A
EUROPA EM DESAGREGAÇÃO
À
medida que a sucessão de acontecimentos desvela o âmago da História, percebe-se
que a União Europeia caminha a passos largos para a sua desagregação. Resta
saber, embora comece a haver sinais preocupantes, até que ponto o Velho Continente
evitará mergulhar em velhos e terríveis conflitos que têm, ciclicamente,
marcado a sua história a ferro e fogo. O ano de 2014, poderá ficar para a
história da Europa como aquele em que os sinais do desmembramento se tornaram
claros e os do conflito premonitórios. De entre esses sinais, sobressaem dois:
os resultados das eleições de maio para o Parlamento Europeu e a forma como a
UE está a lidar com a crescente procura do seu território por parte de milhares
de pessoas que tentam fugir à guerra, à fome e às perseguições genocidas.
Foquemo-nos, desta vez, neste último fenómeno.
A
Europa foi sempre um polo de atração para outros povos. A civilização europeia
nasce na Grécia Antiga e o povo grego constituiu-se com as sucessivas incursões
de povos indo-europeus, nómadas e guerreiros, atraídos pelas pastagens e pelo
clima dos territórios da Península Balcânica, habitada pelos pelasgos. Após a
conquista de Roma pelos povos bárbaros, por razões diferentes, os vikings a
norte e os mouros a sul atacaram, saquearam e infernizaram a vida das
populações desprotegidas, obrigando-as à construção de muralhas e castelos à
sombra dos quais viveram séculos de feudalismo e, para alguns, de obscurantismo.
Na
segunda metade do séc. XX, a Europa construiu aquele que será, com toda a
certeza, o modelo de sociedade civilizada mais justo e igualitário de que há
memória, mesmo considerando a democracia ateniense do séc. V a. C. – o estado
social – tornando-se, assim, uma espécie de farol das nações e de eldorado para
todos os que anseiam prosperidade e bem-estar. Face a esta procura, a Europa
viu-se obrigada a implementar políticas de controlo da entrada de não-europeus,
mantendo-a dentro de níveis razoáveis. No entanto, a viragem para o
neoliberalismo de direita que marca a Europa pós Thatcher, provocou nela uma
crise económica cuja responsabilidade rapidamente começou a ser atribuída,
pelos partidos xenófobos e racistas, aos bodes expiatórios do costume: os povos
preguiçosos do sul da Europa que vivem acima das suas possibilidades e toda a
espécie de imigrantes que ocupam postos de trabalho e aumentam o desemprego dos
indígenas. Esta crescente onda de racismo e xenofobia tem alastrado pela
Europa, refletindo-se na ascensão eleitoral desses partidos e no controlo mais
apertado da entrada desses estrangeiros. O Mar Mediterrâneo tem-se constituído
como corredor de entrada na Europa, para milhares de refugiados provenientes de
África, Ásia e Médio Oriente, sendo a pequena ilha italiana de Lampedusa uma
das portas privilegiadas. Se nos últimos 25 anos morreram vinte mil pessoas em
tentativas clandestinas de entrada na Europa, só neste ano de 2014 já morreram
afogados mais de três mil refugiados enquanto a missão naval italiana “Mare
Nostrum” salvou outros cento e cinquenta mil! São números que impressionam e
que obrigam a Europa a repensar a sua política de imigração. Acontece que o
radicalismo populista de direita está a pressionar os responsáveis políticos
para lidarem com este fenómeno da pior maneira possível que é o isolamento, o
etnocentrismo e o confronto cultural, atitudes que no passado potenciaram a
ascensão do nazismo e do fascismo responsáveis pela Segunda Guerra Mundial.
Recentemente, o Reino Unido recusou-se a apoiar a UE nas operações de resgate
de refugiados naufragados no Mar Mediterrâneo, alegando que esse resgate
atrairá mais refugiados para a Europa; ou seja, se os deixarmos morrer, eles
desistem de querer vir! Trata-se de um argumento sórdido e asqueroso que
envergonharia, quiçá, o próprio Hitler. No entanto, o verdadeiro argumento para
este comportamento político de David Cameron não é, como hipocritamente
quiseram fazer crer, prevenir situações de perigo ou dependência destes
refugiados, mas sim usar esta medida como um trunfo eleitoral na guerra contra
o partido de ultra direita, eurocéptico e xenófobo, o UKIP, que ganhou, nesse
país as eleições para o PE e ameaça retirar do poder o Partido Conservador,
também ele de direita. Esta paranóia xenófoba na direita europeia levou mesmo
Cameron a propor uma redução significativa da entrada de estrangeiros, mesmo
europeus, para trabalharem e se fixarem no Reino Unido, violando gravemente o
princípio da livre circulação. O mais lamentável é que um país como a
Inglaterra se tenha transformado numa espécie de Alemanha pré nazi, onde as
eleições serão ganhas por quem mais fielmente seguir os princípios de Adolf
Hitler.
Mas há
mais e igualmente perigoso, por essa Europa fora. O PVV, na Holanda, a Frente
Nacional, na França, a Liga Norte, em Itália, são apenas alguns dos partidos de
direita, xenófobos e racistas que preconizam essa mesma política de
encerramento radical das portas da Europa àqueles que a procuram fugindo de
zonas de conflitos que a própria Europa promove ou nada faz para evitar.
A
história da Europa obriga os europeus a encarar este fenómeno de forma
totalmente diferente, sob pena de estarmos a criar uma pressão sociocultural
que, a breve prazo, abrirá uma caixa de conflitos de dimensões, para já,
incalculáveis. As lições da História não podem ser esquecidas.
José
Júlio Campos
jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt