“SÃO TODOS
IGUAIS” (?) (I)
A
expressão que vence por larga margem o campeonato das mais ouvidas, no que se
refere aos políticos, é: “são todos iguais”. Importa, pois, refletir um pouco
sobre ela, de modo a aquilatar do grau de verdade nela existente.
Se
atendermos aos tempos mais recentes, damos conta de que, efetivamente, as
práticas dos diversos partidos que têm passado pelo poder não apresentam
diferenças suficientes para desmentir a asserção em causa. As supostas
diferenças ideológicas e programáticas não têm qualquer reflexo na praxis
governativa a não ser em pequenas nuances propagandísticas com intenções
eleitorais. Cá, como na generalidade da Europa, vêm-se dissipando as diferenças
entre os diversos partidos que partilham alternadamente o poder e se
auto-intitulam pertencentes ao “arco da governação”. Essa espécie de
homogeneização ideológica, que sustenta a ideia de que, tal como os políticos,
também os partidos são todos iguais, além de ser politicamente perigosa, é, em
grande parte, a responsável pela crise do estado social e a destruição da
classe média que ameaçam provocar, na Europa, um retrocesso civilizacional
superior a um século.
Vamos
por partes. É politicamente perigosa porque contribui para o afastamento entre
o cidadão comum e a classe política, refletindo-se em fenómenos como a
abstenção galopante que, ao contrário do que hipocritamente nos querem fazer
crer, interessa às áreas ideológicas que se vão perpetuando no poder; uma
corrida massiva às urnas só acontecerá enquanto manifestação de uma descrença
total no poder instituído associada à adesão convicta a uma alternativa. É
politicamente perigosa, ainda, porque afasta o cidadão das instituições,
contribuindo para a diminuição da participação cívica e a desagregação social.
Este
crescente alheamento das populações face à forma como os diversos partidos
foram exercendo o poder que lhes era concedido criou as condições necessárias e
suficientes para ir ocorrendo a referida homogeneização. Quanto mais os
cidadãos se desinteressam pelo fenómeno político, mais os políticos se sentem à
vontade para esquecer os cidadãos e se preocuparem, apenas, com os interesses
da sua classe e do seu partido. Instala-se, assim, um ciclo vicioso,
desenvolvendo-se numa espécie de carrossel em espiral, entre a apatia dos
cidadãos, a constituição de uma “classe” político-partidária (uma espécie de
nomenklatura) que se instala no poder, o esbatimento das diferenças ideológicas
entre os membros dessa “classe”, o poder ao serviço dos interesses dos partidos
e dos seus filiados (corrupção), ainda mais apatia dos cidadãos…
A
Europa atingiu um nível de bem-estar e de prosperidade generalizados, nas
décadas de 70 e 80, que teve como consequência mais visível a ascensão de uma
nova burguesia – uma classe média numerosa e economicamente desafogada que se
constituiu como um grande mercado sorvedor de toda a produção e motor da
economia, mas também como uma ameaça para os detentores do grande capital que
se viam, por efeito da regulação estatal introduzida nas suas relações com o mercado
de trabalho, na eminência de verem reduzidos os lucros escandalosos a que
estavam habituados e de ter concorrência na manutenção dos seus monopólios e
oligopólios. A classe média foi uma criação da sociedade europeia, após a 2ª
guerra mundial, que teve na sua génese a centenária luta de classes germinada
na Revolução Francesa e tornada adulta por Marx e Engels, durante a Revolução
Industrial. Os grandes responsáveis por esta criação foram os sindicatos e os
partidos designados socialistas e sociais democratas, caracterizados pela
defesa de ideologias sociais; foram estes partidos que criaram o modelo de
estado social implementado em vários países europeus e idealizado pelos
fundadores da União Europeia como paradigma para toda a Europa. Nessa época, os
partidos “não eram todos iguais”. Havia uma diferenciação clara entre os
partidos de direita, defensores de políticas conservadoras, de manutenção do
status quo de desigualdades sociais gritantes, limitadores do exercício dos
direitos de cidadania e desconfiados dos direitos humanos, e os partidos de
esquerda, progressistas, defensores de uma maior justiça social e paladinos dos
direitos humanos. Esta clara diferenciação ideológica deveu-se, por um lado, a
um forte sentimento, por parte da população, da necessidade de criar uma
sociedade mais justa e igualitária, no rescaldo de duas guerras mundiais, e,
por outro lado, à lucidez e à coragem política de figuras como os suecos Olof
Palm e Karl Gunnar Myrdal e o alemão ocidental Willy Brandt, entre outros. A
construção do estado social e a ascensão da classe média foram dois fenómenos
político-sociais inseparáveis e mutuamente implicantes que marcaram a história
da Europa Ocidental e de todo o planeta, na segunda metade do séc. XX, fazendo
da velha Europa uma espécie de “farol das nações”, paradigma da sociedade de
bem-estar, modelo a seguir por todos os estados e centro de atração de povos e
culturas.
(continua na
próxima edição)
José
Júlio Campos
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