MAIS UM PEDREGULHO NO
SAPATO
Neste natal de 2015, em vez da tradicional
prendinha no sapato, os portugueses foram brindados com um pedregulho chamado
BANIF, numa bota cada vez mais de sete léguas que os banqueiros nos começaram a
calçar, há sete anos, e que já vai em cerca de catorze mil milhões de euros,
entre BPN (5,5), BPP (0,5), BES (5) e BANIF (3).
Perante esta triste realidade, importa, em primeiro
lugar, saber como foi possível chegar a uma situação em que o sistema bancário
internacional parece um castelo de cartas pronto a ruir ao mais pequeno sopro.
Sendo as respostas, seguramente, muito complexas, há duas vertentes que não
podem ser ignoradas: o predomínio do capitalismo financeiro na economia mundial
e o controlo da banca e dos mercados financeiros por redes mafiosas mais ou
menos organizadas, de banqueiros, empresários e políticos. O capitalismo
financeiro tem como objetivo multiplicar o capital sem que este seja
diretamente investido numa atividade económica produtiva. Em vez disso, aplicam-se
os capitais na agiotagem bancária, nos mercados de divisas e nas bolsas de
valores. Correndo bem, essas aplicações permitem retornos chorudos sem “sujar”
as mãos a construir, a produzir, a transformar, a gerir recursos humanos e a
gerar mais-valias de forma sustentada. No entanto, à medida que essa “riqueza
fictícia” deixa de ter correspondência na economia real acumulam-se as chamadas
imparidades, criando uma espécie de “bolhas” que, ao rebentarem, desvendam a
artificialidade dessa riqueza, introduzindo crises na economia mundial, tanto
mais graves quanto mais globalizada esta estiver. Este tipo de crise, cujo
primeiro grande exemplo ocorreu em 1929, na Bolsa de Valores de Nova Iorque,
constitui uma espécie de vírus cíclico do capitalismo, tal como foi explicado
por Karl Marx.
Em 2008, rebentaram algumas dessas “bolhas” nos
EUA, na Islândia, na Irlanda, na Espanha e em outros países europeus, criando
uma crise que se foi propagando à escala mundial, estando já as ondas de choque
a fazer-se sentir nas economias emergentes da China e do Brasil, por exemplo.
Em Portugal, os lucros exagerados da banca na primeira década deste século
criaram a ilusão da riqueza fácil e estimularam a ganância de banqueiros,
empresários e políticos. Cá, como noutros países, criaram-se autênticas redes
mafiosas, com o objetivo de explorarem esta espécie de “galinha dos ovos de
ouro”. Distribuíram-se cartões de crédito a esmo, concederam-se créditos a
torto e a direito, metendo-os pelos olhos mesmo de quem não tinha onde cair
morto, proliferaram empresas fictícias para encapotarem negociatas que visavam,
apenas, obter crédito bancário inflacionado e com longos períodos de carência,
que faliam passados esses períodos, revertendo para o banco um património com
muito menos valor do que a totalidade do crédito concedido; distribuíram-se
dividendos correspondentes a juros potenciais que nunca vieram a ser recebidos,
descapitalizando as instituições bancárias; fez-se da banca uma espécie de
“pirâmide” em que se compravam ações de um banco com o crédito concedido por
esse mesmo banco, revertendo o lucro para o devedor e o prejuízo, por não haver
garantias, para o credor; etc, etc. Neste regabofe, banquetearam-se empresários
políticos, políticos empresários, banqueiros e administradores bancários, entre
outros corruptos de várias proveniências. Entretanto, enquanto o capital assim
surripiado dos bancos ia sendo posto “a salvo” em paraísos fiscais como a Suíça
ou as Ilhas Caimão, a dita “galinha” acumulava prejuízos e definhava, apenas se
mantendo viva à custa do “milho” injetado pelo Estado.
E aqui, entra em cena outro elemento desta
complicada equação: a conivência do poder político, verificada tanto na
impunidade generalizada de que goza quase toda essa corja, como na diligência
com que se vão tapando os “buracos” criados, substituindo as “cartas” roubadas
e mantendo o “castelo” num insustentável equilíbrio instável. No que se refere
à impunidade, ela é, por demais, evidente: contam-se, pelos dedos de uma só
mão, os criminosos que roubam milhões e são condenados pela justiça, enquanto
sobram as condenações de “pilha-galinhas” que roubam uns tostões, muitas vezes
para matar a fome. Justifica-se este facto com a falta de meios da justiça e a
complexidade deste tipo de crimes, mas a verdadeira razão é a falta de vontade
dos governantes, devido à promiscuidade e à permeabilidade entre o poder
político e o poder financeiro. Já no que se refere à opção de salvar os bancos
em vez de os deixar falir, ela é sustentada com os argumentos da “estabilidade”
e da “confiança”, que se constituíram, precisamente, como o “seguro de vida” do
capitalismo financeiro que é a imagem de marca dos atuais regimes neoliberais. Tem
sido em nome da estabilidade financeira e da confiança dos mercados que os
governos, consecutivamente, optam por tapar os buracos criados pelos corruptos
gestores da banca, em vez de os deixar cair como seria natural e, seguramente,
mais profilático. A injeção de capitais do Estado na banca falida, associada à
impunidade referida acaba por funcionar como um prémio e um estímulo à
proliferação deste tipo de crime. Alegam os decisores políticos com o “risco
sistémico”, uma espécie de efeito dominó que poderia fazer ruir o sistema
financeiro. Acontece que esse risco só existe porque o sistema assenta na
especulação e não na economia real, daí que só funcione se houver a tal
estabilidade e a tal confiança, sem as quais tudo se pode desmoronar. Em vez de
venderem estes argumentos até à exaustão, melhor andariam os políticos se
expurgassem o sistema financeiro da toxicidade dos seus produtos e respetivos
agentes promotores, recuperando a riqueza extorquida ao Estado e aos cidadãos.
Sim, porque a destruição do Estado Social, consubstanciada no corte de
salários, de pensões, do direito à saúde ou à educação foi uma consequência
direta e imediata da opção dos governos em canalizar os impostos dos cidadãos
para resgatar bancos falidos por especuladores e vendê-los, por tuta e meia, a
outros especuladores. Esta opção tem sido sustentada com outros dois argumentos:
o de que “andámos a viver acima das possibilidades” e o de que “não há
alternativa”. O primeiro serve para criar no cidadão comum um sentimento de
culpabilidade, de má consciência, que lhe permite achar natural ter de ser ele,
a pagar a crise, aceitando, pacificamente, sem revolta nem sentido crítico,
todas as medidas penalizadoras que lhe são infligidas. O segundo argumento visa
criar na opinião pública a ideia de que uma alternativa a este sistema político
e económico será o caos. Estes argumentos, disseminados até à náusea por
políticos e comentadores do sistema, encontraram, na falta de conhecimento e de
sentido crítico da generalidade da população, terreno fértil para a sua
proliferação. Só assim se explica que a maioria dos eleitores passe a vida a
vituperar e a maldizer os ladrões que nos desgovernam, mas, no momento de pôr a
“cruzinha” e poder correr com eles, a “Tina” (there is no alternative) e o
sentimento de culpa guiam sempre a mãozinha no sentido de voltarem a escolher
esses mesmo ladrões. Sim, porque, como diz o povo, “tão ladrão é o que vai à
vinha, como o que fica à portelinha”!
José Júlio
Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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