quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


CHOVE

 

 

Chove. O tempo parou. Olho para o relógio várias vezes por minuto e por isso o ponteiro está sempre no mesmo sítio. Sons e ruídos na rua, esporádicos e distantes. Sensação de monotonia e de insatisfação. O jornal que há pouco devorava, parece-me agora enfadonho e sou incapaz de o ler. Está à minha frente e olho para ele como a criança que pega num brinquedo, vê para que é que ele serve e o abandona, desinteressada. Aquela vontade de fazer coisas, de pegar num complicado Aristóteles ou num entediante Heidegger e deslindar os seus mistérios, descobrir neles variantes novas e inéditas, abandonam-me, neste instante. Com a vontade vai-se a inspiração.

Olho através da persiana da janela e vejo gotas de água que caem do beirado, espaçadamente, sobre um fundo cinzento recortado pelo verde escuro dos ciprestes. Esta paisagem transporta-se para mim e comungo dessa tristeza. Sinto-me deslizar no vazio do pensamento, um caminho escuro, sem paisagem nem horizonte. Apático e distante, nem o sonho me pode fazer vibrar. Que saudades do tempo em que construía vidas e situações imaginárias, plenas de perigos, aventuras e romance. Que saudades do tempo em que imaginava e me sentia feliz mesmo sabendo tratarem-se de quimeras. Hoje, quando o sonho parece confundir-se com a realidade, sinto que esta o manchou, o impediu de concretizar-se; e é por isso que o sonho me faz infeliz e eu não quero sonhar.

Nestes momentos, surge latente, em mim, uma pergunta venenosa, sórdida, cínica, mas pertinente: qual o sentido de tudo isto? A vida, a morte, o que são?

 Sinto que todas as hipóteses de acção comportam riscos e tenho medo. O sonho que se podia realizar esbarra no princípio da realidade. Uma realidade que é dura, cruel, dramática e cinzenta como este dia. Ai que saudades do tempo em que conseguia chorar lágrimas amargas e com elas regava as feridas que depois lambia. Ai que saudades daquele sabor a sal e daquela dor mitigada, daquela sensação agradável da dor que já passou.

Hoje, sofro pouco e sofro muito, porque já não sou capaz de sofrer a sério e já não tenho lágrimas para chorar. Para aqui me derramo neste papel branco que é o lenço onde seco o meu pranto inexistente.

E o tempo permanece parado. E chove.

 

 

José Júlio Campos

 

Sem comentários:

Enviar um comentário