quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


PAIXÃO VIRGINAL

 

 

 

 

Correm, azuis, espirais de fumo

Perfumadas de odores misteriosos

Secam-se no ar que eu consumo

E absorvo em devaneios gulosos.

 

Nada me garante a minha vida

Como fumo de cigarro que se gasta

A minha alma, coitada, está perdida

Por esta sensação vera e nefasta.

 

Tu que me comandas docemente

Repara em mim que ardo de paixão

E me afogo em álcool, loucamente.

 

Por já não fazer bom uso da razão

Afasto-me de mim perdidamente

E entrego-me ao sabor do coração.

 

 

 

José Júlio Campos

 

NO FILME ERRADO

 

 

(No dia depois da morte de Zeca Afonso)

 

Atolado.

Subi e desci com a facilidade da águia.

Hoje não compreendo nada.

A angústia apanhou-me mesmo na boca do estômago.

Apetece-me vomitar.

Dois wiskies.

Um conto de reis.

Sóbrio e vazio.

E depois a consciência.

Pão para repartir?

Pão que não há para repartir?

E então?

O Zeca morreu.

Pois.

Hipocrisia, só vejo a minha.

Leram e pensaram: este gajo é comunista.

Fizeram uma cara de circunstância como lhes competia.

Nem tinham que fazer mais nada.

Eu é que me preocupo com isso.

Lutar?

Pois.

Mas pianinho que a polícia tem cassetetes

E os cassetetes magoam as costas.

Mas depois há os pisang ambon

E a música brasileira

E as piadinhas inocentes

E os pubs de gente bem

E os vinte aninhos da menina

E as horas para chegar a casa

E quando não há que festa,

Vamos fazer uma noitada,

Só nos deitamos às três.

E eu?

Eu percorro isto, solitário,

O mais sabedor e o mais ignorante,

Ponham o Maradona a tocar violoncelo.

A boémia sem álcool

E a felicidadezinha do adoro, é tão querido, foi giro não foi, gostaste? Porquê?

Pergunta estúpida, resposta óbvia: porque eu não sou deste filme.

E este filme é tudo: o passado e o presente, o etilizado e o sóbrio.

Estou gasto sem lhe ter tomado o gosto.

Mas quero.

 

 

 

 

José Júlio Campos

 

LOUCURA SEGUNDO ZARATUSTRA

 

 

Voltei a perder-me.

Algo de mau, de terrível, cresce em mim.

Os seus tentáculos, sinto-os.

Começam a apanhar-me a boca do estômago, as entranhas, o peito,

Espalham-se aos membros desejosos de destruição

E finalmente a cabeça explode

Num feérico fogo de artifício multicor.

O nada, o sem-sentido, cresce como um polvo invisível

Dentro do meu corpo que me apanha, me arrasta,

Me joga na lama em que me afogo.

Perdi o centro e giro à volta de nada, no abismo.

Tenho necessidade de reencontrar aquela certeza que me orientava;

Aquela imunidade que me protegia;

Aquela indiferença que nunca consegui.

É necessário que eu não confie em ninguém.

Tenho vontade de mentir, de ser cruel, de ser mau, de ser cínico,

De rir, rir, rir, por trás de uma máscara,

Fazendo ecoar o meu riso por pinhais povoados de duendes

Que transformam o riso em música suave

Embaladora de meninos inocentes.

Cada vez que me perco,

Sinto crescer em mim esse desejo,

Esse terrível desejo de vingança,

De destruição,

De maldade.

Apetece-me ser soldado de Herodes,

Degolar crianças inocentes e devorar as suas cabeças,

Escorrendo sangue pelas barbas imundas.

Ele vem aí, o polvo monstruoso,

Aquele que me possui e me há-de libertar.

Um dia, passarei na rua como um vendaval terrível

Que ninguém vê e tudo destrói,

Anjo da morte,

Anjo exterminador,

Filho de Satanás.

O louco;

Aquele que o é por tanto não o ser;

Aquele que por tanto acreditar não confia nele próprio;

Aquele que por tanto amar se odeia a si próprio;

Aquele que por tanto lutar se destrói a si próprio;

Aquele que por tanto querer perdeu a vontade.

Aquele que se esgotou.

Não posso.

Construo um muro indestrutível à minha volta, de betão armado.

Hei-de conseguir cimentar o último buraco.

E quando o oxigénio não alimentar mais o meu espírito,

O meu corpo há-de explodir

Destruindo a obra divina.

O dia está para breve.

Preparai-vos para a grande explosão.

Para serdes esmagados nos tentáculos do polvo.

Estou louco e destruir-vos-ei a todos!

Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! ...

 

 

 

José Júlio Campos

 

IMPRESSIONISMO COM POUCOS VERBOS

 

 

 

Pois.

No escuro me derramo,

Tristeza e abandono,

Sol e sonho num deserto.

As palavras sem sentido,

As ideias sem palavras,

A vida morta numa terra fria.

A loucura próxima,

O arame,

A inconsciência,

O pesadelo do abismo.

Estar sem ser, viver sem nada, sangrar sem ferida.

Matéria fecunda, ideias vazias, memória inerte.

Um tronco velho, seco, mirrado.

A ausência permanente, redentora, silenciosa.

A dúvida, o nada.

Perder-se num mundo real, idêntico, unívoco.

A verdade e a mentira, a ilusão,

A certeza, a palavra e o silêncio.

A abstenção e a vontade,

O desejo e o sofrimento,

A indecisão permanente.

