UM
GRANDE ZÉ PÉ-DE-VENTO
O
meu amigo Zé Pé-de-Vento resolveu, naquele dia, fazer um grande.
Passou
pelo supermercado e começou pelas melancias. Estas começaram a voar e passaram
pelo caixeiro sem lhe passarem cartucho. Os cartuchos, habituados a ser usados
como embrulho na venda de figos-secos, ficaram aborrecidíssimos com o facto e
resolveram apelar para o MEC (Ministério dos Embrulhos Cornudos). Dirigiram-se,
em cartucho, ao dito Ministério, manifestando-se pela rua, entoando o
hit-parade “Não queremos a droga”. Os figos-secos é que também não gostaram
nada do comportamento dos cartuchos e resolveram acompanhá-los na sua
manifestação, para se queixarem, imaginem, dos próprios cartuchos que,
alegadamente, ao saírem do supermercado sem dizerem “água vai” os deixaram nas
“ruas da amargura”. Estas, porém, devido a rixas antigas, não gostaram nada do
facto, pois, mais uma vez, os figos-secos iriam conspurcar a beleza dos seus
paralelos. E resolveram, elas próprias, boicotar a manifestação abrindo grandes
brechas, onde se embrulhavam cartuchos, figos-secos, melancias e, é claro,
água. Como sabemos, a água é uma coisa que só aparece quando não é precisa,
quer seja a da chuva, quer a das fontes. E foi por isso que, devido ao facto de
os cartuchos terem saído do supermercado sem dizerem “água vai”, a água foi.
Puro espírito de contradição. Por acaso andava por ali uma (sim, uma
contradição, nunca viram?!) que resolveu, também, manifestar-se devido ao seu
próprio espírito. E estes também; os espíritos aproveitaram a oportunidade para
se misturarem com as coisas e se divertirem à custa delas: mordiam os
figos-secos, jogavam à bola com as melancias, escarravam dentro dos cartuchos
e, com a água, lavavam as partes fracas, imaginem. Quanto à contradição, os
espíritos não lhe fizeram nada, só para a chatearem. É a coisa pior que se pode
fazer a uma contradição. Os espíritos foram mesmo maldosos e, quando chegaram
ao MEC, arrancaram os ditos ao Ministro e enfiaram-nos nos outros embrulhos.
Ficou o Ministério sem razão de ser e sem finalidade.
Entretanto,
dentro do supermercado, o forrobodó era completo e, aqui e além, pouco digno de
pessoas decentes, nada aconselhável a pessoas impressionáveis.
As
rolhas bebiam todo o vinho das garrafas que tapavam e, completamente embriagadas,
enfiavam-se, indiscriminadamente, na vagina das senhoras e no cu dos
cavalheiros que a essa hora faziam as suas compras. Simultaneamente,
desenrolavam-se cenas de pancadaria de criar bicho entre as rolhas, as
cenouras, as bananas e outros objectos fálicos, todos eles desejosos de ocupar
um lugar ao sol. Um lugar ao sol procurava, também, toda a outra fruta, saudosa
dos tempos em que jazia e crescia nas suas plantas natais. E, assim, iam-se
precipitando para a rua, sem atenderem a qualquer ordem, os alhos encavalitados
nas maçãs, as peras sugando marmelos que se queixavam com gritinhos histéricos,
as cebolas e os morangos agarradinhos num furioso acesso de amor pouco
platónico. Entretanto, os detergentes derramavam-se pelas cabeças dos clientes
que eram esfregadas por vassouras de piaçaba de todos os tamanhos cujos cabos
se esgrimiam em lutas medonhas.
Alertado
pela chinfrineira desta babilónia e por um tomate que, fugindo da lascívia
concupiscente de umas luvas de borracha, lhe acertara inadvertidamente no nariz
pedindo imensa desculpa ao mesmo, um transeunte anónimo alertou as autoridades.
