SOBRE O TERRORISMO
Para além da crise económica que tende a tornar-se
crónica em alguns dos seus países, a Europa debate-se, na atualidade, com
outros dois problemas: o terrorismo e os refugiados, cuja relação de causa e
efeito é, muitas vezes, deturpada em vários setores da sociedade, desde
cidadãos comuns a responsáveis políticos, passando por órgãos de comunicação
social. Proliferam as opiniões sobre estes dois fenómenos que, pela sua
complexidade, não se deixam esclarecer por análises simplistas e superficiais. Surgem,
de todos os quadrantes, presunçosas explicações, acompanhadas das
imprescindíveis soluções milagrosas. Umas e outras, não raro, pouco
esclarecidas e assisadas.
Entre a população europeia menos informada e mais
vulnerável à manipulação da extrema-direita racista e xenófoba, vinga a tese de
que a vaga de refugiados é a causa dos ataques terroristas na Europa,
sustentada na mera coincidência temporal recente entre uma parte desses dois
fenómenos. Porque existem pessoas adultas que acreditam nesta tese infantil,
importa recordar alguns factos: 1º - o terrorismo, nos moldes atuais, existe há
décadas, mesmo que apenas tenhamos começado a processá-lo como um problema
sério a partir do ataque às torres gémeas, em Nova Iorque; 2º - praticamente
todos os autores, quer desse, quer dos posteriores atentados na Europa, eram,
por nascimento ou por emigração legal, cidadãos de países ocidentais; 3º - os
atentados terroristas também têm acontecido, com igual gravidade e com maior
frequência, em países que não são procurados por refugiados, como a Costa do
Marfim, a Nigéria e tantos outros; 4º - apesar de o actual êxodo de refugiados
só ter entrado na agenda mediática há pouco mais de um ano, ele já existe há
vários anos e com intensidade constante pelo menos desde o início da guerra na
Síria, em 2011; 5º - a maior parte dos refugiados foge, precisamente, dos
líderes, dos ataques e das guerras terroristas. Conclui-se, pois, que não é o êxodo
de refugiados que origina o terrorismo, mas sim o terrorismo que funciona como
uma das causas da fuga de grande parte dos refugiados.
Parece-me que ninguém de boa-fé e mínimo bom senso
poderá duvidar desta evidência. No entanto, a questão acerca da origem do
terrorismo e, por extensão, acerca da forma como se deve combater, permanece de
tal modo complexa que qualquer resposta simplista, ainda que verosímil, correrá
o risco de ser atacada por quem professe ideologias divergentes, como
aconteceu, recentemente, com a opinião do deputado comunista Miguel Tiago que
escreveu no facebook: “Tal como a pobreza, a fome, o desemprego, (…), também o
terrorismo é resultado da ação dos nossos governos. Se queremos resolver o
terrorismo temos de acabar com a política de direita. (…)”. Apesar de não ser
frequentador das redes fofoqueiras, (por causa de preservar a minha sanidade
mental) percebi, por jornais em papel e on-line, que a afirmação foi vítima das
habituais e histéricas indignações facebookianas e dos, também habituais,
inquinadores da opinião pública, como M. Sousa Tavares ou Henrique Monteiro. Admito
que, talvez por M. Tiago olhar a questão como político, a sua tese enferma de
um defeito: é simplista, na medida em que aponta, apenas, a ação dos governos
como causa do terrorismo e o fim das políticas de direita como solução para o problema.
Mas concordo com ela, porque acredito que as políticas económicas neo-liberais
da direita, implementadas gradualmente nos países ocidentais desde Reagan e
Tatcher, aumentaram as desigualdades sociais, levando à criação de uma enorme e
prolongada geração de jovens impedidos de aceder ao modo de vida consumista que
lhes é incutido pela economia capitalista e à sua marginalização em milhares de
guetos por esse mundo fora, como Saint-Denis ou Molembeek, que se transformam
em autênticos viveiros de potenciais terroristas, facilmente radicalizados com
promessas de paraíso, com o sentimento de pertença a algo que os faz sentir
importantes, ou simplesmente com o desejo de se vingarem de uma sociedade que
os exclui. Acredito que as políticas imperialistas dos Estados Unidos da
América, da Rússia e de alguns países europeus criaram na maioria dos países do
Médio Oriente, da África e de parte da Ásia um sentimento de ódio, catalisado
por grupos extremistas e terroristas como os talibans, a Al-Qaeda, o ISIS ou o
Boko Haram. Acredito que a religião do mercado livre, professada pelo
capitalismo neo-liberal, exponenciou o mercado negro do petróleo, de obras de
arte e de outros bens roubados que alimentam financeiramente esses grupos
terroristas. No entanto, para além destas e de muitas outras razões de ordem
política e económica, existem outras de natureza histórica, religiosa, geoestratégica,
etc, constituindo-se, no seu todo, como um emaranhado que impossibilita quer a
explicação cabal do problema, quer a forma de lidar com ele ou ultrapassá-lo
com o mínimo de sofrimento possível. E este é, neste momento, o principal
desafio da civilização ocidental.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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