O sentimento e o medo.

Um palhaço ridículo, um actor falhado, pretensioso.

Uma comédia dramática, um riso chorado e sofrido,

Mas também cruel.

Uma ópera bufa, cortinas diáfanas,

Verdade ou mentira,

Comédia de costumes, de sentimentos, de ideias.

Máscaras.

Teatro.

Uma vontade forte de nada.

Uma fuga centrípta de tudo.

Ser sem pensar, sentir sem amar, querer sem desejar.

Não ser.

O silêncio.

A solidão assumida, a comunhão natural, o desinteresse absoluto.

A felicidade.

O medo da morte expelido, o medo da vida desprezado.

Querer vencer.

A vingança necessária, o ódio recalcado,

O cinismo de um riso irónico.

O apaziguamento de quem sabe.

A vida fora do tempo.

Desligado,

Duvidoso,

Indiferente,

Impotente,

Contraditório,

Maníaco,

Cínico,

Ridículo,

Sábio,

Iludido,

Pretensioso,

Imune,

Misericordioso,

Ignorante,

Calmo,

Vingativo,

Medroso,

Ardente,

Frio,

Misterioso,

Longínquo,

Impávido,

Forte.

Bom e mau.

 

 

 

José Júlio Campos

DEUS!

 

 

 

 

A dor mais amarga, o cálice, o fel.

A impossibilidade reservada aos fracos,

A morte e a vida e a falta de coragem…

A loucura desejada e temida.

A derrota constante e a dor mais amarga.

Ah! Meu Deus! A vontade que tenho de acreditar em ti…

Deus! Impossível regaço idêntico ao nada.

Deus! Criador de fracos com tanta força.

Deus! Pai de tanto paradoxo infeliz.

Deus! Revolto-me contra ti por me teres criado assim:

Vítima de mim e de ti e de mim …

Porque não fico louco de uma vez por todas?

Porque tenho de beber o cálice até à última gota?

Deus! Qual o pecado que me estigmatizou?

Deus! Porquê???!!! …

 

 

 

 

 

José Júlio Campos

CHOVE

 

 

Chove. O tempo parou. Olho para o relógio várias vezes por minuto e por isso o ponteiro está sempre no mesmo sítio. Sons e ruídos na rua, esporádicos e distantes. Sensação de monotonia e de insatisfação. O jornal que há pouco devorava, parece-me agora enfadonho e sou incapaz de o ler. Está à minha frente e olho para ele como a criança que pega num brinquedo, vê para que é que ele serve e o abandona, desinteressada. Aquela vontade de fazer coisas, de pegar num complicado Aristóteles ou num entediante Heidegger e deslindar os seus mistérios, descobrir neles variantes novas e inéditas, abandonam-me, neste instante. Com a vontade vai-se a inspiração.

Olho através da persiana da janela e vejo gotas de água que caem do beirado, espaçadamente, sobre um fundo cinzento recortado pelo verde escuro dos ciprestes. Esta paisagem transporta-se para mim e comungo dessa tristeza. Sinto-me deslizar no vazio do pensamento, um caminho escuro, sem paisagem nem horizonte. Apático e distante, nem o sonho me pode fazer vibrar. Que saudades do tempo em que construía vidas e situações imaginárias, plenas de perigos, aventuras e romance. Que saudades do tempo em que imaginava e me sentia feliz mesmo sabendo tratarem-se de quimeras. Hoje, quando o sonho parece confundir-se com a realidade, sinto que esta o manchou, o impediu de concretizar-se; e é por isso que o sonho me faz infeliz e eu não quero sonhar.

Nestes momentos, surge latente, em mim, uma pergunta venenosa, sórdida, cínica, mas pertinente: qual o sentido de tudo isto? A vida, a morte, o que são?

 Sinto que todas as hipóteses de acção comportam riscos e tenho medo. O sonho que se podia realizar esbarra no princípio da realidade. Uma realidade que é dura, cruel, dramática e cinzenta como este dia. Ai que saudades do tempo em que conseguia chorar lágrimas amargas e com elas regava as feridas que depois lambia. Ai que saudades daquele sabor a sal e daquela dor mitigada, daquela sensação agradável da dor que já passou.

Hoje, sofro pouco e sofro muito, porque já não sou capaz de sofrer a sério e já não tenho lágrimas para chorar. Para aqui me derramo neste papel branco que é o lenço onde seco o meu pranto inexistente.

E o tempo permanece parado. E chove.

 

 

José Júlio Campos

 

AVELEIRAS, 1989

 

 

Fim de tarde.

Crepúsculo.

Silêncio.

O céu carregado de nuvens mansas,

Manto plúmbeo de quente sossego.

Rumor de falas espaçadas,

Na calçada, arrastados passos,

Balidos tristes de ovelhas e suas crias.

Mas que silêncio se abateu

Sobre esta aldeia esquecida,

Aninhada, satisfeita,

No colo de um pequeno monte!

Donde lhe virá esta paz?

Que desígnio lhe concede este isolamento?

As duas tílias, no largo,

Dormem um sono de criança saudável.

A própria noite desce com brandura

Não vá perturbar o silêncio

Ao cobrir tão doce pacatez.

Um perfume de lenha queimada,

Nostálgica lembrança de outros crepúsculos,

Passa disfarçado no canto brioso de um galo.

A realidade solidificou neste silêncio.

É inevitável sentir os seus contornos.

 

 

 

 

 

 

José Júlio Campos