terça-feira, 25 de outubro de 2016

MAIS UM PEDREGULHO NO SAPATO

Neste natal de 2015, em vez da tradicional prendinha no sapato, os portugueses foram brindados com um pedregulho chamado BANIF, numa bota cada vez mais de sete léguas que os banqueiros nos começaram a calçar, há sete anos, e que já vai em cerca de catorze mil milhões de euros, entre BPN (5,5), BPP (0,5), BES (5) e BANIF (3).
Perante esta triste realidade, importa, em primeiro lugar, saber como foi possível chegar a uma situação em que o sistema bancário internacional parece um castelo de cartas pronto a ruir ao mais pequeno sopro. Sendo as respostas, seguramente, muito complexas, há duas vertentes que não podem ser ignoradas: o predomínio do capitalismo financeiro na economia mundial e o controlo da banca e dos mercados financeiros por redes mafiosas mais ou menos organizadas, de banqueiros, empresários e políticos. O capitalismo financeiro tem como objetivo multiplicar o capital sem que este seja diretamente investido numa atividade económica produtiva. Em vez disso, aplicam-se os capitais na agiotagem bancária, nos mercados de divisas e nas bolsas de valores. Correndo bem, essas aplicações permitem retornos chorudos sem “sujar” as mãos a construir, a produzir, a transformar, a gerir recursos humanos e a gerar mais-valias de forma sustentada. No entanto, à medida que essa “riqueza fictícia” deixa de ter correspondência na economia real acumulam-se as chamadas imparidades, criando uma espécie de “bolhas” que, ao rebentarem, desvendam a artificialidade dessa riqueza, introduzindo crises na economia mundial, tanto mais graves quanto mais globalizada esta estiver. Este tipo de crise, cujo primeiro grande exemplo ocorreu em 1929, na Bolsa de Valores de Nova Iorque, constitui uma espécie de vírus cíclico do capitalismo, tal como foi explicado por Karl Marx.
Em 2008, rebentaram algumas dessas “bolhas” nos EUA, na Islândia, na Irlanda, na Espanha e em outros países europeus, criando uma crise que se foi propagando à escala mundial, estando já as ondas de choque a fazer-se sentir nas economias emergentes da China e do Brasil, por exemplo. Em Portugal, os lucros exagerados da banca na primeira década deste século criaram a ilusão da riqueza fácil e estimularam a ganância de banqueiros, empresários e políticos. Cá, como noutros países, criaram-se autênticas redes mafiosas, com o objetivo de explorarem esta espécie de “galinha dos ovos de ouro”. Distribuíram-se cartões de crédito a esmo, concederam-se créditos a torto e a direito, metendo-os pelos olhos mesmo de quem não tinha onde cair morto, proliferaram empresas fictícias para encapotarem negociatas que visavam, apenas, obter crédito bancário inflacionado e com longos períodos de carência, que faliam passados esses períodos, revertendo para o banco um património com muito menos valor do que a totalidade do crédito concedido; distribuíram-se dividendos correspondentes a juros potenciais que nunca vieram a ser recebidos, descapitalizando as instituições bancárias; fez-se da banca uma espécie de “pirâmide” em que se compravam ações de um banco com o crédito concedido por esse mesmo banco, revertendo o lucro para o devedor e o prejuízo, por não haver garantias, para o credor; etc, etc. Neste regabofe, banquetearam-se empresários políticos, políticos empresários, banqueiros e administradores bancários, entre outros corruptos de várias proveniências. Entretanto, enquanto o capital assim surripiado dos bancos ia sendo posto “a salvo” em paraísos fiscais como a Suíça ou as Ilhas Caimão, a dita “galinha” acumulava prejuízos e definhava, apenas se mantendo viva à custa do “milho” injetado pelo Estado.
E aqui, entra em cena outro elemento desta complicada equação: a conivência do poder político, verificada tanto na impunidade generalizada de que goza quase toda essa corja, como na diligência com que se vão tapando os “buracos” criados, substituindo as “cartas” roubadas e mantendo o “castelo” num insustentável equilíbrio instável. No que se refere à impunidade, ela é, por demais, evidente: contam-se, pelos dedos de uma só mão, os criminosos que roubam milhões e são condenados pela justiça, enquanto sobram as condenações de “pilha-galinhas” que roubam uns tostões, muitas vezes para matar a fome. Justifica-se este facto com a falta de meios da justiça e a complexidade deste tipo de crimes, mas a verdadeira razão é a falta de vontade dos governantes, devido à promiscuidade e à permeabilidade entre o poder político e o poder financeiro. Já no que se refere à opção de salvar os bancos em vez de os deixar falir, ela é sustentada com os argumentos da “estabilidade” e da “confiança”, que se constituíram, precisamente, como o “seguro de vida” do capitalismo financeiro que é a imagem de marca dos atuais regimes neoliberais. Tem sido em nome da estabilidade financeira e da confiança dos mercados que os governos, consecutivamente, optam por tapar os buracos criados pelos corruptos gestores da banca, em vez de os deixar cair como seria natural e, seguramente, mais profilático. A injeção de capitais do Estado na banca falida, associada à impunidade referida acaba por funcionar como um prémio e um estímulo à proliferação deste tipo de crime. Alegam os decisores políticos com o “risco sistémico”, uma espécie de efeito dominó que poderia fazer ruir o sistema financeiro. Acontece que esse risco só existe porque o sistema assenta na especulação e não na economia real, daí que só funcione se houver a tal estabilidade e a tal confiança, sem as quais tudo se pode desmoronar. Em vez de venderem estes argumentos até à exaustão, melhor andariam os políticos se expurgassem o sistema financeiro da toxicidade dos seus produtos e respetivos agentes promotores, recuperando a riqueza extorquida ao Estado e aos cidadãos. Sim, porque a destruição do Estado Social, consubstanciada no corte de salários, de pensões, do direito à saúde ou à educação foi uma consequência direta e imediata da opção dos governos em canalizar os impostos dos cidadãos para resgatar bancos falidos por especuladores e vendê-los, por tuta e meia, a outros especuladores. Esta opção tem sido sustentada com outros dois argumentos: o de que “andámos a viver acima das possibilidades” e o de que “não há alternativa”. O primeiro serve para criar no cidadão comum um sentimento de culpabilidade, de má consciência, que lhe permite achar natural ter de ser ele, a pagar a crise, aceitando, pacificamente, sem revolta nem sentido crítico, todas as medidas penalizadoras que lhe são infligidas. O segundo argumento visa criar na opinião pública a ideia de que uma alternativa a este sistema político e económico será o caos. Estes argumentos, disseminados até à náusea por políticos e comentadores do sistema, encontraram, na falta de conhecimento e de sentido crítico da generalidade da população, terreno fértil para a sua proliferação. Só assim se explica que a maioria dos eleitores passe a vida a vituperar e a maldizer os ladrões que nos desgovernam, mas, no momento de pôr a “cruzinha” e poder correr com eles, a “Tina” (there is no alternative) e o sentimento de culpa guiam sempre a mãozinha no sentido de voltarem a escolher esses mesmo ladrões. Sim, porque, como diz o povo, “tão ladrão é o que vai à vinha, como o que fica à portelinha”!


 José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt



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