terça-feira, 25 de outubro de 2016

SOBRE O TERRORISMO

Para além da crise económica que tende a tornar-se crónica em alguns dos seus países, a Europa debate-se, na atualidade, com outros dois problemas: o terrorismo e os refugiados, cuja relação de causa e efeito é, muitas vezes, deturpada em vários setores da sociedade, desde cidadãos comuns a responsáveis políticos, passando por órgãos de comunicação social. Proliferam as opiniões sobre estes dois fenómenos que, pela sua complexidade, não se deixam esclarecer por análises simplistas e superficiais. Surgem, de todos os quadrantes, presunçosas explicações, acompanhadas das imprescindíveis soluções milagrosas. Umas e outras, não raro, pouco esclarecidas e assisadas.
Entre a população europeia menos informada e mais vulnerável à manipulação da extrema-direita racista e xenófoba, vinga a tese de que a vaga de refugiados é a causa dos ataques terroristas na Europa, sustentada na mera coincidência temporal recente entre uma parte desses dois fenómenos. Porque existem pessoas adultas que acreditam nesta tese infantil, importa recordar alguns factos: 1º - o terrorismo, nos moldes atuais, existe há décadas, mesmo que apenas tenhamos começado a processá-lo como um problema sério a partir do ataque às torres gémeas, em Nova Iorque; 2º - praticamente todos os autores, quer desse, quer dos posteriores atentados na Europa, eram, por nascimento ou por emigração legal, cidadãos de países ocidentais; 3º - os atentados terroristas também têm acontecido, com igual gravidade e com maior frequência, em países que não são procurados por refugiados, como a Costa do Marfim, a Nigéria e tantos outros; 4º - apesar de o actual êxodo de refugiados só ter entrado na agenda mediática há pouco mais de um ano, ele já existe há vários anos e com intensidade constante pelo menos desde o início da guerra na Síria, em 2011; 5º - a maior parte dos refugiados foge, precisamente, dos líderes, dos ataques e das guerras terroristas. Conclui-se, pois, que não é o êxodo de refugiados que origina o terrorismo, mas sim o terrorismo que funciona como uma das causas da fuga de grande parte dos refugiados.
Parece-me que ninguém de boa-fé e mínimo bom senso poderá duvidar desta evidência. No entanto, a questão acerca da origem do terrorismo e, por extensão, acerca da forma como se deve combater, permanece de tal modo complexa que qualquer resposta simplista, ainda que verosímil, correrá o risco de ser atacada por quem professe ideologias divergentes, como aconteceu, recentemente, com a opinião do deputado comunista Miguel Tiago que escreveu no facebook: “Tal como a pobreza, a fome, o desemprego, (…), também o terrorismo é resultado da ação dos nossos governos. Se queremos resolver o terrorismo temos de acabar com a política de direita. (…)”. Apesar de não ser frequentador das redes fofoqueiras, (por causa de preservar a minha sanidade mental) percebi, por jornais em papel e on-line, que a afirmação foi vítima das habituais e histéricas indignações facebookianas e dos, também habituais, inquinadores da opinião pública, como M. Sousa Tavares ou Henrique Monteiro. Admito que, talvez por M. Tiago olhar a questão como político, a sua tese enferma de um defeito: é simplista, na medida em que aponta, apenas, a ação dos governos como causa do terrorismo e o fim das políticas de direita como solução para o problema. Mas concordo com ela, porque acredito que as políticas económicas neo-liberais da direita, implementadas gradualmente nos países ocidentais desde Reagan e Tatcher, aumentaram as desigualdades sociais, levando à criação de uma enorme e prolongada geração de jovens impedidos de aceder ao modo de vida consumista que lhes é incutido pela economia capitalista e à sua marginalização em milhares de guetos por esse mundo fora, como Saint-Denis ou Molembeek, que se transformam em autênticos viveiros de potenciais terroristas, facilmente radicalizados com promessas de paraíso, com o sentimento de pertença a algo que os faz sentir importantes, ou simplesmente com o desejo de se vingarem de uma sociedade que os exclui. Acredito que as políticas imperialistas dos Estados Unidos da América, da Rússia e de alguns países europeus criaram na maioria dos países do Médio Oriente, da África e de parte da Ásia um sentimento de ódio, catalisado por grupos extremistas e terroristas como os talibans, a Al-Qaeda, o ISIS ou o Boko Haram. Acredito que a religião do mercado livre, professada pelo capitalismo neo-liberal, exponenciou o mercado negro do petróleo, de obras de arte e de outros bens roubados que alimentam financeiramente esses grupos terroristas. No entanto, para além destas e de muitas outras razões de ordem política e económica, existem outras de natureza histórica, religiosa, geoestratégica, etc, constituindo-se, no seu todo, como um emaranhado que impossibilita quer a explicação cabal do problema, quer a forma de lidar com ele ou ultrapassá-lo com o mínimo de sofrimento possível. E este é, neste momento, o principal desafio da civilização ocidental.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com

pensarnotempo.blogspot.pt

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