Imediatamente,
foram deslocadas para o local todas as forças vivas e mortas, armadas e
desarmadas, de botas, de carro, de jipe, de ambulância, a cavalo ou de mota que
a edilidade possuía. Ao chegarem ao local, era tal a confusão que apenas meia
dúzia de polícias conseguiu, a custo, entrar no supermercado. Foi o suficiente,
no entanto, para que a pândega se multiplicasse proporcionalmente ao número de
polícias entrados. Em cada defensor da ordem e da lei que entrava,
imediatamente, o bastão lhe fugia do devido local e, depois de uma rápida
inspecção à ocorrência, procurava, também, um sítio onde pudesse satisfazer
ancestrais desejos. Ora, como o único local côncavo, à altura disponível, era o
ânus dos agentes, foi para lá que eles se dirigiram, sem se darem sequer ao
trabalho (era o mínimo que se lhes exigia) de procurarem aquele que diariamente
se bamboleava a seu lado em sã e alegre concorrência. Podemos acrescentar, no
entanto, que, aquando do julgamento mais tarde realizado, esta atitude dos
bastões teve como atenuante a confusão existente no infeliz momento e é
elucidativo, sobre o assunto, o diálogo travado no tribunal. O advogado de
acusação perorava acerbamente que “o bastão deve meter-se no cu do próprio
dono”, enquanto o advogado de defesa se estribava no aforisma de que “em tempo
de guerra não se limpam armas”. O juiz aceitou os argumentos da defesa,
considerando que a situação vivida podia ser considerada tempo de guerra e
louvou a perspicácia do advogado. Mandou em paz os bastões, mas aconselhou-os a
que, sempre que possível, seguissem à risca o argumento da acusação para evitarem
mais situações desagradáveis; não era bonito, que lhe desculpassem a ingénua e
infeliz comparação, meter o bastão em cus alheios, tal como quem mete o nariz
onde não é chamado. E mais não disse.
Voltando,
no entanto, à vaca fria, salvo seja, que é como quem diz, voltando aos
acontecimentos fervilhantes que estávamos a descrever, a confusão, fora do
local, era indescritível e é por isso mesmo, e por uma questão de coerência e
de pudor, que nos abstemos de a descrever. Acrescentaremos, apenas, para levantar
o véu à imaginação do leitor, que, desde os polvos até aos bonecos articulados
que havia no supermercado, todos tinham saído para a rua e se guerreavam,
utilizando todas as viaturas da polícia (até cavalos), apenas com o infantil
intuito de provar qual deles era o mais digno herdeiro de Juan Manuel Fangio.
Foi, até, ali, naquele lugar, momento e circunstância que, pela primeira vez,
foi proferida a expressão “estar armado em Fangio”. Durante anos, discutiu-se,
apaixonadamente, em toda a cidade, desde a tasca do Pedrado até à Faculdade da
Dificuldade, sobre a identidade do autor de tão gracioso e oportuno dito. O
Miraculado, assim chamado por ter sido vítima da bondade da Senhora dos
Aflitos, (havia quem garantisse que o autor do milagre tinha sido o São
Gregório, o que mais uma vez atesta a tendência inata para a dúvida e a
discussão entre os indígenas desta localidade) que, repentinamente, (também
nisto as opiniões vão desde os poucos segundos até às três horas e mais, o que
prova, além do já provado, que Kant não tinha razão quando afirmava que todo o
homem, por natureza, trazia na cabeça um metro e um relógio), o livrara de uma
monumental bebedeira de três dias, (aqui ninguém duvidava, muito embora alguns
intelectuais e artistas lá do sítio hesitassem quanto à monumentalidade da
borracheira), no momento em que, ao entrar em casa, deparou com a sogra em
carne e osso, qual bispo da Inquisição ou Senhora dos Aflitos (seria, aliás,
devido a essas comparações possíveis com a severa senhora sogra do Miraculado
