terça-feira, 25 de outubro de 2016

TRATAMENTO CHICLETE

Além dos três poderes existentes nas sociedades contemporâneas, a comunicação social, considerada como o “quarto poder”, tem vindo a assumir-se, de facto, como o primeiro. Cada vez mais, é a agenda mediática que determina a agenda social e política e não o contrário. Por isso, compreender o mundo em que vivemos exige que tenhamos um olhar crítico sobre a sua mediatização, seja por que meio for: rádio, jornais, televisão, internet, etc. Os acontecimentos que, a cada minuto, se sucedem por esse mundo fora, entram-nos pela casa dentro sem pedir licença. Alguém, por nós, se encarrega de selecionar uma parcela ínfima desses acontecimentos para nos entreter e nos dar a ilusão de um “aggiornamento” permanente, quando, na realidade, aquilo que nos é dado visa, apenas, formatar mentes e comportamentos, mediante a criação dos famosos reflexos condicionados, descobertos por Pavlov há mais de cem anos. Duas finalidades funcionam como força motivadora desta forma de atuar do império mediático, quase sempre sem rosto, mas totalmente controlado por indivíduos reais e pouco escrupulosos: o lucro económico resultante das audiências e da publicidade, e as vantagens económicas resultantes da manipulação ideológica da consciência política dos cidadãos.
Na voragem com que a comunicação social ataca a realidade, os acontecimentos não valem por si mesmos, mas apenas na medida e na forma como são mediatizados, ou seja, a sua importância é determinada, quase em exclusivo, por essa exposição mediática. Só existe o que aparece nas pantalhas, nas parangonas, no éter ou na internet.
A guerra pelas audiências leva a um tratamento exaustivo, tantas vezes exasperante, dos acontecimentos mediatizados, explorando, até à sordidez, os desejos e sentimentos mais profundos e inconscientes constituintes da estrutura psíquica do ser humano. Alguma comunicação social, chamada “tablóide”, especializou-se neste tipo de informação (?) e assistimos, hoje, a uma tabloidização da generalidade dos media, como, lamentavelmente, está a acontecer na televisão em Portugal. Essa contaminação nivelou por baixo a qualidade da informação, mesmo em órgãos de comunicação supostamente sérios e descambou naquilo que podemos chamar de “tratamento chiclete” dos acontecimentos noticiados: mastigam, mastigam, nos instantes iniciais, enquanto há açúcar; continuam a mastigar, interminavelmente, mesmo quando já é só borracha e não sabe a nada; lançam-na ao lixo e esquecem-na, quando descobrem outra a que possam dar o mesmo tratamento. Os exemplos deste processo sucedem-se a um ritmo alucinante. Referirei, apenas, alguns que, por uma questão de (bom) gosto, não são do género “faca e alguidar”. Um deles é a questão das offshores. Lembram-se? Durante um mês não se falou doutra coisa. O filão foi explorado por todos os media como se da descoberta da pólvora se tratasse. Os políticos de esquerda, alegando que os paraísos fiscais apenas servem fins espúrios, ilícitos e, muitas vezes, ilegais, como sejam fugir aos impostos, lavar dinheiro sujo ou pagar favores corruptos, diabolizaram-nos e clamaram pela sua abolição; os de direita, com maior ou menor convicção, lá foram defendendo que essas offshores têm as mesmas funções que outras entidades financeiras existentes em estados “normais”, por isso não se justifica a sua abolição. (Só não conseguiram explicar porque é que, se assim é, não funcionam nos mesmos moldes, nomeadamente no que respeita a sigilo e transparência). Os comentadores, do alto da sua jactância, botaram as habituais sentenças, no género “sou dessa opinião e da contrária se for preciso”! Passados três meses, o assunto está morto e enterrado, tanto na comunicação social como na política. Outro caso é o “brexit”. Afinal, ainda vai acontecer, de acordo com a vontade expressa pela maioria dos ingleses, ou vai ser esquecido, como alguns vaticinaram? Políticos e comunicação social (pelo menos a portuguesa) já esqueceram o assunto. Finalmente, o tema dos incêndios, no nosso país. Mais um verão quente, como outros no passado. Mais uma quantidade de incêndios e de área ardida a bater recordes como também já tinha acontecido noutros verões. Mais uma vez as televisões, animadas, possivelmente, pelo mesmo instinto voyeurista daqueles incendiários que o são porque gostam de ver arder, a fazerem diretos, dia e noite, do fogo a “lavrar” e das pessoas em “pânico”. Mais uma vez, os políticos, neste caso afinados pelo mesmo diapasão, entoaram, em coro, o habitual e estafado refrão de outras ocasiões: “desta vez é que é”, “a melhor forma de combater os incêndios é fazer a sua prevenção”, “temos de começar hoje a fazer o ordenamento florestal”. Claro que, quando caírem as primeiras chuvas do outono, tanto a comunicação social como os políticos já terão esquecido os incêndios e as pessoas. Haverá, nessa altura, outras chicletes para mastigar. Quiçá uma cheia, ou um atentado.
E é assim que a realidade, cada vez mais, não é o que é, mas aquilo que a comunicação social a faz parecer. Importa ser capaz de a ver para além dessa aparência. Sem maquilhagem. Mas não é fácil.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

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