Num
belo dia de março, Aníbal e Maria tomam posse do palácio de Belém, com o
beneplácito de Sócrates que não tardaria a provar o veneno cavaquiano. Na
pré-campanha para as legislativas de outubro de 2009, Cavaco entendeu ser o
momento de levar o PSD ao poder e inicia, oficialmente, a guerra contra
Sócrates, inventando a famigerada intentona das escutas no palácio
presidencial. Malgrado todo o seu esforço, Sócrates volta a ganhar as eleições;
no entanto, tem os dias contados; Cavaco não desiste e torna-se o seu principal
opositor. Conseguida a reeleição, em janeiro de 2011, inicia, de imediato, a
campanha para derrubar o governo socialista fazendo, logo na tomada de posse,
um apelo veemente a um “sobressalto cívico” que significa um “às armas” contra
Sócrates; apela a que os jovens, os pais, todos manifestem a sua indignação;
declara, solenemente, aquando da apresentação do PEC IV que o povo português já
não suporta mais sacrifícios. O PEC é chumbado, Sócrates pede a demissão e
Cavaco utiliza a “bomba atómica”, como ele lhe chama: dissolve a Assembleia e
marca eleições antecipadas. Passados tantos anos, a crise que soprava da Europa
e começava a fazer estragos em Portugal dava-lhe, de mão beijada, a oportunidade
de concretizar a velha ambição de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um
presidente. Recorrendo a esse ícone do cinismo, da hipocrisia e do
maquiavelismo ético-político que dá pelo nome de Paulo Portas, para o qual tudo
vale desde que esteja no “poleiro”, Cavaco torna-se, assim, o tutor único e supremo
desta espécie de ditadura parlamentar, em que vivemos desde então. E, para quem
convive mal com a democracia, à falta de um regime presidencialista, este tipo
de regime pode, perfeitamente, satisfazer o seu ego; por isso tem feito tudo,
contra quase todos, por mantê-lo, até porque a sorte o bafejou com um chefe de
governo sem estrutura nem personalidade cuja incompetência só é comparável à
teimosia e vingança que põe na sua governação, à imagem, aliás, do seu tutor.
Só assim se compreende a forma totalmente anacrónica como lida com o atual
governo em comparação com o anterior: agora, depois de vermos os sacrifícios
terem sido triplicados, já não entende que sejam insuportáveis; agora, apesar
de o governo insistir em violar a Constituição de forma grosseira e descarada,
não o demite – ao invés dá-lhe “colinho”, como quando Passos o procurou, num
dos atos mais patéticos e burlescos da história política recente, qual menino
mimado que leva uma reprimenda do professor (o Tribunal Constitucional); uma
cena de ópera bufa do género “agarrem-me senão eu mato-me!”.
E
assim, o sr. Silva, como em tempos lhe chamava o cacique da Madeira, vai
vivendo o seu sonho, pesadelo para a maioria dos portugueses, inspirando-se na
figura histórica que reencarnou no inconsciente dos mais saudosistas; também
ele tem uma Maria como musa inspiradora, com a diferença de que o “outro” a
mantinha calada e servente na cozinha e na despensa, enquanto Cavaco não
prescinde de a trazer a tiracolo, autorizando-lhe mesmo que rivalize com ele no
que respeita às tiradas mais ridículas. Aliás, neste aspeto, Cavaco vai de mal
a pior, algo que não deve ser alheio a um natural processo de degenerescência
neurológica que parece manifestar-se até no modo como tem vindo a acrescentar
aos esgares histriónicos o entaramelamento preocupante da fala. Será, também,
essa, a explicação para algumas das suas “gaffes” mais recentes, como ter-nos
apelidado de “cidadões”, ou como ter insultado os portugueses quando se queixou
de receber da CGA, mai-la sua Maria, uma reforma que mal chega para pagar as despesas
da casa (da dele, onde não vive, porque daquela onde vive, com pompa e
mordomia, somos nós que as pagamos); só ele, de pensões variadas, recebe cerca
de dez mil euros mensais. Mas o auge da tragicomédia em que se tornaram as
declarações de Cavaco ocorreu no passado dia 14 de maio, quando afirmou,
inspirado pela sua musa Maria, que a aprovação pela troika na 7ª avaliação a
Portugal se teria devido a “uma inspiração de Nossa Senhora de Fátima”! (Não
deixa de ser curioso que também houve quem tentasse associar a instauração do
Estado Novo a uma intervenção divina, através de Fátima). Será que Cavaco
confunde a troika com a Santíssima Trindade? E, a atentar nas suas mais
recentes declarações, qual das três pessoas é o FMI?! É inqualificável este
recurso à área do sagrado para explicar fenómenos sócio-políticos; é um
insulto, tanto a não crentes como, sobretudo, a crentes, pois trata-se de
invocar o nome de Deus em vão, como muito bem lembrou Jorge Miranda.
O
diagnóstico do nosso país é, pois, elementar: temos um governo que já passou do
estado de coma ao estado de decomposição, teimosamente ligado a uma máquina
também ela em acelerado processo de degenerescência.
E
assim vai definhando Portugal.
José
Júlio Campos
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