segunda-feira, 29 de abril de 2013

TEMPOS DIFÍCEIS

Vivemos tempos difíceis. Não são fáceis de perceber as coordenadas económicas e sociais do espaço e do tempo em que nos movemos, dada a instabilidade do azimute político a que a união europeia, primeiro, e a moeda única, depois, nos acorrentaram. Levantam-se vozes que nos confundem e começa a desenhar-se, na mente do cidadão comum, a ideia de que a União Europeia não tem futuro. Pior: surgem, espectrais, os contornos de um logro em que, afinal, nos serve melhor o papel de vítimas do que o de réus, ao contrário daquilo que alguns, maquiavelicamente, nos têm feito crer. Começamos a temer que a oportunidade única do “eldorado” europeu se esteja a transformar num pesadelo que poderá levar mais de uma geração a dissipar-se. Algumas ideias, até há pouco tempo desgarradas e solitárias, começam a congregar-se num coro que é impossível não escutar.
Prevê-se que a crise na Europa desembocará, necessariamente, numa de três saídas: o fim da moeda única; a saída do euro por parte dos países “culpados” da crise – Grécia, Portugal e Chipre, seguramente, Irlanda, Espanha e Itália, plausivelmente; a saída do euro por parte dos países ricos e que, no entender deles, são a locomotiva da moeda única – a Alemanha e alguns países do norte da Europa que seguem a cartilha merkeliana. Seja qual for o desenlace, uma coisa é certa: a Europa não só não continuará a ser como era, como definitivamente jamais será aquilo que os seus mentores sonharam e desejaram. O conceito chave da construção europeia, a solidariedade entre os povos, está ferido de morte e a desconfiança que, no século XX, levou a duas guerras mundiais, alastra como denso nevoeiro na relação entre os países do norte e os do sul. Nestes, à revelia da opinião publicada, “certificada” e veiculada pelos partidos no poder, a opinião pública do senso comum começa a libertar-se das teses criadas e viralmente disseminadas pelos cérebros alemães, à medida em que estes vão deixando cair a máscara. Desde o episódio do inacreditável comportamento da Finlândia contra Portugal, aquando do nosso pedido de resgate, há dois anos atrás, até à recente declaração do ministro das finanças da Alemanha, segundo o qual o problema dos povos do sul da Europa é terem inveja dos alemães, passando pela constante atitude egoísta, agiota e chantagista da troika que, sistematicamente, tem dificultado as negociações da dívida dos países resgatados, têm-se revelado cabalmente as hipócritas intenções da Alemanha e seus satélites. Além disso, a recordação da responsabilidade da Alemanha na promoção de duas guerras mundiais que destruíram por duas vezes a Europa, aliadas ao facto de lhes ter sido perdoada uma dívida, consequente da responsabilidade pela 2ª Guerra Mundial que, só no caso da Grécia (uma das suas vítimas de então e de agora) era superior a 150 mil milhões de euros, contribui sobremaneira para agravar a ferida anti-germâmica que alastra no sul da Europa. Começa, aliás, a fazer caminho a tese de que a Alemanha estará a tentar, pela via económica e financeira, aquilo que não conseguiu pela via política e militar: o domínio total da Europa. Compreender-se-ia, à luz dessa estratégia, a forma como, mediante inesgotáveis subsídios, foi destruindo, pacientemente, o sector produtivo das economias do sul da Europa para, agora, qual cobrador do fraque, vir passar a fatura de uma crise criada pela banca internacional que tem precisamente a Alemanha como testa de ferro. Pode, mesmo, especular-se até que ponto não terá sido essa desconfiança profunda face às reais intenções dos alemães que terá levado os ingleses a não embarcar no canto da sereia da moeda única. Algo de que os franceses, historicamente mais crédulos e volúveis, estarão, agora, também, a ser vítimas devido à “ingenuidade” de Sarkozy, claramente reforçada, contra todas as expectativas, por François Hollande.
É, hoje, cada vez mais evidente que a Europa já não é “das nações” em pé de igualdade, mas de uma nação com vocação totalitária e dos interesses financeiros nela sedeados. Esse facto não augura nada de bom, existindo, pois, inúmeras razões para pensarmos que algo não vai bem no “reino” da Europa. As nuvens escurecem e a tempestade ameaça suceder à borrasca. Vivemos tempos difíceis.


José Júlio Campos

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