segunda-feira, 27 de maio de 2013

O SR. CAVACO (I)

A personalidade que tem tutelado a vida política portuguesa nos últimos trinta anos merece, indiscutivelmente, ser objecto de uma reflexão atenta que nos permita entrever como foi possível tão grande protagonismo, por parte de uma figura tão insípida e presunçosa. Apesar de tão duradoura presença nos píncaros da política portuguesa, é expectável que a História pouco mais relevará deste cidadão do que as tão famosas quanto inacreditáveis tiradas que foi e continua semeando a esmo. Mas comecemos pelo princípio.
A sua entrada na alta roda da política nacional, no princípio dos anos oitenta, foi facilitada pela grave crise económica e consequente instabilidade social reinante. Cavaco soube cavalgar essa onda de desilusão, aureolando-se de místico sebastianismo e assumindo, no inconsciente coletivo da direita mais saudosista, a reencarnação do ditador de Santa Comba. Para reforçar essa imagem de figura redentora, que Cavaco sempre cultivou, nada melhor do que a narrativa por ele engendrada acerca da forma como chegou à liderança do partido. Só um predestinado para a salvação da pátria poderia ir ao congresso do partido, na Figueira da Foz, para fazer a rodagem ao automóvel e, contra todas as expectativas, sair de lá como líder aclamado do PPD/PSD. O certo é que a maioria do bom, mas politicamente inculto, povo português acreditou nesta narrativa miraculosa e premonitoriamente salvífica para lhe dar duas maiorias absolutas consecutivas. Para isso, contribuiu, também, no início, o oportunismo político mal disfarçado de Ramalho Eanes e seus comparsas.
Uma vez instalado como chefe absoluto do reino, cujo único dissabor foi não ter conseguido que o povo elegesse um presidente da república por ele manipulável, foi-se rodeando de leais “ajudantes”, como ele lhes chamava, enxameando a administração pública de “boys” e de cargos inventados à medida das suas necessidades partidárias. Curiosamente, uma boa parte desses boys e ajudantes estão, hoje, indiciados ou relacionados com muitos dos casos de corrupção e outros crimes de colarinho branco que vão desfilando, pouco menos que impunemente, à frente do nossos olhos; apesar disso, o homem faz questão de se julgar acima de qualquer suspeita, como afirmou recentemente. E, assim, com o beneplácito divino da entrada na CEE, foi distribuindo e desperdiçando a preceito os fundos sem fundo destinados ao desenvolvimento do país. Ele foram fundos para investimento em explorações agrícolas e pecuárias que acabaram a pagar carros de alta cilindrada e brutas vivendas; ele foram subsídios para arrancar, plantar, voltar a arrancar, voltar a plantar e, finalmente, arrancar de vez, vinhas, olivais, pomares, etc; ele foram subsídios para a recuperação de casas destinadas a turismo de habitação cujos únicos turistas utilizadores são os seus ricos proprietários, de preferência filiados no partido; ele foram subsídios para desmantelar embarcações de pesca e alienar quase por completo as nossas frotas e quotas pesqueiras; ele foi um manancial de asneiras só possível devido à incompetência política para prever o futuro e à insensatez de governar para ganhar eleições. Mas também o povo viveu embotado e iludido esta oportunidade perdida da nossa história, enquanto Cavaco ia convencendo os crentes na sua infalibilidade com mais um histórico prodígio de presunção, digno de Luís XIV, o Rei Sol: “raramente me engano e nunca tenho dúvidas”. Àqueles que ousavam colocar alguma pedra na engrenagem cavaquista, apelidava-os de “forças de bloqueio” e responsabilizava-os pelas consequências negativas das suas decisões. Esta foi a herança deixada ao país pelo Sr. Cavaco, enquanto primeiro-ministro.
O povo percebeu, ao fim de dez anos de ilusão, os contornos dessa herança – atraso no desenvolvimento do país que começava a vislumbrar-se como fatura a pagar no futuro e autoritarismo bacoco e inculto de um líder com pés de barro que nem sabia quantos cantos tem a imortal obra de Camões, “Os Lusíadas”. Assim se explica a estrondosa derrota que lhe foi infligida na sua primeira tentativa para chegar à Presidência da República e os dez anos de travessia do deserto que se lhe seguiram. Mas ele sabia que a memória dos portugueses é curta e que era necessário deixar o esquecimento fazer o seu trabalho. Limitou-se, pois, durante esses dez anos, a mexer os cordelinhos na sombra e a lamber os danos sofridos na auréola. Pelo meio foi-se encarregando de destruir politicamente os que ameaçavam substituí-lo como figura tutelar do partido, como foi o caso de Santana Lopes.
E quando se deparou nova oportunidade não a desperdiçou. Aproveitando a memória curta e o inconsciente grande e profundo dos portugueses, donde nunca desapareceu a aura mística do sebastianismo, aliados ao maquiavélico e histórico erro de Sócrates, ao não apoiar a candidatura de Manuel Alegre, Cavaco chega onde sempre ambicionara – a magistratura suprema da nação. Para mal dos nossos pecados, como adiante se verá.



José Júlio Campos

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