quarta-feira, 18 de setembro de 2013

NOVAS FORMAS DE ESCRAVATURA (II)

As forças políticas e sociais, representadas e defendidas por esses partidos maioritários, utilizam os meios de comunicação social, que ao longo de décadas trataram de controlar, para manipular a consciência do cidadão comum que quanto mais inculto mais facilmente é contaminado e formatado por essa ideologia dominante. E o que essa ideologia dominante transmite é que só pode haver uma sociedade organizada e estável se o capital se sobrepuser ao trabalho, se o empregador não tiver espécie alguma de responsabilidade social, se todos os meios forem legítimos para a obtenção de lucros, se o estado não intervier nas relações de força entre as classes sociais, ou seja, toda uma cartilha liberal e neo-liberal que interessa exclusivamente aos detentores dos meios de produção e é totalmente contrária aos interesses do “povo”, cuja única riqueza é o seu trabalho. Votar consecutivamente em partidos que defendem essa cartilha liberal, como são os partidos de direita e centro direita, em detrimento dos partidos que defendem e valorizam o trabalho e os interesses de quem depende apenas dele para garantir a sua subsistência, não pode ser visto senão como uma forma de alienação, aquilo que eu chamaria uma “escravatura ideológica”. O capitalismo financeiro, os chamados “donos do mundo”, exerce este domínio sobre a mentalidade popular através de três meios essenciais. Um deles é o controlo dos partidos políticos mais votados que lhes permite impor as políticas mais favoráveis aos seus interesses; para isso recorrem à criação de uma espécie de classe político-empresarial que vai saltando de cargos públicos para empresas privadas, cozinhando naqueles o que virão a comer nestas; são os carreiristas  da política que estão nela apenas para servirem os seus interesses e os daqueles que lhes podem pagar boas maquias em troca dos seus favores políticos. Outro meio é a comunicação social, quase toda controlada por esse capitalismo financeiro, não pelo lucro que ela dá, mas pelo poder ideológico que lhe está inerente; não é por acaso que continuamos a assistir à destruição da comunicação social pública ou independente por parte desses partidos que estão ao serviço desses poderes financeiros e à sua transferência para a mão de monopólios privados. As consequências desta privatização são, por um lado, promover uma maior estupidificação cultural através da multiplicação de programas como os que são transmitidos na generalidade dos canais (big brothers, splashs e quejandos); por outro lado, levar à criação de uma classe de jornalistas e comentadores, escolhidos a dedo na órbita desses partidos maioritários, cujas carreiras dependem de dizerem o que interessa a quem lhes paga – os seus donos. Existe, ainda, um outro meio a que esses senhores lançam mão para intoxicar a opinião pública: são os analistas e comentadores de economia, tipo Medina Carreira ou César das Neves, cujas carreiras dependem, também, desses senhores; estes economistas que pululam entre os media, os tais partidos maioritários, as universidades e as empresas são os “sacerdotes” desta seita de adoradores do dinheiro cuja razão de viver é acumular fortunas incontáveis que os equiparem ao próprio “todo-poderoso”. E é assim que, por paradoxal que pareça, o poder desses “senhores do dinheiro” se vai perpetuando à custa e com o beneplácito das maiores vítimas desse poder – o povo humilde, pobre, desempregado e desvalorizado. É este povo que, através do seu voto, uma das armas legais de que dispõe em democracia, confere legitimidade (da qual se vangloriam para fazerem tudo o que lhes apetece, como faz Passos Coelho) àqueles que enriquecem desmesuradamente à custa do seu empobrecimento. Chamo a este fenómeno “escravatura ideológica” porque ele só é possível na medida em que as pessoas não têm consciência de que o voto em determinados partidos é um voto em ideologias que são absolutamente contrárias aos seus interesses. E aquilo que torna possível a escravatura é a alienação da consciência dos seus direitos. É assim desde tempos imemoriais. A escravatura só existiu porque os escravos aceitavam a sua condição de escravos como sendo natural e determinada pela divindade; por isso viviam num estado de alienação que os levava à resignação e à aceitação da sua condição de escravos. E eram precisamente os senhores, os seus donos que lhes inculcavam estas crenças e promoviam esta alienação, pois eram eles que, também nesses tempos, eram donos deles e do mundo.
Hoje assistimos a um novo tipo de escravatura, de natureza ideológica, que desvirtuou a democracia. Ao controlar o voto popular mediante o controlo das consciências, o poder capitalista continua a ter todas as condições para agravar as desigualdades entre ricos e pobres que, como sabemos, são cada vez maiores. Contando, para isso, com os votos desses mesmos pobres.


José Júlio Campos

pensarnotempo.blogspot.com


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