sexta-feira, 29 de novembro de 2013

OS CÃES QUE NÃO MORDERAM O DONO

Esta é a história de dois cães de guarda que se venderam em troca de uns ossos.

A história, verídica, ou, pelo menos, verosímil, passou-se numa quintarola, situada à beira-mar.
A quinta, sobre o comprido, em forma de retângulo, não era grande. A sua capacidade produtiva quase se cingia ao vinho e ao azeite de qualidade, produzidos nas encostas e vales mais solarengos; o resto eram serranias e matagais, onde umas quantas cabeças de gado bovino, ovino e caprino pastavam pachorrentamente.
Os donos da quinta viviam numa casa antiga, brasonada, situada no mesmo local em que um pequeno riacho lançava as suas parcas águas ao mar. A família, numerosa, à semelhança da casa agora votada ao desmazelo, já tinha conhecido melhores dias: as dívidas acumulavam-se devido aos seus próprios desmandos, os credores, usurários, não saíam da porta, as discussões sem razão abundavam numa casa sem pão. O único motivo de orgulho desta gente, herdado de tempos em que a quinta era invejada pelas redondezas, era a imponente escadaria que se guindava desde o terreiro, onde descansavam máquinas e alfaias, até à majestosa entrada da casa. Até ao terreiro, qualquer um chegava; do terreiro para cima, até às várias entradas em arcos de volta perfeita, ninguém tinha a ousadia de pisar, fosse ladrão cobiçoso, ou trabalhador descontente com a jorna. Aquelas escadas eram território sagrado, qual monte Sinai onde para sempre brilhasse a sarça ardente. Essa inacessibilidade era garantida por dois cães de guarda, cuja feroz presença de leões com ar ameaçador era suficiente para manter à distância os mais temeratos. Os outros, os mais intrépidos e atrevidos, porventura desejosos de chegar a roupa ao pêlo aos donos da casa, esses eram corridos à dentada, conforme consta dos anais. E, assim, os donos da quinta prosseguiam na sua saga de malvadez: atropelos aos direitos dos seus súbditos e malfeitorias a todos os que viviam na quinta; mentira e cinismo distribuídos a esmo, sempre protegidos por esses dois farçolas que davam pelo nome de Guarda o Nosso Reino (o Guarda) e Porrada Sobre o Povo (o Porrada). Era uma mania que vinha de tempos imemoriais, nesta casa, darem nomes esquisitos aos cães de guarda.
O Guarda e o Porrada eram exemplares no serviço que prestavam aos donos da casa, apesar de serem, por estes, aqui e além, tratados como cães que eram: com desprezo. E eles não mereciam isso. Além de guardarem a casa e a sua escadaria com a eficácia já referida, eram eles que, em tempos de mais aperto como os que viviam agora, davam o corpo ao manifesto, angariando boa parte do sustento dos donos da casa. Encarregavam-se de cobranças difíceis a devedores mais renitentes; escondiam-se em becos, lugares esconsos, curvas da estrada e outros locais inopinados para, de surpresa, saltarem sobre as suas presas, vítimas indefesas das suas garras, e lhes sacarem grossas maquias que, diligentemente, depositavam aos pés do dono. Faziam-no na esperança de verem a sua ração aumentada e até, quiçá, de poderem gozar de um merecido retiro, antes de as pernas trôpegas os traírem na sua luta contra o “inimigo”. Em vez disso, o dono cortava-lhes na ração e obrigava-os a ser ainda mais ferozes na pilhagem aos que passavam pela quinta. De desfeita em desfeita, foi crescendo no Guarda e no Porrada um sentimento de injustiça que a eles mesmos atemorizava. Como era possível começarem a sentir raiva para com os seus donos? Como podiam ter vontade de os morder nas canelas quando eles, com ar de gozo, lhes diziam, ao dar-lhes a única e cada vez menor dose diária de ração: “vá, tomai e calai; tendes de comer cada vez menos para correr cada vez mais!”
O Guarda e o Porrada sentiam essa raiva crescer dentro deles como uma cria indesejada. Insinuou-se como um sentimento desconhecido e absurdo que quiseram rejeitar; foi resistindo e crescendo larvarmente à medida que era recalcado; até que um dia explodiu claramente no seu corpo e na sua consciência, como um desejo irreprimível de loucura: “não aguentamos mais!”
E aconteceu a revolta.
