A
QUEDA DOS MITOS (I)
A
“silly season”, que em português poderia significar “época de frivolidades”,
foi marcada por um acontecimento que, apesar de muito noticiado naqueles dias,
acabou por não ter o impacto que poderia e deveria ter na vida política
portuguesa – o caso BES. Em qualquer país (que talvez não exista no planeta),
onde os valores da justiça e da democracia prevalecessem, teriam, seguramente,
rolado algumas cabeças do poder e sido “engavetados” alguns figurões da finança
nacional. Senão vejamos.
Na
primeira quinzena de julho, quando deixou de ser possível continuar a “tapar o
sol com a peneira” e estoirou na praça pública aquilo que muitos setores da
comunicação social e da política sabiam, mas silenciavam, veio a seráfica
figura do primeiro-ministro, com a sua carinha de Mona Lisa, anunciar à nação
que o problema era apenas no GES (Grupo Espírito Santo) e que o BES estava
sólido e confiável. Confiaram nele alguns papalvos (por incrível que pareça
ainda há bicharada desta) e vai de comprar ações do BES, ao desbarato,
esperando, passada a tempestade no GES, obter lucros (muitos e fáceis) com a bonança
da solidez decretada por Coelho. Só que a mentira saiu “salgada” e, no final
desse julho escaldante, soube a opinião pública que, afinal, o “buraco” era
global: no GES, no BES, enfim, em todo o suposto império familiar. E, assim,
esses papalvos perderam milhares de euros em poucos dias, iludidos por essa mentirola.
Mais grave ainda, foi Pedro ter gritado aos quatro ventos, repetidamente, (como
na história de Pedro e o Lobo), que: “«não há nenhuma razão que aponte para que
haja uma necessidade de intervenção do Estado num banco que tem capitais
próprios sólidos, que apresenta uma margem confortável para fazer face a todas
as contingências, mesmo que elas se revelem absolutamente adversas, o que não
acontecerá com certeza». Perante estas “certezas”, pensei de imediato: “Estamos
tramados! Como é habitual, se hoje ele diz isto, daqui a poucos dias está a
fazer o contrário.” E, como diz o povo, ”meu dito, meu feito!” Esperámos apenas
quinze dias para ouvir a não menos angelical Luís anunciar à mesma nação que o
estado ia proceder a uma ajuda ao BES na ordem dos 4 mil milhões de euros. Em
qualquer país com governantes decentes, bastariam estes sucessivos desmentidos
que a realidade provoca sobre as suas declarações para desencadear o respetivo
pedido de demissão, ou a demissão compulsiva. Em vez disso, e como convém,
quando o caso atinge o ponto de rebuçado, o sr Coelho vai a banhos e pede aos
srs jornalistas, com ar sofrido, que o deixem gozar as “merecidas” férias na
paz dos justos. No tempo em que todas as explicações eram devidas ao país, o
primeiro-ministro foge para não dar essas explicações, nem ser confrontado com
as mentirolas que tinha proferido sobre o assunto. “Sabidão”, deixa que o caso
arrefeça e regressa às lides no Pontal sem uma palavra sobre esse tema, como se
tivesse ocorrido há séculos, preferindo, antes, iniciar a campanha eleitoral
para as próximas eleições. (Alerta: Pedro anda a dizer que não está a pensar
aumentar os impostos! Leia-se: os impostos vão aumentar, seguramente, no
próximo ano!)
Outro
protagonista da tragicomédia Espírito Santo dá pelo nome de Carlos Costa – o
polícia dos bancos, apanhado a dormir, ou a fingir que dormia, enquanto os
“irmãos Dalton” metiam a “massa” em offshores, longe do controlo da justiça
portuguesa e internacional. Desta figura direi, apenas, que Costas ou
Constâncios é tudo farinha do mesmo saco, tal como BES, BPP, ou BPN são meras
estratégias para os ladrões do costume sacarem o dinheiro ao cidadão, usando um
poder político conivente e facilitador desses “desvios”, ou “buracos”, como
agora lhes chamam. Por isso, num país a sério, esse senhor não só seria
demitido imediatamente, como seria investigada uma possível responsabilidade
sua, fosse sob a forma de conivência ou de negligência.
Quanto
ao ator principal, o “sr” Salgado, não há palavras: passou, num ápice, aos
olhos dos seus “amigos”, de referência moral da nação a criminoso da pior
espécie, de conselheiro-mor do governo a pessoa com lepra, de comendador
“bitaites” para a saída da crise a um dos principais responsáveis por essa
mesma crise. Num país sério, ele e os seus comparsas estariam atrás das grades
e toda a fortuna por eles diligentemente colocada, quais formiguinhas, nas
offshores, seria recuperada para tapar o “buraco” que criaram. Em vez disso,
pagou uma fiança de 3 milhões de euros e vai passar o resto da vida a gozar a
sua imensa fortuna e a rir-se do pagode, quiçá nas ilhas Caimão.
Repete-se
a história: os bancos e os banqueiros roubam o dinheiro e escondem-no nos
paraísos fiscais; o estado tapa o “buraco” para salvar os depositantes e os
investidores, uns inocentes, outros nem por isso; para isso atira-se à
destruição dos serviços de saúde, educação e segurança social, reduz salários e
aumenta impostos.
Por
tudo isto, o caso BES deveria ter tido outro impacto na sociedade portuguesa,
nomeadamente obrigando ao inadiável debate sobre um mito que algumas pessoas
como o “sr” Salgado e o “sr” Coelho ajudaram a criar – o mito de que a gestão
privada é melhor do que a gestão pública.
(PS
– Em relação ao caso BES, ou o gato comeu a língua ao “sr” Cavaco, ou ele é
malaio, conchichino ou australopiteco e nunca ouviu falar de tal coisa!)
(Continua
na próxima edição)
José
Júlio Campos
pensarnotempo.blogspot.pt
Sem comentários:
Enviar um comentário