É SÓ FUMAÇA!...
Nada melhor do que o anúncio de um aumento do imposto sobre o património
imobiliário avaliado acima de um milhão de euros, em moldes e valores ainda não
especificados, para fazer sair da toca os arautos da desgraça, soprando as
trombetas do apocalipse. Os argumentos, velhos e relhos, repetem-se sempre que
algum governo tem a coragem de propor medidas mais justas na repartição do
contributo que cada um é chamado a dar para que o Estado possa desempenhar
eficazmente a sua função social e política. Já estamos habituados. Alvitra-se
um imposto sobre as grandes fortunas? Oh, nem pensar. Os ricos fugiriam com
elas para outros países, deixando de haver riqueza e investimento. Para isso
foram criados os “paraísos fiscais”, de modo a poder ser concretizada essa
ameaça. Propõe-se um aumento do ordenado mínimo ou do contributo das empresas
para a segurança social? Cuidado. Isso irá afastar os investidores. Neste caso,
a ameaça poderá concretizar-se através da deslocalização das empresas para
países ditos de mão-de-obra barata, mas que, na realidade, são “paraísos
empresariais”, onde crianças e adultos são igualmente explorados como
mão-de-obra escrava, em proveito dos proprietários dessas empresas
multinacionais e de governantes corruptos. Ou, então, deslocam a sede fiscal
das suas empresas para países como a Holanda, onde quase não pagam impostos,
fugindo ao fisco dos seus países, como fazem em Portugal quase todas as
empresas do PSI 20, entre as quais as dos “beneméritos” Soares dos Santos e
Belmiro de Azevedo.
Também desta vez, os trombeteiros anunciam, como consequência terrível
dessa medida, a quebra do investimento no imobiliário. Garantem mesmo que os
atraídos pelo cheiro dos vistos gold já estão a pensar ir investir num outro
“paraíso imobiliário” qualquer, onde não tenham que pagar impostos. Há mesmo
alguns que alegam ser a maioria dos proprietários afetados por essa medida uns
pobrezinhos que terão de vender o património (ainda por cima ao desbarato,
porque com este imposto todos quererão vender!), para poderem fazer face a este
aumento de encargos. Perante argumentos destes, urge lançar um imposto sobre o
ridículo! Segundo parece, os putativos afetados por esta medida serão cerca de
oito mil proprietários; no entanto, a crer nas sondagens e inquéritos e no coro
dos comentadores do “sistema” na comunicação social, esta medida está a
provocar urticária em mais de metade da população. É caso para dizer que nunca
tantos defenderam tão poucos! Das três, uma: ou a população portuguesa sente
uma pena muito grande desses oito mil “pobrezinhos” que, sendo proprietários de
uma riqueza em imobiliário superior a um milhão de euros, não têm meios para
suportar um aumento de imposto, ou os números estão errados e, afinal, mais de
metade da população portuguesa reúne as condições para ser afetada por essa
medida, ou (inclino-me para esta!), as ditas sondagens e inquéritos são
inventados com o objetivo de intoxicar a opinião pública sobre esta matéria.
Aliás, desta vez, as técnicas de intoxicação são ainda mais sofisticadas e
brotam de todo o lado, desde os habituais comentadores ao serviço de sua
majestade, o Capital, até aos políticos da direita capitalista e neoliberal. Chega-se
ao ponto, mais uma vez merecedor de um imposto sobre o ridículo, de atacar a
medida por ela ser ideológica, como se as medidas de qualquer governo não
fossem ou pudessem ser outra coisa senão isso. Rui Moreira, do CDS, presidente
da Câmara do Porto, desconhecendo, provavelmente, a fronteira entre o cómico e
o ridículo, apelidou a medida de “saque Mortágua”, por ter sido a deputada
Mariana Mortágua, do BE, que apareceu publicamente a defendê-la. Mais um golpe
baixo, sendo, no entanto, expectável que o nível desça ainda mais e as cortinas
de fumo se adensem, para que a intoxicação seja total.
Esta histeria em torno de uma medida que é, em abstrato, geradora de maior
justiça social, acaba por ter uma justificação: o património imobiliário não
pode esconder-se da mesma forma que se escondem os valores mobiliários. Estes
podem ocultar-se em paraísos financeiros, sem deixar rasto, nem pagar taxas.
Mas os imóveis não podem subtrair-se ao fisco mediante uma transferência para
um qualquer off-shore. Daí toda esta histeria que visa criar um anátema sobre
esta medida, através do sucessivo e concertado lançamento de “cortinas de fumo”
sobre ela.
Àqueles que tanto se preocupam com o investimento, sugiro que invistam na
descoberta de uma “cortina de fumo”, sim, mas para camuflar o património
imobiliário. Uma coisa do género: passava um helicóptero sobre o imóvel,
lançava uma “cortina de fumo” tipo spray, e o imóvel deixava de poder ser visto
pelas finanças, escapando, assim, ao “saque Mortágua”! Poderia apelidar-se o
invento de “fumaça Moreira”! Teria sucesso garantido.
José Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt