OS
CÃES QUE NÃO MORDERAM O DONO
Esta
é a história de dois cães de guarda que se venderam em troca de uns ossos.
A
história, verídica, ou, pelo menos, verosímil, passou-se numa quintarola,
situada à beira-mar.
A
quinta, sobre o comprido, em forma de retângulo, não era grande. A sua
capacidade produtiva quase se cingia ao vinho e ao azeite de qualidade,
produzidos nas encostas e vales mais solarengos; o resto eram serranias e
matagais, onde umas quantas cabeças de gado bovino, ovino e caprino pastavam pachorrentamente.
Os
donos da quinta viviam numa casa antiga, brasonada, situada no mesmo local em
que um pequeno riacho lançava as suas parcas águas ao mar. A família, numerosa,
à semelhança da casa agora votada ao desmazelo, já tinha conhecido melhores
dias: as dívidas acumulavam-se devido aos seus próprios desmandos, os credores,
usurários, não saíam da porta, as discussões sem razão abundavam numa casa sem
pão. O único motivo de orgulho desta gente, herdado de tempos em que a quinta
era invejada pelas redondezas, era a imponente escadaria que se guindava desde
o terreiro, onde descansavam máquinas e alfaias, até à majestosa entrada da
casa. Até ao terreiro, qualquer um chegava; do terreiro para cima, até às
várias entradas em arcos de volta perfeita, ninguém tinha a ousadia de pisar,
fosse ladrão cobiçoso, ou trabalhador descontente com a jorna. Aquelas escadas
eram território sagrado, qual monte Sinai onde para sempre brilhasse a sarça
ardente. Essa inacessibilidade era garantida por dois cães de guarda, cuja
feroz presença de leões com ar ameaçador era suficiente para manter à distância
os mais temeratos. Os outros, os mais intrépidos e atrevidos, porventura
desejosos de chegar a roupa ao pêlo aos donos da casa, esses eram corridos à
dentada, conforme consta dos anais. E, assim, os donos da quinta prosseguiam na
sua saga de malvadez: atropelos aos direitos dos seus súbditos e malfeitorias a
todos os que viviam na quinta; mentira e cinismo distribuídos a esmo, sempre
protegidos por esses dois farçolas que davam pelo nome de Guarda o Nosso Reino
(o Guarda) e Porrada Sobre o Povo (o Porrada). Era uma mania que vinha de
tempos imemoriais, nesta casa, darem nomes esquisitos aos cães de guarda.
O
Guarda e o Porrada eram exemplares no serviço que prestavam aos donos da casa,
apesar de serem, por estes, aqui e além, tratados como cães que eram: com
desprezo. E eles não mereciam isso. Além de guardarem a casa e a sua escadaria
com a eficácia já referida, eram eles que, em tempos de mais aperto como os que
viviam agora, davam o corpo ao manifesto, angariando boa parte do sustento dos
donos da casa. Encarregavam-se de cobranças difíceis a devedores mais
renitentes; escondiam-se em becos, lugares esconsos, curvas da estrada e outros
locais inopinados para, de surpresa, saltarem sobre as suas presas, vítimas
indefesas das suas garras, e lhes sacarem grossas maquias que, diligentemente,
depositavam aos pés do dono. Faziam-no na esperança de verem a sua ração
aumentada e até, quiçá, de poderem gozar de um merecido retiro, antes de as
pernas trôpegas os traírem na sua luta contra o “inimigo”. Em vez disso, o dono
cortava-lhes na ração e obrigava-os a ser ainda mais ferozes na pilhagem aos
que passavam pela quinta. De desfeita em desfeita, foi crescendo no Guarda e no
Porrada um sentimento de injustiça que a eles mesmos atemorizava. Como era
possível começarem a sentir raiva para com os seus donos? Como podiam ter
vontade de os morder nas canelas quando eles, com ar de gozo, lhes diziam, ao
dar-lhes a única e cada vez menor dose diária de ração: “vá, tomai e calai;
tendes de comer cada vez menos para correr cada vez mais!”
O
Guarda e o Porrada sentiam essa raiva crescer dentro deles como uma cria
indesejada. Insinuou-se como um sentimento desconhecido e absurdo que quiseram
rejeitar; foi resistindo e crescendo larvarmente à medida que era recalcado;
até que um dia explodiu claramente no seu corpo e na sua consciência, como um
desejo irreprimível de loucura: “não aguentamos mais!”
E
aconteceu a revolta.
