quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


IMPRESSIONISMO COM POUCOS VERBOS

 

 

 

Pois.

No escuro me derramo,

Tristeza e abandono,

Sol e sonho num deserto.

As palavras sem sentido,

As ideias sem palavras,

A vida morta numa terra fria.

A loucura próxima,

O arame,

A inconsciência,

O pesadelo do abismo.

Estar sem ser, viver sem nada, sangrar sem ferida.

Matéria fecunda, ideias vazias, memória inerte.

Um tronco velho, seco, mirrado.

A ausência permanente, redentora, silenciosa.

A dúvida, o nada.

Perder-se num mundo real, idêntico, unívoco.

A verdade e a mentira, a ilusão,

A certeza, a palavra e o silêncio.

A abstenção e a vontade,

O desejo e o sofrimento,

A indecisão permanente.

O sentimento e o medo.

Um palhaço ridículo, um actor falhado, pretensioso.

Uma comédia dramática, um riso chorado e sofrido,

Mas também cruel.

Uma ópera bufa, cortinas diáfanas,

Verdade ou mentira,

Comédia de costumes, de sentimentos, de ideias.

Máscaras.

Teatro.

Uma vontade forte de nada.

Uma fuga centrípta de tudo.

Ser sem pensar, sentir sem amar, querer sem desejar.

Não ser.

O silêncio.

A solidão assumida, a comunhão natural, o desinteresse absoluto.

A felicidade.

O medo da morte expelido, o medo da vida desprezado.

Querer vencer.

A vingança necessária, o ódio recalcado,

O cinismo de um riso irónico.

O apaziguamento de quem sabe.

A vida fora do tempo.

Desligado,

Duvidoso,

Indiferente,

Impotente,

Contraditório,

Maníaco,

Cínico,

Ridículo,

Sábio,

Iludido,

Pretensioso,

Imune,

Misericordioso,

Ignorante,

Calmo,

Vingativo,

Medroso,

Ardente,

Frio,

Misterioso,

Longínquo,

Impávido,

Forte.

Bom e mau.

 

 

 

José Júlio Campos

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