terça-feira, 23 de julho de 2013

NOVAS FORMAS DE ESCRAVATURA (I)

O conservadorismo do voto popular é uma questão que me intriga, de há vários anos a esta parte, e para a qual tenho procurado algumas respostas. Porque é que a maior parte das pessoas tem tendência a votar sempre no mesmo partido, escolhendo-o praticamente para toda a vida como se de um clube desportivo se tratasse? A que se deve essa cristalização abcessiva da escolha eleitoral?
A questão faz ainda mais sentido na medida em que o fenómeno em causa é generalizado, tanto no plano histórico como geográfico. Mas também se torna mais incompreensível quando se constata que existe efetivamente uma tendência para aderir e votar consecutivamente no mesmo partido, ainda que esse partido represente, defenda e materialize tudo o que é contrário aos interesses pessoais, profissionais e cívicos desses mesmos eleitores. Uma espécie de masoquismo eleitoral do género “quanto mais me prejudicas, mais voto em ti”!
Tratando-se, como disse, de um fenómeno generalizado, atentemos no caso concreto de Portugal. Como é que se pode entender que o eleitorado continue a votar massiva e consecutivamente no PS e no PSD, outorgando-lhe, alternadamente, mandato para governar o país, quando é certo que existe quase unanimidade na forma muito negativa como é avaliada a respetiva governação ao longo destes mais de trinta anos? Se têm governado tão mal, como as pessoas dizem e eles próprios se acusam mutuamente, por que cargas de água continuam a recolher o vota da maioria?
Tentemos analisar um conjunto de respostas que, embora retiradas do caso português, possam, algumas delas, ajudar a compreender o fenómeno noutras latitudes.
A primeira resposta que aparece, explícita no próprio discurso dos partidos maioritários, remete para a “segurança” inerente ao conhecido versus o “medo” face ao desconhecido, ou, se quisermos, a experiência face à inexperiência rotulada de aventureirismo. Suportando-se estas teses num vasto conjunto de falácias, a única forma de provar a sua insustentabilidade é, precisamente, romper com o medo que as suporta através de um voto de rutura com o passado que será um imprescindível ato de coragem. Este voto de rutura tem de basear-se na convicção de que, num tão vasto espectro político e ideológico, os únicos “iluminados” (ainda por cima com as lâmpadas comprovadamente fundidas!) não podem ser aqueles que conduziram o país a esta “apagada e vil tristeza”; e na certeza de que a experiência, independentemente do partido a que se pertence, não é inata, antes se adquire com a prática. Além disso, o medo de ideologias acusadas de gostos gastronómicos tão exóticos como devorar inocentes ao pequeno almoço é tão absurdo como usá-lo para estigmatizar determinados partidos políticos que assim se viram condenados ao ostracismo governativo do país. Este estigma, que hoje se reproduz e corrobora através da pomposa expressão “arco da governação”, tem as suas raízes no Estado Novo e incorporou-se na cultura popular por via de uma ideologia fundada nos conceitos de Deus, Pátria e Família que Salazar utilizou como pedra basilar e sustentáculo de um regime que durou meio século. A assimilação e acomodação destes valores na cultura popular foram facilitadas, também, por outros fatores como o analfabetismo generalizado, o isolamento face a outros povos e culturas e a conivência entre o Estado Novo e a hierarquia da Igreja Católica que contribuíram para diabolizar tudo o que cheirava a ideologias de esquerda. Ainda hoje, passados tantos anos, a hierarquia católica, apesar de proclamar valores que estão mais próximos da esquerda do que da direita, tem dificuldade em libertar-se das amarras ideológicas que vêm do passado. Existe, pois, por parte da generalidade da população mais desprotegida e marginalizada, o chamado “povo”, um receio endémico e atávico das ideologias políticas que mais e melhor defendem os seus interesses. É este paradoxo que carece de explicação. E, para isso, não basta argumentar que continuamos a ser um país culturalmente atrasado apesar de termos “evoluído” do analfabetismo para a iliteracia. É preciso perceber que, por si só, esse atraso cultural não significa incapacidade para pensar e para reconhecer os próprios interesses, embora contribua para isso. O cerne deste fenómeno paradoxal está, antes, no modo como as forças políticas e sociais a quem interessa este status quo eleitoral utilizam esse atraso cultural para o perpetuarem de geração em geração.                   (Continua)



José Júlio Campos

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