Um
dia, à noite, enquanto a família jantava, enquanto, à mesa farta, a família
debatia a melhor maneira de continuar a mentir e a roubar os trabalhadores da
quinta, os cães, os cães de guarda, o Guarda e o Porrada, no seu posto
habitual, ao fundo da escadaria, começaram a rosnar. Primeiro, um rosnar apagado,
quase uma pacífica conversa entre dois cães; depois, a rosnadela subiu de tom:
o rosnar dos dois cães parecia já o de uma matilha; pior, o de uma alcateia.
Dentro
da casa, a família alvoroçou-se; primeiro pensou que houvesse ladrões a rondar
a casa; depois percebeu, à medida que o clamor aumentava, que o caso era mais
grave. Correram, precipitadamente, para as janelas sobranceiras à escadaria e
não queriam acreditar no que viam: os dois cães, os dois guardas fiéis, o
Guarda e o Porrada subiam, eles mesmos, a sagrada escadaria, lentamente, à
medida que a sua consciência de guardas cedia e recuava face à pressão da
injustiça e da revolta que os queimava. O ar ameaçador, as fuças arreganhadas,
a tonitruante rosnadela em uníssono fizeram tremer os fundilhos das calças a
todos os membros da família, mesmo aos que não as usavam. Em poucos minutos, o
santuário da escadaria tinha sido violado; os cães de guarda, qual turba
ululante e sedenta de sangue, galgaram com facilidade e segurança cada uma das
escadas sagradas e tinham, agora, a casa à sua mercê.
Ó
terrível sacrilégio! Ó inaudita afronta! Ó famigerado crime de lesa majestade.
A
família já via o Guarda e o Porrada irromperem casa adentro, subir furiosamente
ao salão onde se refugiavam e, tal como os viram tantas vezes, sob as suas
ordens, fazer a outros, atirarem-se-lhes às canelas sem remorso, obrigando-os a
precipitarem-se pela única saída possível, as janelas envidraçadas sobranceiras
à escadaria.
Só
que, no auge do pesadelo, algo de extraordinário acontece, uma espécie de milagre
da natureza canina. Como que inebriados pela “vitória” conseguida sobre a sua
consciência, os dois cães agarraram-se a essa “vitória” e recuam contidamente,
escadaria abaixo, num misto de glória e de culpa que os afastava do local
sagrado sem consumarem os horrores aguardados dentro da casa. O cão, afinal,
não podia morder o dono!
A
família, estática e estarrecida, recuperou a compostura e o sangue frio.
Imediatamente decidiram que tal desaforo jamais poderia voltar a acontecer. A
história não se repetiria, fossem eles ceguinhos. E congeminaram, desde logo,
as medidas a tomar.
No
dia seguinte, chamados o Guarda e o Porrada à presença dos seus donos, estes
decretaram, de imediato, um processo de substituição da consciência do Porrada;
parece que a violação do território sagrado se devera essencialmente a falhas
dessa consciência. Quanto à razão que motivara tal ousadia, a revolta dos cães
de guarda, essa seria aplacada lançando-lhes, todas as noites, desde o cimo das
escadas, os ossos e outros restos do jantar, como complemento da ração diária.
Ah! E esta também seria ligeiramente aumentada. Assim, como em semelhantes
casos doutrora, se domaria a revolta dos cães de guarda, enchendo-lhes a
barriga. Estava provado que a consciência dos cães de guarda só disfunciona de
barriga vazia. Jamais um cão de ventre saciado ladrou ou rosnou ao dono. Mas,
cuidado! Ai do Guarda e do Porrada se voltassem a lembrar-se, sequer, de
repetir a façanha. Ai deles! Com esta ameaça, não concretizada, os humilhou o
membro da família responsável pelo seu controlo e perante o qual eles eram
sempre obrigados a abanar a cauda em sinal de subserviência.
A
partir desse dia tudo voltou à “normalidade”.
Poucos
dias depois “la famiglia” decretou mais um conjunto de medidas que fizeram
recrudescer a miséria em que os seus subordinados viviam, na quinta. Estes,
intimidados pelas dentuças dos cães de guarda, agora de barriga cheia como
outrora, não podiam sequer aproximar-se da escadaria, quanto mais transpô-la,
invadir a casa e correr os seus inquilinos à paulada como era seu desejo. E,
assim, postos em sossego pelo medo, foram vivendo e morrendo, pobres,
humilhados e resignados. Per omnia saecula saeculorum.
José
Júlio Campos
(pensarnotempo.blogspot.com)