quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


A MINHA PRIMEIRA ANTI-AULA

 

 

 

Um sentido para a vida. O que é isso? Engano-me e engano-vos deliberadamente. Isso não existe. Pobres de vós que aceitais as minhas patranhas sem sequer poderdes dizer: “isso não existe!” Sem sequer saberdes o que é “existir”. Mas vós existis. Eu já não tenho a certeza da minha existência. Engano-vos. Sim, engano-vos e não posso deixar de vos enganar. Vós é que devíeis ensinar-vos a vós próprios. Ensinar! Nunca se consegue ensinar; a única coisa que existe é aprender. Aprende-se a partir daquilo que se sabe; ensina-se como quem semeia de olhos vendados. Aqui, um muro; bate-se, atira-se a semente contra o vento, tentamos contornar o muro, mas não conseguimos passar. Além, um precipício: caio por ele abaixo, angustio-me, tento pedir-vos socorro, mas em vão. Vós não podeis perceber a minha angústia, porque vós sois terra com declives e eu ando de olhos vendados. No escuro. “A filosofia é, então, o esforço de reflexão que o homem faz para encontrar um sentido para a totalidade do real.” Que coisa linda! Que estupidez pegada! E quem sabe o que é a filosofia?! E isso existe? “E não se pode exterminá-la?”, apetece-me perguntar. Sim, muro.

Sabeis o que me apetecia? Ser como vós. Aprender. Poder construir, muito mais do que ser servente. E eu sei lá qual é o material que vós precisais na construção … Se nem vós sabeis pedir-mo pelo nome … Olho para vós, aí à minha frente. Angustio-me. Apetece-me rir, rir, rir! … Que coisa esquisita. O que é que estamos aqui a fazer? Sinceramente, quereis que vos diga, meus discípulos, meus amigos? … Nada. Absolutamente nada: aquilo que cabe num punho fechado, sabeis?

Então, porque não vamos, por aí, ser da mesma idade, conhecer o mundo desde o princípio, sentarmo-nos naquelas mesmas cadeirinhas da nossa escola, onde já não cabem as nossas pernas? Vistamos os nossos bibes sujos e rotos, encharquemos as nossas mãos de tinta permanente, gostemo-nos tão desinteressadamente que possamos mordermo-nos e beijarmo-nos como quem faz num único gesto a coisa mais natural deste mundo. E depois crescer, crescer como quem voa, com prazer, com naturalidade. Cúmplices. Ah! Meus amigos, garanto-vos que, agora, na escola, eu estaria sentado convosco, bem lá no fundinho, na última cadeira, despercebido, com certeza com a mesma distracção que ofereci em tempos não muito longínquos. Lembro-me de dizer, nessa altura, que gostava de estar do outro lado. Enfim, intuía o que sinto agora: o muro. Quereis que vos diga? Desse lado está-se muito melhor. Vós não sabeis. Vós sois. Eu, pobre de mim, deste lado, nem sei, nem sou. Minto-vos, engano-vos, vendo-vos coisas que não podem ser vendidas. Sou infeliz. Era tão bom poder sentar-me no meio de vós! Quereis um conselho? Ide-vos embora daqui. Enquanto houver alguém que vos queira ensinar, vós nunca conseguireis aprender nada, porque vos dão tudo ao contrário. Sois como cordeiros no meio de lobos.

Não me compreendeis, pois não?! Felizes sereis vós se nunca me compreenderdes, vos digo eu. Preservai a vossa inocência: nunca vos sentireis malvados, perversos, como eu me sinto. Sede como os passarinhos.

Esta anti-aula está a acabar. Dir-vos-ei, parafraseando um poeta: “Meus filhos, a aula acabou; abram as janelas, podem sair”.

 

 

 

José Júlio Campos

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