CRISPAÇÕES
Que a História não se repete parece ser uma verdade
consensual. A crença no “eterno retorno” não terá sido senão a estratégia
mental possível na Antiguidade, utilizada na mitologia grega e de outros povos,
para compreenderem determinados fenómenos da vida humana, numa época
pré-científica, mas já fervilhante de curiosidade. À medida que essa mesma
História foi avançando e o seu conhecimento se tornou mais racional e
científico, foi-se construindo a ideia de que a sua evolução decorre num
processo de avanços e recuos, mas não de repetições integrais. No entanto,
mesmo admitindo que a História não se repete, se analisarmos determinados
acontecimentos com recurso a alguma dose de imaginação e simbolismo, podemos
vislumbrar uma permanente recriação da mesma sob múltiplas e renovadas formas. Vem
este intróito a propósito do momento histórico que vivemos em Portugal, no qual
podemos encontrar, para além das diferenças evidentes, algumas semelhanças, no
mínimo simbólicas, com aquele que se viveu após a queda da 1ª República, com o
golpe militar de 28 de maio de 1926.
O golpe foi comandado por Mendes Cabeçadas, em
Lisboa, e por Gomes da Costa que, com as tropas aderentes, marchou desde Braga
até à capital, onde veio a ser recebido em euforia por uma população cansada de
tanta instabilidade social e política. Caía, assim, o regime democrático
parlamentar da 1ª República, com a abdicação do Presidente, Bernardino Machado,
em favor de Mendes Cabeçadas. Ao golpe militar seguiram-se outros golpes
“palacianos” que, em poucos dias, levaram o outro chefe da revolta, Gomes da
Costa, a substituir Cabeçadas e a ser, ele próprio, substituído por Óscar
Carmona e exilado para os Açores. Sob a presidência de Carmona, a ditadura
militar acentuou-se e fez germinar a ideia de um regime autoritário e
corporativista, inspirado no modelo fascista italiano de Mussolini e do
espanhol Primo de Rivera, o que veio a concretizar-se com a chegada de Salazar
à chefia do governo do Estado Novo e à imposição da Constituição de 1933, que
vigoraria até 25 de abril de 1974. Nos anos que se seguiram ao golpe de 1926,
viveu-se um período de enorme crispação política no país, com uma divisão
profunda entre a direita, católica, autoritária e tradicionalista, agrupada em
torno do novo regime e a esquerda, laica, democrática e progressista, ansiando
o regresso ao parlamentarismo. Este desejo saldou-se em várias tentativas
(falhadas) de reverter o regime, mediante levantamentos militares como o que
ocorreu no Porto, em fevereiro de 1927. Dessas tentativas, os resultados mais
visíveis foram o exílio dos seus mentores, como Jaime Cortesão e Raúl Proença,
a consolidação e endurecimento da ditadura militar e o aparecimento do termo
“reviralho” para designar aqueles que pretendiam fazer o país “revirar” para o
modelo de regime anterior ao golpe. No entanto, os ventos que sopravam na
Europa não eram favoráveis a grandes devaneios democráticos e o dito
“reviralho” teve que empreender uma luta clandestina que só deu frutos quase
meio século depois.
Também hoje existe, no nosso país, uma reconhecida
situação de crispação e clivagem entre a direita e a esquerda, acentuada pelos
resultados eleitorais de outubro passado. A estratégia eleitoralista de
coligação entre os partidos da direita permitiu-lhes obter uma vitória de
Pirro, mas não lhes repetiu uma maioria parlamentar capaz de aprovar um
programa de governo, como exige a Constituição. Apesar disso, e à semelhança do
que fizeram nos anteriores quatro anos de governação, entenderam que a
Constituição era coisa de somenos, incutindo na opinião pública, ignorante das
regras constitucionais, que só a coligação vencedora tinha direito a governar,
“esquecendo” que o governo emana do Parlamento e este é que resulta das
eleições legislativas. Por sua vez, os partidos de esquerda perceberam que,
apesar de os resultados eleitorais não serem totalmente favoráveis, eram
suficientes para apear uma direita que, unida, monolítica e monologante, os
tinha mantido num limbo de irrelevância política. Bastou que, também eles, se
unissem em torno de uma bandeira comum, o fim da austeridade, e suspendessem,
temporariamente, relevantes, mas não esquecidas, divergências, num tão inédito
como inesperado assomo de realpolitik. A direita, apanhada de surpresa,
esperneou o seu ressabiamento, esgrimindo o argumento do ineditismo e
confundindo a legalidade da solução com a legitimidade das opiniões. Passados
poucos meses, a crispação entre a direita e a esquerda continua bem acesa, como
é visível no ressentimento que perpassa nos líderes e em alguns adeptos das
forças da direita e na forma como empolam as naturais areias da engrenagem
governativa para criar artificiais casos políticos que enfraqueçam o apoio das
esquerdas à solução governativa. Neste contexto algo semelhante, uma das
diferenças para o que se passou há noventa anos tem a ver com os meios
utilizados. Os levantamentos militares passaram de moda. Hoje, a oposição
recorre a instrumentos de guerrilha política (ou terrorismo?) muito mais
sofisticados: a manipulação da opinião pública, mediante o controlo da
comunicação social. É nessa arma que a direita aposta forte para “revirar” a
situação. Se as esquerdas não perceberem isso e não contra-atacarem com as
mesmas armas, o “reviralho” dos nossos dias não terá tantos meses de oposição
como de anos teve o “reviralho” que resultou do 28 de maio de 1926.
A História não se repete, mas recria-se. É
importante não esquecer as suas lições.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt
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