que os debates, durante um ano, assentaram, exclusivamente, sobre a identidade
da aparição que, indiscutivelmente, para o sujeito desta enorme frase que ainda
não terminou, era a sogra e por isso invocou São Gregório, tendo-lhe valido, na
circunstância, é a opinião da maioria, a Senhora dos Aflitos), o Miraculado,
dizíamos, afirmava, a pés juntos, ter ouvido a expressão em causa da boquinha
de um Menino Jesus de barro, no momento em que disputava, com um porquinho
mealheiro, o lugar ao volante de um jipe da PM. Convenhamos que, apesar de vir
a opinião da boca de tão suspeito autor, ela não deixa de ter a sua lógica,
pois um dito tão jocoso vem mesmo a calhar na boca de tão esperto infante. Foi
por isso que, imediatamente após ter botado faladura na tasca do Pedrado, o
Miraculado e a sua opinião passaram a ser defendidos e admirados por todo o exército
religioso da cidade. Desde o cura até ao chefe da irmandade, passando pela Dona
Sameirinho, capitã da “intrépida legião de Maria”, como ela chamava ao grupo de
duas dezenas de beatas que todos os meses de maio lamuriavam a Salve Regina
atrás dela, passaram a defender, com paixão, a teoria do Miraculado e
introduziram, mesmo, na ladainha, apesar de o cura não ouvir isso com bons
ouvidos, mais duas jaculatórias, a saber: “Mãe do Divino Autor da Graça” e
“Salvadora do Miraculado”.
Coube
a outra opinião mais disputada e defendida a uma ilustre catedrática da já
referida Faculdade, regente da cadeira de Semiótica de Máquinas, cuja afirmava
e provava, por a mais b e x vezes y, que o autor do gracioso dito tinha sido um
polvo. “Um polvo?!...”, gozavam os
detractores. “Sim, senhores; um polvo.”,
retorquia a dita senhora que baseava experiencialmente a sua teoria.
Efectivamente, a senhora encontrava-se, à data de tão marcante acontecimento
para a memória dos cidadãos, dentro do supermercado. E, no preciso momento em
que transpunha a saída, com uma enorme banana semi-cravada na vagina e a saia
completamente levantada, mais parecendo uma dama de chicote ou um escocês de
pau feito, vira, não tinha a menor dúvida apesar do seu cartesianismo, um
polvo, ao volante de um carro da polícia, que dizia, revirando os olhinhos e
tremelicando os tentáculos: “Agora, vou
armar-me em Fangio!”. E, àqueles que objectavam com o facto de não falarem
os polvos, ela contra argumentava (era aqui que entrava a semiótica,
provavelmente), que se o homem veio do peixe, como diziam os antigos, entre os
quais Anaximandro, (e a simples menção deste nome levantava logo dúvidas nos
espíritos mais ingénuos que não acreditavam poder ter existido gente, por mais
sábia, com tal apelativo), então, o gérmen da linguagem já estaria nesses
peixes. O polvo, como parente afastado, mas habituado a conviver com eles,
tinha aproveitado o estado de excepção do momento para fazer vir ao de cima
todas as suas potencialidades culturais e linguísticas.
Todos
os intelectuais de esquerda, comunistas, sindicalistas e até, mesmo,
anarquistas aproveitaram a teoria para entrar em guerra aberta com a falange
cristã e defendiam, com a maior erudição, aquilo que, entre eles, secretamente,
consideravam ser o evolucionismo e o materialismo histórico presentes em tão
douta opinião.
A
discussão generalizou-se, as opiniões entrincheiraram-se e, mais de uma vez,
falou-se na eminência de uma guerra civil. Salvou a situação o proverbial bom
senso do meu amigo Zé Pé-de-Vento que, não tomando partido por nenhuma das
facções, ia ganhando adeptos para a sua teoria: “ao Menino Jesus, o que é do
Menino Jesus e ao polvo o que é do polvo.”
José
Júlio Campos
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