“PERDÃO,
PAIZINHO, NÃO ME SANCIONES!”
Enquanto membros da União Europeia, podemos queixar-nos de muita
coisa, menos da falta de espetáculo. Já os imperadores romanos usavam a
estratégia de distribuir pão e circo, para acalmar e entreter as hordas de miseráveis
que enxameavam Roma e, assim, evitar possíveis revoltas e ameaças ao poder da
classe dominante que eles representavam. O circo desse tempo era um espetáculo
violento, por vezes degradante, em que escravos gladiadores lutavam entre si,
ou contra animais ferozes, até à morte. Hoje, os espetáculos que nos são
regularmente proporcionados pela UE, também têm como objetivo manter-nos
anestesiados para os reais problemas que nos afetam, como a derrocada do
sistema financeiro, o regresso à escravatura nas relações laborais ou a procura
de formas eficazes e não violentas de combate ao terrorismo, mas desenrolam-se
de forma mais “soft”. Neste verão escaldante, tem-nos vindo a ser servida, em
episódios regulares, aquilo a que podemos chamar uma novela mexicana, com o
título “Perdão, paizinho, não me sanciones”, uma espécie de “remake”
cinematográfico do “Adeus, mãezinha, vou partir” que a nossa comunidade
emigrante viveu, em tons musicais, há umas décadas atrás. Na ficha técnica
desta novela, o realizador dá pelo estranho nome de Ecofin, com o alto
patrocínio do Partido Popular Europeu e dos países do norte da Europa que
seguem o “diktat” do senhor da cadeira de rodas alemão. A produção do
espetáculo, por sua vez, está a cargo, precisamente, deste “mestre” e dos seus
“bons alunos” Passos Coelho e Maria Luís. O enredo, como é típico das novelas
mexicanas, é foleiro e peganhento. A trama gira à volta de uma família,
composta por 27 ou 28 irmãos, filhos da mesma mãe, chamada Europa, mas de pais
diferentes, alguns incógnitos. O padrasto, que agora chefia a família com mãos
de ferro, chama-se Mercado Financeiro e raramente dá a cara; a mãe Europa, só
de ouvir o nome dele, treme. Os filhos, em virtude das paternidades variadas,
têm características diferentes: uns são altos e loiros, presumidos virtuosos do
trabalho e da produtividade e encarnam os valores do padrasto; outros são
baixos e morenos, com tendência para o folguedo, encarnando os valores dos
antepassados mediterrânicos da mãe. Os altos e loiros começaram por acusar os
morenos de serem preguiçosos e de quererem viver acima das suas possibilidades;
os morenos respondem que isso é só inveja, pois trabalham como os mouros, seus
antepassados. O ambiente degrada-se e a família tende a desagregar-se. O
padrasto toma o partido dos altos e loiros e quer obrigar alguns dos meninos
morenos a pagar, com língua de palmo, a ousadia de não seguirem à letra as
austeritárias regras por ele impostas. Um desses meninos, Portugal de seu nome,
chegado à idade de casar, decidiu romper com a noiva que lhe tinha sido
destinada pelo padrasto, chamada Direita, e preferiu amancebar-se com a volúvel
Esquerda, filha do maior adversário do padrasto, que atende por Estado Social.
A partir daí, tem valido tudo, como nas novelas mexicanas. A noiva traída
uniu-se ao padrasto para acabar com o romance entre Portugal e a Esquerda. O
padrasto, de modo a provocar uma crise dentro do casal, começou por advertir o
enteado degenerado de que não aprovaria o acordo de noivado, chamado Orçamento
de Estado para 2016, se não respeitasse as suas exigências. Frustrado esse
objetivo, deitou mão de outras armas. Ameaçou que o obrigaria a pagar uma multa
retroativa pelos gastos excessivos da noiva anterior. Aí, a noiva anterior
sentiu-se na berlinda e atirou a responsabilidade para os excessos que viriam
do novo casamento, porque se ela continuasse como noiva, o padrasto não
aplicaria a multa. O noivo protestou que não fazia sentido ser castigado por
excessos que tinham sido protagonizados pela noiva anterior, conluiada com o
padrasto. Que já quase todos os outros irmãos tinham feito gastos excessivos e
não tinham sido castigados. Que a irmã França também não estava a cumprir as
regras e não ia ser castigada. “Porquê?”, perguntou. “Porque a França é a
França. E tu cala-te”, ouviu como resposta. E mais: “se não rompes esse noivado
com a Esquerda, não recebes mais mesada”. Falava dos cortes nos fundos
estruturais! Aí, a mãe Europa, normalmente muda e queda perante as
arbitrariedades do pai tirano, achou que talvez isto fosse muito injusto e
imerecido e começou a mexer uns cordelinhos para amansar a fera do padrasto.
Assim como quem não quer a coisa, começou a espalhar o boato de que se o filho
pedisse desculpa ao paizinho, se se humilhasse perante o Todo-Poderoso, talvez
a coisa não passasse de um castigozito simbólico, uma sanção zero. Enfim,
coisas de mãe dorida que sofre com os desmandos de um padrasto pérfido e
empedernido…
Resta saber como e quando vai acabar esta novela. Sabemos que a
vontade dos produtores, a empresa Schauble e Coelho Associados, é que, o mais
rápido possível, o noivo ceda à chantagem e rompa o noivado com a Esquerda, ou
esta não aguente a pressão e tire o tapete ao infeliz, e assim possa ser
reatado o noivado interrompido com a abandonada Direita. Mas será que a
Esquerda está disposta a engolir uns sapos para estragar o arranjinho dos
promotores desta novela? Que outras vigarices estará a cafageste da Direita
disposta a promover para criar mal-estar entre os noivos e provocar o
rompimento?
Não perca os próximos episódios desta picante novela mexicana. A coisa
promete!
José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com
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