OS PASSOS PERDIDOS DE
COELHO
Finalmente, mais de quatro meses após as eleições e
quase dois desde o início de 2016, foi aprovado o Orçamento de Estado (OE) para
este ano. Este atraso deveu-se, em primeiro lugar, à “cavacada” de marcar as
eleições para outubro, com o mesquinho propósito de prolongar a estadia dos
seus amigos no governo, até ao limite do possível. Depois, o atraso
prolongou-se com a gestação de um governo que já estava morto antes de nascer.
Um autêntico aborto, gerado, mais uma vez, do casamento entre a mente tortuosa
de Cavaco e a obsessão pelo poder que corre nas veias de Passos Coelho. Aliás,
esta obsessão contribuiu, ainda, para dilatar o tempo da apresentação do
Orçamento, mesmo depois de o referido aborto ter caído com estrondo na Assembleia
da República e Cavaco, em desespero de causa, ter tido a peregrina ideia de
perder mais umas semanas a auscultar eminências pardas, antes de engolir o sapo
mais gordo da sua, felizmente, agonizante carreira política.
Passado à oposição, Passos começou, no minuto
seguinte, a pôr em prática a estratégia que acreditava levá-lo de regresso ao
poder. Gorada a tentativa de minar o imprescindível apoio do BE, PCP e Verdes
ao programa do novo governo, sustentado numa minoritária bancada socialista,
Coelho centrou toda a sua estratégia em torno do OE, visando atingir o seu objetivo
em três passos. O primeiro era criar todas as condições para que o governo não
conseguisse a aprovação do OE. Nesse sentido, como uma espécie de
primeiro-ministro no exílio, a que não faltou o pin na lapela e a acedência a
convite para inaugurar uma escola pública, passou a frequentar os corredores e
os gabinetes de Bruxelas, envenenando os tecnocratas usurpadores (sim, porque
não foram eleitos por ninguém) que ditam os destinos dos povos europeus, contra
o projeto de Orçamento, apresentado por Centeno para apreciação. Escusado será
dizer que se juntou a fome com a vontade de comer, pois o veneno que Passos
levou é o mesmo que alimenta os ditos usurpadores – o neo liberalismo mais radical,
cujo único imperativo político pode enunciar-se desta forma: “legisla tudo o
que contribua para aumentar o que já existe: a riqueza dos mais ricos e a
pobreza dos mais pobres”! Ou seja, uma espécie de princípio da estabilidade
acrescentada! Entretanto, por cá, tratou de mobilizar as tropas partidárias e
as milícias do circo mediático para uma guerra sem quartel contra o Orçamento,
em todos os palcos possíveis – naturalmente, no Parlamento, mas, sobretudo, nas
redes sociais, nos serviços noticiosos de rádios e televisões, nos jornais e em
pululantes programas de economistas e políticos comentadores; não houve
Carreira nenhum, nem Medina nem das Neves, que não fosse arregimentado para
esta guerra santa contra o Orçamento. Por cá, o objetivo era contaminar a
opinião pública, mesmo caindo no ridículo de o considerarem uma absoluta
desgraça para o país, por acabar com a austeridade, ao mesmo tempo que o
consideravam tão austero como se fosse obra de um hipotético governo da direita
“gold passaportas”. Em Bruxelas, Passos apostava tudo, manobrando para que a
União Europeia, como, aliás, veio a acontecer, obrigasse à introdução de mais
medidas de austeridade no OE, de modo a torná-lo insustentável e inaceitável
para os partidos da esquerda real, fazendo-lhes crer que, afinal, a austeridade
não tinha acabado e levando-os a votar contra.
O segundo passo resultaria inevitável, realizado o primeiro:
a não aprovação do OE levaria, com mais um empurrãozinho até o novo Presidente
ser empossado, à queda do governo. Dado este determinante passo, o seguinte
seria óbvio, até para um Marcelo em estado de graça, ainda muito distante dos
constrangimentos de uma reeleição: dissolução do Parlamento e convocação de
eleições antecipadas lá para maio ou junho.
O problema é que, ao invés da presunção de Passos
Coelho, ele não é a última sumidade da inteligência política. Quando tudo lhe
parecia correr pelo melhor na guerra da opinião pública, Costa e a esquerda
voltaram a dar-lhe uma “bandeira”, ao conseguirem os acordos necessários para a
aprovação do OE, por via da negociação e do diálogo (estratégias políticas que
Passos desdenha e não quer comprar!), tanto nos “passos perdidos” como no
hemiciclo da Assembleia da República, dando mais uma demonstração de que o
radicalismo de que são acusados pela direita (é mais fácil ver um argueiro no
olho do próximo do que uma trave no seu próprio olho!) não passam do que Passos
chamaria um “mito urbano”!
A aprovação do OE constituiu-se, pois, como um
passo importante na recuperação das condições de vida dos portugueses e no
aumento da credibilidade dos partidos que o aprovaram, ao passo que, para
Coelho, a estratégia falhou, os passos foram perdidos. Ou, como diriam os
romanos, “omnis perit labor” – todo o trabalho se perdeu!
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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