A DESTRUIÇÃO DA
ESCOLA PÚBLICA (I)
É
um facto indesmentível e cada vez mais indisfarçável que existe, por parte do atual
governo, um ataque violento e sistemático ao funcionalismo público em geral e
aos professores e trabalhadores da educação em particular. Esta sanha
persecutória, incompreensível se descontextualizada, insere-se num programa
político e ideológico que tem como objetivo transferir para as mãos de
investidores particulares um conjunto de atividades económicas, potencialmente
muito lucrativas, como são a saúde a educação.
O
estado social chamou a si, à medida que se foi consolidando na Europa, um papel
primordial na prestação destes serviços, na medida em que só dessa forma eles
seriam acessíveis à generalidade da população. A partir do momento em que se
vão reconhecendo e concretizando os direitos humanos, nomeadamente os direitos
sociais, consignados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, desde o
final dos anos 50, os estados europeus mais avançados iniciaram um período de
grande investimento nessas áreas, de modo a criar condições objetivas para que
esses direitos fossem uma realidade ao alcance de todos. Assim se foi
construindo uma Europa social, alastrando dos países do norte para os países do
sul, onde a utopia começou a tornar-se realidade: educação e saúde, praticamente
gratuitas, para todos, segurança social para crianças, desempregados e idosos,
direito ao trabalho, com horários adequados e salários capazes de prover às
necessidades básicas dos trabalhadores, etc. Praticamente, todos os direitos
humanos, individuais e sociais que a Declaração Universal dos Direitos do Homem
consagrou, o estado social garantiu.
Hoje,
os ventos na Europa sopram furibundos em sentido contrário, provenientes de
saudosistas carcaças desejosas de recuperar algumas das migalhas caídas das
suas fabulosas fortunas ao longo destes últimos 50 anos. Os portugueses, tendo
sido dos últimos, no velho continente, a verem esses direitos reconhecidos,
estão a ser dos primeiros a vê-los destruídos e sonegados. A responsabilidade
por este retrocesso civilizacional tem que ser repartida por três fatores
incontornáveis, a saber: a submissão da generalidade dos políticos europeus aos
detentores do grande capital (os famosos mercados financeiros), a incapacidade
dos nossos governantes para aplicar os fundos comunitários no desenvolvimento
do país, ao longo de 25 anos, e um governo atual com uma agenda ideológica de
matriz neo-liberal, totalmente averso a políticas sociais, apenas interessado
em servir os interesses da banca internacional, couto dos tais mercados
financeiros. Reunidos estes ingredientes, usa-se a “crise”, originada pela
ganância dessa banca internacional e que afetou principalmente as dívidas
soberanas dos países economicamente mais frágeis, para justificar a destruição
do estado social, alegando que ele é insustentável. Este argumento, que pode
considerar-se como “a mentira do século”, vai fazendo o seu caminho, propalada
pelos sacerdotes/economistas ao serviço do grande capital especulativo essência
desses mercados financeiros, ganhando adeptos entre as populações
desinformadas, conformistas ou amorfas. E assim, com poucos protestos à
mistura, se vai cinicamente aniquilando o estado social, destruindo,
rapidamente e em força, os serviços sociais por ele garantidos.
O
ensino é um desses serviços, cuja destruição tem vindo a ser sistematicamente
prosseguida, com fundamento num conjunto de falácias persistentes no demagógico
discurso do governo e do ministério da educação. Vejamos, apenas, algumas das
medidas que o ministério tem vindo a impor às escolas, muitas delas de alcance impercetível,
no imediato, para os leigos, mas com repercussões graves na qualidade do ensino
e no futuro da escola pública.
O
“processo” iniciou-se com a total destruição do Estatuto da Carreira Docente,
desencadeada ainda no famigerado consulado de Maria de Lurdes Rodrigues e
sadicamente continuada pelo atual ministro. Depois, consolidou-se através de
uma série de medidas impostas pelo atual governo, sejam elas relativas ao
pessoal docente, aos alunos e suas famílias ou ao desenvolvimento curricular; referiremos,
a título de exemplo, um reduzido número dessas medidas. Começando pelo pessoal
docente, a destruição do seu Estatuto traduziu-se, entre outras medidas, na
obrigatoriedade de realizar tarefas de natureza burocrática para que não estão
preparados e em alterações significativas no horário de trabalho:
desaparecimento das horas de redução da componente letiva em função do aumento
de idade e tempo de serviço; retirada, da componente letiva, das horas
destinadas a cargos de coordenação pedagógica; redução drástica do crédito
horário das escolas para apoios pedagógicos acrescidos proporcionados a alunos
com maiores dificuldades de aprendizagem; etc.
(continua no próximo número)
José
Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com
Sem comentários:
Enviar um comentário