TRATAMENTO CHICLETE
Além
dos três poderes existentes nas sociedades contemporâneas, a comunicação
social, considerada como o “quarto poder”, tem vindo a assumir-se, de facto,
como o primeiro. Cada vez mais, é a agenda mediática que determina a agenda
social e política e não o contrário. Por isso, compreender o mundo em que
vivemos exige que tenhamos um olhar crítico sobre a sua mediatização, seja por
que meio for: rádio, jornais, televisão, internet, etc. Os acontecimentos que,
a cada minuto, se sucedem por esse mundo fora, entram-nos pela casa dentro sem
pedir licença. Alguém, por nós, se encarrega de selecionar uma parcela ínfima
desses acontecimentos para nos entreter e nos dar a ilusão de um
“aggiornamento” permanente, quando, na realidade, aquilo que nos é dado visa,
apenas, formatar mentes e comportamentos, mediante a criação dos famosos
reflexos condicionados, descobertos por Pavlov há mais de cem anos. Duas
finalidades funcionam como força motivadora desta forma de atuar do império
mediático, quase sempre sem rosto, mas totalmente controlado por indivíduos
reais e pouco escrupulosos: o lucro económico resultante das audiências e da
publicidade, e as vantagens económicas resultantes da manipulação ideológica da
consciência política dos cidadãos.
Na
voragem com que a comunicação social ataca a realidade, os acontecimentos não
valem por si mesmos, mas apenas na medida e na forma como são mediatizados, ou
seja, a sua importância é determinada, quase em exclusivo, por essa exposição
mediática. Só existe o que aparece nas pantalhas, nas parangonas, no éter ou na
internet.
A
guerra pelas audiências leva a um tratamento exaustivo, tantas vezes
exasperante, dos acontecimentos mediatizados, explorando, até à sordidez, os
desejos e sentimentos mais profundos e inconscientes constituintes da estrutura
psíquica do ser humano. Alguma comunicação social, chamada “tablóide”,
especializou-se neste tipo de informação (?) e assistimos, hoje, a uma
tabloidização da generalidade dos media, como, lamentavelmente, está a acontecer
na televisão em Portugal. Essa contaminação nivelou por baixo a qualidade da
informação, mesmo em órgãos de comunicação supostamente sérios e descambou
naquilo que podemos chamar de “tratamento chiclete” dos acontecimentos
noticiados: mastigam, mastigam, nos instantes iniciais, enquanto há açúcar;
continuam a mastigar, interminavelmente, mesmo quando já é só borracha e não
sabe a nada; lançam-na ao lixo e esquecem-na, quando descobrem outra a que
possam dar o mesmo tratamento. Os exemplos deste processo sucedem-se a um ritmo
alucinante. Referirei, apenas, alguns que, por uma questão de (bom) gosto, não
são do género “faca e alguidar”. Um deles é a questão das offshores.
Lembram-se? Durante um mês não se falou doutra coisa. O filão foi explorado por
todos os media como se da descoberta da pólvora se tratasse. Os políticos de
esquerda, alegando que os paraísos fiscais apenas servem fins espúrios,
ilícitos e, muitas vezes, ilegais, como sejam fugir aos impostos, lavar
dinheiro sujo ou pagar favores corruptos, diabolizaram-nos e clamaram pela sua
abolição; os de direita, com maior ou menor convicção, lá foram defendendo que
essas offshores têm as mesmas funções que outras entidades financeiras
existentes em estados “normais”, por isso não se justifica a sua abolição. (Só
não conseguiram explicar porque é que, se assim é, não funcionam nos mesmos
moldes, nomeadamente no que respeita a sigilo e transparência). Os
comentadores, do alto da sua jactância, botaram as habituais sentenças, no
género “sou dessa opinião e da contrária se for preciso”! Passados três meses,
o assunto está morto e enterrado, tanto na comunicação social como na política.
Outro caso é o “brexit”. Afinal, ainda vai acontecer, de acordo com a vontade
expressa pela maioria dos ingleses, ou vai ser esquecido, como alguns
vaticinaram? Políticos e comunicação social (pelo menos a portuguesa) já
esqueceram o assunto. Finalmente, o tema dos incêndios, no nosso país. Mais um
verão quente, como outros no passado. Mais uma quantidade de incêndios e de área
ardida a bater recordes como também já tinha acontecido noutros verões. Mais
uma vez as televisões, animadas, possivelmente, pelo mesmo instinto voyeurista
daqueles incendiários que o são porque gostam de ver arder, a fazerem diretos,
dia e noite, do fogo a “lavrar” e das pessoas em “pânico”. Mais uma vez, os
políticos, neste caso afinados pelo mesmo diapasão, entoaram, em coro, o
habitual e estafado refrão de outras ocasiões: “desta vez é que é”, “a melhor
forma de combater os incêndios é fazer a sua prevenção”, “temos de começar hoje
a fazer o ordenamento florestal”. Claro que, quando caírem as primeiras chuvas
do outono, tanto a comunicação social como os políticos já terão esquecido os
incêndios e as pessoas. Haverá, nessa altura, outras chicletes para mastigar.
Quiçá uma cheia, ou um atentado.
E
é assim que a realidade, cada vez mais, não é o que é, mas aquilo que a
comunicação social a faz parecer. Importa ser capaz de a ver para além dessa
aparência. Sem maquilhagem. Mas não é fácil.
José
Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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