A DESTRUIÇÃO DA
ESCOLA PÚBLICA (II)
(continuação do
número anterior)
Ainda
relativamente aos docentes, o ministério implementou um sistema de avaliação de
desempenho altamente confuso e burocratizado que visa, unicamente, condicionar
a progressão na carreira devido à sua sujeição a um regime de quotas totalmente
absurdo. Também o congelamento da contagem do tempo de serviço para progressão
na carreira, durante quase todos estes anos desde 2005, e a alteração dos
escalões e índices fazem com que muitos professores estejam estagnados na
carreira há dez anos e todos estejam, hoje, em piores condições remuneratórias
do que antes de se iniciar este ataque deliberado à classe docente.
Mas
não foram só os docentes as vítimas deste processo; também as famílias e os
alunos sofrem as consequências desta política. O sistema de apoio social
escolar aplica-se a um número cada vez mais residual de alunos e consiste num
apoio mínimo, quando é sabido que existem hoje mais famílias carentes dele. A
escola inclusiva, algo de que Portugal começava, em 2010, a ter motivo para se
orgulhar, foi totalmente destruída: começaram por retirar apoios específicos
aos alunos portadores de deficiência, nas suas escolas e locais de residência,
empurrando-os para as chamadas escolas de referência; estas, por sua vez, de
referência só tinham o nome e uma quantidade maior de docentes do ensino
especial; só no presente ano letivo, estes professores foram reduzidos, em todo
o país, em cerca de metade. Há uns anos atrás, turmas onde estivesse um desses
alunos com necessidades educativas especiais não podiam ter mais de vinte
alunos para que os professores pudessem ter tempo para acompanhar todos e as
outras turmas não podiam ultrapassar os vinte e seis alunos. Hoje, as turmas
podem ir até trinta alunos, não devendo ter menos de vinte e seis e integrando,
muitas delas, alunos com necessidades educativas. Hoje, pode afirmar-se com
toda a propriedade que os alunos que revelam especiais dificuldades de
aprendizagem foram completamente esquecidos e marginalizados, tratados como
lixo pelo governo português.
A
intenção de destruir o ensino público não fica por aqui e estamos, apenas, a
referir algumas das muitas medidas cuja enunciação total exigiria um livro
inteiro, quiçá, o livro branco da destruição do ensino público que, espero,
alguém um dia escreverá. Também no plano curricular essa intenção é por demais
evidente: reduziu-se em um terço a carga horária das disciplinas da formação
específica, no 12º ano, sem haver, sequer, por parte do ministério da educação,
a preocupação em fazer a indispensável adequação dos conteúdos programáticos;
acabou-se com o plano da matemática, que tão bons resultados estava a dar,
aumentando-se a exigência nos exames nacionais, o que teve como consequência
descambarem os resultados desses exames como tem vindo e irá continuar a
acontecer. Aliás, a estratégia do ministro Crato, no que se refere a exames, é
muito clara: aumentar a sua quantidade e a exigência neles colocada, fazendo
crer aos leigos no assunto que com isso melhora a qualidade do ensino,
reduzindo drasticamente as condições que os alunos têm, nas escolas, para se
prepararem para esses exames; desta forma, a escola pública ficará com o
estigma de não preparar devidamente os seus alunos, ao contrário das escolas
privadas que, em função das condições de autêntica exploração do trabalho
docente e dos chorudos subsídios estatais, se distinguirão cada vez mais nos
perversos rankings de resultados de exames. Ao mesmo tempo, aproveitará a
possível desconfiança generalizada sobre a forma como os exames são aplicados
para transferir a responsabilidade por essa aplicação para empresas privadas,
criando mais um negócio que custará milhões ao estado e aumentará a quantidade
de funcionários públicos que deixam de ser necessários, aliás, à semelhança do
que têm vindo a fazer noutras áreas.
Todas
estas e muitas outras medidas, associadas àquelas que são comuns à restante
função pública, como a redução de salários, o corte de subsídios, o aumento da
idade da reforma, o aumento de impostos e contribuições sobre os rendimentos do
trabalho, etc, instalaram um estado de quase completo desânimo na classe
docente que só vai sendo minimizado por duas razões: pela dignidade
profissional dos professores e o seu respeito pelos alunos e suas famílias
(algo que o ministro da educação e o governo já provaram que não têm, nem sabem
o que é) e pelo receio de um dia poderem ser preteridos nos processos de seleção,
caso nestes venham a introduzir-se mecanismos que facilitem a arbitrariedade de
quem seleciona, como pretendem fazer.
Postas
estas considerações, algumas conclusões são óbvias, a saber: a qualidade do
sistema público de ensino está a cair a pique, fruto da política educativa do atual
governo; a intenção dessa política é lançar o descrédito sobre o ensino
público, ao mesmo tempo que se financia o ensino privado e se encaminham para
lá mais alunos; o objetivo final, a alcançar a médio prazo, é transferir o
grosso da atividade educativa para as mãos de empresários e grupos privados,
reduzindo o papel do estado, nesta área, a uma função meramente
assistencialista: umas quantas escolas pobres e mal apetrechadas para darem uma
escolaridade mínima e de mínima qualidade àqueles que não podem pagar o alto
custo das escolas privadas. Nestas progredirão os filhos dos ricos, com todas
as condições pagas a peso de um “ouro” que irá criar mais uns senhores
poderosos na finança e mais uns cargos administrativos apetecíveis para os
agora políticos, quando na política deixarem de ter lugar.
José
Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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