CHOVE
Chove. O tempo parou. Olho para o relógio várias vezes por minuto e por
isso o ponteiro está sempre no mesmo sítio. Sons e ruídos na rua, esporádicos e
distantes. Sensação de monotonia e de insatisfação. O jornal que há pouco
devorava, parece-me agora enfadonho e sou incapaz de o ler. Está à minha frente
e olho para ele como a criança que pega num brinquedo, vê para que é que ele
serve e o abandona, desinteressada. Aquela vontade de fazer coisas, de pegar
num complicado Aristóteles ou num entediante Heidegger e deslindar os seus
mistérios, descobrir neles variantes novas e inéditas, abandonam-me, neste
instante. Com a vontade vai-se a inspiração.
Olho através da persiana da janela e vejo gotas de água que caem do
beirado, espaçadamente, sobre um fundo cinzento recortado pelo verde escuro dos
ciprestes. Esta paisagem transporta-se para mim e comungo dessa tristeza.
Sinto-me deslizar no vazio do pensamento, um caminho escuro, sem paisagem nem
horizonte. Apático e distante, nem o sonho me pode fazer vibrar. Que saudades
do tempo em que construía vidas e situações imaginárias, plenas de perigos,
aventuras e romance. Que saudades do tempo em que imaginava e me sentia feliz
mesmo sabendo tratarem-se de quimeras. Hoje, quando o sonho parece confundir-se
com a realidade, sinto que esta o manchou, o impediu de concretizar-se; e é por
isso que o sonho me faz infeliz e eu não quero sonhar.
Nestes momentos, surge latente, em mim, uma pergunta venenosa, sórdida,
cínica, mas pertinente: qual o sentido de tudo isto? A vida, a morte, o que
são?
Sinto que todas as hipóteses de acção
comportam riscos e tenho medo. O sonho que se podia realizar esbarra no
princípio da realidade. Uma realidade que é dura, cruel, dramática e cinzenta
como este dia. Ai que saudades do tempo em que conseguia chorar lágrimas
amargas e com elas regava as feridas que depois lambia. Ai que saudades daquele
sabor a sal e daquela dor mitigada, daquela sensação agradável da dor que já
passou.
Hoje, sofro pouco e sofro muito, porque já não sou capaz de sofrer a sério
e já não tenho lágrimas para chorar. Para aqui me derramo neste papel branco
que é o lenço onde seco o meu pranto inexistente.
E o tempo permanece parado. E chove.
José Júlio Campos
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