A QUESTÃO DOS EXAMES
NACIONAIS
Mais uma vez, como acontece sempre que um novo governo entra em funções,
deparamo-nos com mudanças de natureza política em variadas áreas da
administração pública, como sejam a saúde, a economia, a educação, os
transportes, etc. Também como é costume, saltam de imediato os apeados do poder
a clamar contra essas alterações, desfiando um rosário de objeções e críticas
mais ou menos duvidosas, de entre as quais sobressai, pela sua recorrência,
transversalidade e improcedência, a putativa vantagem da manutenção das
políticas governativas por uma questão de estabilidade. Tornou-se já um
lugar-comum ser “objetor de consciência” à mudança e defender a estabilidade
como a regra de ouro da governação.
A generalização desta atitude resulta, inequivocamente, da prevalência
de ideologias conservadoras nas sociedades contemporâneas, como consequência da
sua inoculação sistemática na opinião pública, por parte dos “fazedores de
opinião” que pululam na comunicação social. A crescente importância destes
“gurus”, nomeadamente no nosso país e sobretudo se forem provenientes das áreas
mais conservadoras, está bem patente nas recentes eleições para a presidência
da república, ganhas precisamente por um desses personagens que levou mais de
dez anos a fazer campanha eleitoral e a ser bem pago para manipular
consciências. Não é fácil contrariar ou escapar à influência destas figuras. No
entanto, o exercício da plena cidadania passa, antes de mais, pela valorização
de uma atitude critica, reflexiva e autónoma, face a todos os aspetos em
relação aos quais somos chamados a opinar, a votar ou a participar por qualquer
outra forma.
Vem este preâmbulo a propósito das alterações anunciadas pelo novo e
jovem ministro da educação, respeitantes aos exames nacionais, que produziram,
precisamente nas áreas mais conservadoras do “comentarismo” político e nos recém-apeados
do poder, um coro de críticas de natureza populista, com base no referido
argumento da estabilidade e num outro, igualmente recorrente, o do facilitismo.
Tanto um como outro destes argumentos são facilmente refutáveis se houver um
mínimo de honestidade intelectual e de conhecimento do assunto. O argumento da
estabilidade cai por terra, desde logo, porque o valor de um determinado tipo
de orientação política não resulta da sua continuidade no tempo. Ou seja, as
políticas devem ser continuadas porque têm qualidade; não têm qualidade porque
são continuadas. Por isso, este argumento constitui claramente aquilo que na
lógica se considera uma falácia da falsa causa devida à inversão da causa e do
efeito. Portanto, no que respeita à estabilidade, o critério orientador para
qualquer governo que chega ao poder deve ser, na minha opinião, o do
equilíbrio: deve mudar-se aquilo que vai contra a matriz política e ideologia
do partido ou partidos que governam e que, na sua opinião, é claramente
contrário às suas propostas; deve manter-se o que não contraria essa matriz e
que, simultaneamente, é avaliado positivamente pelos intervenientes nesses
processos. Por esta ordem de razões, o argumento da estabilidade não colhe em
relação à manutenção do modelo de exames nacionais tal como foi constituído
pelo ministro Nuno Crato, pois, não só esse modelo contraria a ideologia e as
propostas dos partidos que sustentam o atual governo, como foi objeto de
críticas severas e negativas por parte da maioria dos envolvidos no processo:
alunos, professores, associações de pais e de professores, sindicatos, etc.
Além disso, tal como Crato teve toda a legitimidade (ou quase, porque foi contra
a opinião da maioria dos envolvidos) para alterar o modelo que existia quando
chegou ao ministério, o atual ministro tem uma legitimidade reforçada para
operar as alterações anunciadas.
O outro argumento, o do facilitismo, é, ainda, mais confrangedor. Efetivamente,
só quem tem da escola um conhecimento baseado na meia dúzia de anos que por lá
andou ou quem, como Nuno Crato e seus correligionários políticos, entende que
os problemas de aprendizagem se resolvem com exames cujas classificações
determinam o percurso escolar dos alunos, é que pode defender a tese de que a
substituição desse tipo de exames por outros de cariz diferente significa uma
cedência ao facilitismo. Até porque, repare-se, o que o atual ministro anunciou
não foi o fim dos exames nacionais, mas sim a substituição de alguns exames com
caráter sumativo e influenciadores do percurso escolar dos alunos por exames de
aferição, em fases diferentes da escolaridade, que servem para apoiar os
processos de aprendizagem, revelando as dificuldades dos alunos e permitindo
idealizar um acompanhamento mais adequado. Algo que, aliás, é defendido, num
estudo de 2009, sobre esta matéria, publicado pela EURYDICE (Rede de Informação
Sobre Educação na Europa), onde se diz que “estes exames são essenciais para a
melhoria do desempenho e podem conduzir a importantes benefícios em termos
pedagógicos”, sendo utilizados em muitos países europeus. O mesmo estudo mostra
que, na quase totalidade dos países europeus, não se realizam exames nacionais
ou os mesmos não têm impacto no percurso escolar dos alunos, no final do CITE1
(1º e 2º Ciclos); na maioria dos países, entre os quais Portugal, existe um
exame que conta para atribuição de diploma, no final do CITE2 (3º Ciclo).
Assim sendo, as alterações anunciadas pelo ministro da educação, embora
discutíveis sobre vários aspetos e em função de perspetivas diferentes sobre o
papel dos exames e da avaliação dos alunos no sistema de ensino, são perfeitamente
justificáveis, no plano político, entre outras, pelas seguintes razões:
refletem o pensamento político do partido do governo e dos que viabilizaram, no
Parlamento, o seu programa; vão ao encontro da opinião generalizada dos
intervenientes no processo de ensino e aprendizagem; permitem corrigir uma
trajetória desviante, relativamente à generalidade dos países europeus,
introduzida por Nuno Crato; colocam-nos em linha com a prática da maioria
desses países e com as teorias mais recentes e esclarecidas em matéria de
ciências da educação.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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