terça-feira, 25 de outubro de 2016

“PERDÃO, PAIZINHO, NÃO ME SANCIONES!”

Enquanto membros da União Europeia, podemos queixar-nos de muita coisa, menos da falta de espetáculo. Já os imperadores romanos usavam a estratégia de distribuir pão e circo, para acalmar e entreter as hordas de miseráveis que enxameavam Roma e, assim, evitar possíveis revoltas e ameaças ao poder da classe dominante que eles representavam. O circo desse tempo era um espetáculo violento, por vezes degradante, em que escravos gladiadores lutavam entre si, ou contra animais ferozes, até à morte. Hoje, os espetáculos que nos são regularmente proporcionados pela UE, também têm como objetivo manter-nos anestesiados para os reais problemas que nos afetam, como a derrocada do sistema financeiro, o regresso à escravatura nas relações laborais ou a procura de formas eficazes e não violentas de combate ao terrorismo, mas desenrolam-se de forma mais “soft”. Neste verão escaldante, tem-nos vindo a ser servida, em episódios regulares, aquilo a que podemos chamar uma novela mexicana, com o título “Perdão, paizinho, não me sanciones”, uma espécie de “remake” cinematográfico do “Adeus, mãezinha, vou partir” que a nossa comunidade emigrante viveu, em tons musicais, há umas décadas atrás. Na ficha técnica desta novela, o realizador dá pelo estranho nome de Ecofin, com o alto patrocínio do Partido Popular Europeu e dos países do norte da Europa que seguem o “diktat” do senhor da cadeira de rodas alemão. A produção do espetáculo, por sua vez, está a cargo, precisamente, deste “mestre” e dos seus “bons alunos” Passos Coelho e Maria Luís. O enredo, como é típico das novelas mexicanas, é foleiro e peganhento. A trama gira à volta de uma família, composta por 27 ou 28 irmãos, filhos da mesma mãe, chamada Europa, mas de pais diferentes, alguns incógnitos. O padrasto, que agora chefia a família com mãos de ferro, chama-se Mercado Financeiro e raramente dá a cara; a mãe Europa, só de ouvir o nome dele, treme. Os filhos, em virtude das paternidades variadas, têm características diferentes: uns são altos e loiros, presumidos virtuosos do trabalho e da produtividade e encarnam os valores do padrasto; outros são baixos e morenos, com tendência para o folguedo, encarnando os valores dos antepassados mediterrânicos da mãe. Os altos e loiros começaram por acusar os morenos de serem preguiçosos e de quererem viver acima das suas possibilidades; os morenos respondem que isso é só inveja, pois trabalham como os mouros, seus antepassados. O ambiente degrada-se e a família tende a desagregar-se. O padrasto toma o partido dos altos e loiros e quer obrigar alguns dos meninos morenos a pagar, com língua de palmo, a ousadia de não seguirem à letra as austeritárias regras por ele impostas. Um desses meninos, Portugal de seu nome, chegado à idade de casar, decidiu romper com a noiva que lhe tinha sido destinada pelo padrasto, chamada Direita, e preferiu amancebar-se com a volúvel Esquerda, filha do maior adversário do padrasto, que atende por Estado Social. A partir daí, tem valido tudo, como nas novelas mexicanas. A noiva traída uniu-se ao padrasto para acabar com o romance entre Portugal e a Esquerda. O padrasto, de modo a provocar uma crise dentro do casal, começou por advertir o enteado degenerado de que não aprovaria o acordo de noivado, chamado Orçamento de Estado para 2016, se não respeitasse as suas exigências. Frustrado esse objetivo, deitou mão de outras armas. Ameaçou que o obrigaria a pagar uma multa retroativa pelos gastos excessivos da noiva anterior. Aí, a noiva anterior sentiu-se na berlinda e atirou a responsabilidade para os excessos que viriam do novo casamento, porque se ela continuasse como noiva, o padrasto não aplicaria a multa. O noivo protestou que não fazia sentido ser castigado por excessos que tinham sido protagonizados pela noiva anterior, conluiada com o padrasto. Que já quase todos os outros irmãos tinham feito gastos excessivos e não tinham sido castigados. Que a irmã França também não estava a cumprir as regras e não ia ser castigada. “Porquê?”, perguntou. “Porque a França é a França. E tu cala-te”, ouviu como resposta. E mais: “se não rompes esse noivado com a Esquerda, não recebes mais mesada”. Falava dos cortes nos fundos estruturais! Aí, a mãe Europa, normalmente muda e queda perante as arbitrariedades do pai tirano, achou que talvez isto fosse muito injusto e imerecido e começou a mexer uns cordelinhos para amansar a fera do padrasto. Assim como quem não quer a coisa, começou a espalhar o boato de que se o filho pedisse desculpa ao paizinho, se se humilhasse perante o Todo-Poderoso, talvez a coisa não passasse de um castigozito simbólico, uma sanção zero. Enfim, coisas de mãe dorida que sofre com os desmandos de um padrasto pérfido e empedernido…
Resta saber como e quando vai acabar esta novela. Sabemos que a vontade dos produtores, a empresa Schauble e Coelho Associados, é que, o mais rápido possível, o noivo ceda à chantagem e rompa o noivado com a Esquerda, ou esta não aguente a pressão e tire o tapete ao infeliz, e assim possa ser reatado o noivado interrompido com a abandonada Direita. Mas será que a Esquerda está disposta a engolir uns sapos para estragar o arranjinho dos promotores desta novela? Que outras vigarices estará a cafageste da Direita disposta a promover para criar mal-estar entre os noivos e provocar o rompimento?
Não perca os próximos episódios desta picante novela mexicana. A coisa promete!


José Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.com


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