Um dia, à noite, enquanto a família jantava, enquanto, à mesa farta, a família debatia a melhor maneira de continuar a mentir e a roubar os trabalhadores da quinta, os cães, os cães de guarda, o Guarda e o Porrada, no seu posto habitual, ao fundo da escadaria, começaram a rosnar. Primeiro, um rosnar apagado, quase uma pacífica conversa entre dois cães; depois, a rosnadela subiu de tom: o rosnar dos dois cães parecia já o de uma matilha; pior, o de uma alcateia.
Dentro da casa, a família alvoroçou-se; primeiro pensou que houvesse ladrões a rondar a casa; depois percebeu, à medida que o clamor aumentava, que o caso era mais grave. Correram, precipitadamente, para as janelas sobranceiras à escadaria e não queriam acreditar no que viam: os dois cães, os dois guardas fiéis, o Guarda e o Porrada subiam, eles mesmos, a sagrada escadaria, lentamente, à medida que a sua consciência de guardas cedia e recuava face à pressão da injustiça e da revolta que os queimava. O ar ameaçador, as fuças arreganhadas, a tonitruante rosnadela em uníssono fizeram tremer os fundilhos das calças a todos os membros da família, mesmo aos que não as usavam. Em poucos minutos, o santuário da escadaria tinha sido violado; os cães de guarda, qual turba ululante e sedenta de sangue, galgaram com facilidade e segurança cada uma das escadas sagradas e tinham, agora, a casa à sua mercê.
Ó terrível sacrilégio! Ó inaudita afronta! Ó famigerado crime de lesa majestade.
A família já via o Guarda e o Porrada irromperem casa adentro, subir furiosamente ao salão onde se refugiavam e, tal como os viram tantas vezes, sob as suas ordens, fazer a outros, atirarem-se-lhes às canelas sem remorso, obrigando-os a precipitarem-se pela única saída possível, as janelas envidraçadas sobranceiras à escadaria.
Só que, no auge do pesadelo, algo de extraordinário acontece, uma espécie de milagre da natureza canina. Como que inebriados pela “vitória” conseguida sobre a sua consciência, os dois cães agarraram-se a essa “vitória” e recuam contidamente, escadaria abaixo, num misto de glória e de culpa que os afastava do local sagrado sem consumarem os horrores aguardados dentro da casa. O cão, afinal, não podia morder o dono!
A família, estática e estarrecida, recuperou a compostura e o sangue frio. Imediatamente decidiram que tal desaforo jamais poderia voltar a acontecer. A história não se repetiria, fossem eles ceguinhos. E congeminaram, desde logo, as medidas a tomar.
No dia seguinte, chamados o Guarda e o Porrada à presença dos seus donos, estes decretaram, de imediato, um processo de substituição da consciência do Porrada; parece que a violação do território sagrado se devera essencialmente a falhas dessa consciência. Quanto à razão que motivara tal ousadia, a revolta dos cães de guarda, essa seria aplacada lançando-lhes, todas as noites, desde o cimo das escadas, os ossos e outros restos do jantar, como complemento da ração diária. Ah! E esta também seria ligeiramente aumentada. Assim, como em semelhantes casos doutrora, se domaria a revolta dos cães de guarda, enchendo-lhes a barriga. Estava provado que a consciência dos cães de guarda só disfunciona de barriga vazia. Jamais um cão de ventre saciado ladrou ou rosnou ao dono. Mas, cuidado! Ai do Guarda e do Porrada se voltassem a lembrar-se, sequer, de repetir a façanha. Ai deles! Com esta ameaça, não concretizada, os humilhou o membro da família responsável pelo seu controlo e perante o qual eles eram sempre obrigados a abanar a cauda em sinal de subserviência.
A partir desse dia tudo voltou à “normalidade”.
Poucos dias depois “la famiglia” decretou mais um conjunto de medidas que fizeram recrudescer a miséria em que os seus subordinados viviam, na quinta. Estes, intimidados pelas dentuças dos cães de guarda, agora de barriga cheia como outrora, não podiam sequer aproximar-se da escadaria, quanto mais transpô-la, invadir a casa e correr os seus inquilinos à paulada como era seu desejo. E, assim, postos em sossego pelo medo, foram vivendo e morrendo, pobres, humilhados e resignados. Per omnia saecula saeculorum.

José Júlio Campos
(pensarnotempo.blogspot.com)


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