terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A QUEDA DOS MITOS (I)

A “silly season”, que em português poderia significar “época de frivolidades”, foi marcada por um acontecimento que, apesar de muito noticiado naqueles dias, acabou por não ter o impacto que poderia e deveria ter na vida política portuguesa – o caso BES. Em qualquer país (que talvez não exista no planeta), onde os valores da justiça e da democracia prevalecessem, teriam, seguramente, rolado algumas cabeças do poder e sido “engavetados” alguns figurões da finança nacional. Senão vejamos.
Na primeira quinzena de julho, quando deixou de ser possível continuar a “tapar o sol com a peneira” e estoirou na praça pública aquilo que muitos setores da comunicação social e da política sabiam, mas silenciavam, veio a seráfica figura do primeiro-ministro, com a sua carinha de Mona Lisa, anunciar à nação que o problema era apenas no GES (Grupo Espírito Santo) e que o BES estava sólido e confiável. Confiaram nele alguns papalvos (por incrível que pareça ainda há bicharada desta) e vai de comprar ações do BES, ao desbarato, esperando, passada a tempestade no GES, obter lucros (muitos e fáceis) com a bonança da solidez decretada por Coelho. Só que a mentira saiu “salgada” e, no final desse julho escaldante, soube a opinião pública que, afinal, o “buraco” era global: no GES, no BES, enfim, em todo o suposto império familiar. E, assim, esses papalvos perderam milhares de euros em poucos dias, iludidos por essa mentirola. Mais grave ainda, foi Pedro ter gritado aos quatro ventos, repetidamente, (como na história de Pedro e o Lobo), que: “«não há nenhuma razão que aponte para que haja uma necessidade de intervenção do Estado num banco que tem capitais próprios sólidos, que apresenta uma margem confortável para fazer face a todas as contingências, mesmo que elas se revelem absolutamente adversas, o que não acontecerá com certeza». Perante estas “certezas”, pensei de imediato: “Estamos tramados! Como é habitual, se hoje ele diz isto, daqui a poucos dias está a fazer o contrário.” E, como diz o povo, ”meu dito, meu feito!” Esperámos apenas quinze dias para ouvir a não menos angelical Luís anunciar à mesma nação que o estado ia proceder a uma ajuda ao BES na ordem dos 4 mil milhões de euros. Em qualquer país com governantes decentes, bastariam estes sucessivos desmentidos que a realidade provoca sobre as suas declarações para desencadear o respetivo pedido de demissão, ou a demissão compulsiva. Em vez disso, e como convém, quando o caso atinge o ponto de rebuçado, o sr Coelho vai a banhos e pede aos srs jornalistas, com ar sofrido, que o deixem gozar as “merecidas” férias na paz dos justos. No tempo em que todas as explicações eram devidas ao país, o primeiro-ministro foge para não dar essas explicações, nem ser confrontado com as mentirolas que tinha proferido sobre o assunto. “Sabidão”, deixa que o caso arrefeça e regressa às lides no Pontal sem uma palavra sobre esse tema, como se tivesse ocorrido há séculos, preferindo, antes, iniciar a campanha eleitoral para as próximas eleições. (Alerta: Pedro anda a dizer que não está a pensar aumentar os impostos! Leia-se: os impostos vão aumentar, seguramente, no próximo ano!)
Outro protagonista da tragicomédia Espírito Santo dá pelo nome de Carlos Costa – o polícia dos bancos, apanhado a dormir, ou a fingir que dormia, enquanto os “irmãos Dalton” metiam a “massa” em offshores, longe do controlo da justiça portuguesa e internacional. Desta figura direi, apenas, que Costas ou Constâncios é tudo farinha do mesmo saco, tal como BES, BPP, ou BPN são meras estratégias para os ladrões do costume sacarem o dinheiro ao cidadão, usando um poder político conivente e facilitador desses “desvios”, ou “buracos”, como agora lhes chamam. Por isso, num país a sério, esse senhor não só seria demitido imediatamente, como seria investigada uma possível responsabilidade sua, fosse sob a forma de conivência ou de negligência.
Quanto ao ator principal, o “sr” Salgado, não há palavras: passou, num ápice, aos olhos dos seus “amigos”, de referência moral da nação a criminoso da pior espécie, de conselheiro-mor do governo a pessoa com lepra, de comendador “bitaites” para a saída da crise a um dos principais responsáveis por essa mesma crise. Num país sério, ele e os seus comparsas estariam atrás das grades e toda a fortuna por eles diligentemente colocada, quais formiguinhas, nas offshores, seria recuperada para tapar o “buraco” que criaram. Em vez disso, pagou uma fiança de 3 milhões de euros e vai passar o resto da vida a gozar a sua imensa fortuna e a rir-se do pagode, quiçá nas ilhas Caimão.
Repete-se a história: os bancos e os banqueiros roubam o dinheiro e escondem-no nos paraísos fiscais; o estado tapa o “buraco” para salvar os depositantes e os investidores, uns inocentes, outros nem por isso; para isso atira-se à destruição dos serviços de saúde, educação e segurança social, reduz salários e aumenta impostos.
Por tudo isto, o caso BES deveria ter tido outro impacto na sociedade portuguesa, nomeadamente obrigando ao inadiável debate sobre um mito que algumas pessoas como o “sr” Salgado e o “sr” Coelho ajudaram a criar – o mito de que a gestão privada é melhor do que a gestão pública.
(PS – Em relação ao caso BES, ou o gato comeu a língua ao “sr” Cavaco, ou ele é malaio, conchichino ou australopiteco e nunca ouviu falar de tal coisa!)
(Continua na próxima edição)

José Júlio Campos

pensarnotempo.blogspot.pt


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