existência. Engano-vos. Sim, engano-vos e não posso deixar de vos enganar. Vós é que devíeis ensinar-vos a vós próprios. Ensinar! Nunca se consegue ensinar; a única coisa que existe é aprender. Aprende-se a partir daquilo que se sabe; ensina-se como quem semeia de olhos vendados. Aqui, um muro; bate-se, atira-se a semente contra o vento, tentamos contornar o muro, mas não conseguimos passar. Além, um precipício: caio por ele abaixo, angustio-me, tento pedir-vos socorro, mas em vão. Vós não podeis perceber a minha angústia, porque vós sois terra com declives e eu ando de olhos vendados. No escuro. “A filosofia é, então, o esforço de reflexão que o homem faz para encontrar um sentido para a totalidade do real.” Que coisa linda! Que estupidez pegada! E quem sabe o que é a filosofia?! E isso existe? “E não se pode exterminá-la?”, apetece-me perguntar. Sim, muro.

Sabeis o que me apetecia? Ser como vós. Aprender. Poder construir, muito mais do que ser servente. E eu sei lá qual é o material que vós precisais na construção … Se nem vós sabeis pedir-mo pelo nome … Olho para vós, aí à minha frente. Angustio-me. Apetece-me rir, rir, rir! … Que coisa esquisita. O que é que estamos aqui a fazer? Sinceramente, quereis que vos diga, meus discípulos, meus amigos? … Nada. Absolutamente nada: aquilo que cabe num punho fechado, sabeis?

Então, porque não vamos, por aí, ser da mesma idade, conhecer o mundo desde o princípio, sentarmo-nos naquelas mesmas cadeirinhas da nossa escola, onde já não cabem as nossas pernas? Vistamos os nossos bibes sujos e rotos, encharquemos as nossas mãos de tinta permanente, gostemo-nos tão desinteressadamente que possamos mordermo-nos e beijarmo-nos como quem faz num único gesto a coisa mais natural deste mundo. E depois crescer, crescer como quem voa, com prazer, com naturalidade. Cúmplices. Ah! Meus amigos, garanto-vos que, agora, na escola, eu estaria sentado convosco, bem lá no fundinho, na última cadeira, despercebido, com certeza com a mesma distracção que ofereci em tempos não muito longínquos. Lembro-me de dizer, nessa altura, que gostava de estar do outro lado. Enfim, intuía o que sinto agora: o muro. Quereis que vos diga? Desse lado está-se muito melhor. Vós não sabeis. Vós sois. Eu, pobre de mim, deste lado, nem sei, nem sou. Minto-vos, engano-vos, vendo-vos coisas que não podem ser vendidas. Sou infeliz. Era tão bom poder sentar-me no meio de vós! Quereis um conselho? Ide-vos embora daqui. Enquanto houver alguém que vos queira ensinar, vós nunca conseguireis aprender nada, porque vos dão tudo ao contrário. Sois como cordeiros no meio de lobos.

Não me compreendeis, pois não?! Felizes sereis vós se nunca me compreenderdes, vos digo eu. Preservai a vossa inocência: nunca vos sentireis malvados, perversos, como eu me sinto. Sede como os passarinhos.

Esta anti-aula está a acabar. Dir-vos-ei, parafraseando um poeta: “Meus filhos, a aula acabou; abram as janelas, podem sair”.

 

 

 

José Júlio Campos

O PROTAGONISMO DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL

 

Nos últimos tempos, o Tribunal Constitucional tem vindo a assumir um protagonismo nunca antes visto na vida política nacional. Esse facto tem sido objeto de inúmeras opiniões, mais ou menos extremadas consoante a ideologia político-partidária de quem as emite e consoante as suas decisões satisfazem ou não os vários interesses em confronto na sociedade. Importa, pois, analisar este fenómeno numa perspetiva factual, sem escamotear que não existe pensamento político isento de princípios ideológicos.

Antes de mais, convém dar como adquirido e consensual que o Tribunal Constitucional é uma instituição passível de crítica, à semelhança de qualquer outro tribunal ou órgão da administração pública. Aliás, à semelhança da própria Constituição que, tal como todas as leis, num estado de direito democrático, resulta de um acordo entre as forças políticas maioritárias. Qualquer lei, e a Constituição é, “apenas”, a Lei Suprema que enquadra todas as outras leis do Estado, não é mais do que uma convenção de caráter relativo que vigora enquanto os cidadãos, corporizados num contrato social denominado Estado, assim o entenderem. Não existem, pois, leis absolutas, nem em termos temporais, nem em termos ontológicos, e a Constituição também não o é. Mas, sendo esse relativismo da Constituição um facto, não podemos cair no extremo de pensar que podemos mudá-la ou substituí-la sempre que ela não vai de encontro aos desejos de um governo investido de um poder ainda mais relativo e conjuntural do que própria Constituição. Se assim fosse viveríamos numa permanente instabilidade político-social, fazendo coincidir cada mudança de governo com uma mudança de regime político. É por isso que a Constituição se assume como a consubstanciação de um consenso social alargado que exige uma maioria qualificada de dois terços dos representantes dos cidadãos para a aprovar ou alterar. É esse amplo consenso que está na sua origem que lhe garante uma legitimidade e uma durabilidade acrescidas. E, sendo natural que haja no Estado quem não concorde com essa lei, esses só têm um de três caminhos possíveis a trilhar num estado democrático: um – lutar, de acordo e com os meios previstos na própria Constituição, para a alterar ou substituir; dois – cumpri-la e respeitá-la integralmente, enquanto não for alterada ou substituída; três – emigrar para um estado (se nele lhe derem guarida) que tenha uma Constituição à medida dos seus interesses e desejos pessoais.

Sendo estes os caminhos possíveis para qualquer cidadão de qualquer estado de direito, (que assim se denomina precisamente devido ao primado da lei e à obrigatoriedade universal e igualitária de a ela se submeter qualquer interesse particular) por maioria de razão o mesmo se aplica àqueles que foram eleitos pelos seus concidadãos, precisamente, para cumprir e fazer cumprir a Constituição. Não é por acaso que, sempre que um membro do governo ou um Presidente da República tomam posse do seu cargo, fazem uma jura solene de respeito pela Lei Suprema.

Acontece que, nestes últimos anos, o governo sustentado pelos deputados escolhidos pelos portugueses, tem optado, com frequência inédita, por seguir por uma quarta via, totalmente destituída de sentido de estado democrático: ignorar, desrespeitar e, até, afrontar uma Lei que, solenemente, juraram cumprir e respeitar. À semelhança, aliás, do que acontece com os chamados “fora da lei” que julgam poder viver em sociedade desprezando as convenções democraticamente estabelecidas pelas maiorias. E é neste quadro de permanentes tentativas de violação da lei que o Tribunal Constitucional tem ganho natural protagonismo. Efetivamente, se não houvesse criminosos e violadores da lei geral, os tribunais civis e penais não seriam necessários, ou, existindo, não atuariam. Da mesma forma, se não houvesse instituições, como o Governo e a Assembleia da República, que violam a Lei Constitucional, não seria necessário, ou, existindo, o Tribunal Constitucional não teria necessidade de atuar. Portanto, quem está mal não é quem obriga todos e cada um a cumprir a lei, mas quem se assume como criminoso e não a cumpre. Quem está mal não é o juiz que condena o criminoso, mas este que comete o crime.

É certo que não existem sociedades ideais, leis perfeitas ou juízes omniscientes; mas se esse facto for argumento para dar razão aos criminosos e violadores da lei, então só nos resta assumir que o ideal é vivermos numa sociedade sem lei, sem tribunais e sem Estado, numa sociedade regida pela lei da selva (a lei do mais forte), ou por um déspota iluminado.

Governar sem respeitar a Lei Fundamental é governar contra o estado de direito e governar contra o estado de direito é destruir a democracia. Na história presente do nosso país, o Tribunal Constitucional assumiu o protagonismo de defender a democracia dos ataques a que tem sido sujeita precisamente por parte de quem foi eleito para a defender mais do que ninguém: a Assembleia Legislativa, o Governo e, até, o Presidente da República.

Abençoado protagonismo, pois, concordemos ou não com as suas decisões.

 

 


José Júlio Campos

 

pensarnotempo.blogspot.com