terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O ESTADO … A QUE ISTO CHEGOU!

Ficou célebre a expressão de Salgueiro Maia, no momento de iniciar a marcha para Lisboa, na madrugada do dia 25 de abril de 1974, ao dizer que “há os estados sociais, os estados corporativos e o estado a que chegámos” referindo-se ao Estado Novo. A expressão foi-se vulgarizando ao longo dos anos, mas vale a pena recordá-la para caracterizar o estado a que o atual governo conduziu o Estado Português. De um estado social estamos a transformar-nos, por via da ideologia dominante, num estado liberal, em que os direitos sociais estarão apenas ao alcance de uma minoria de cidadãos; de um estado de direito, estamos a transformar-nos num estado em que a lei só se aplica a quem não tem fortuna e onde os ricos e poderosos fazem dela gato sapato; de um estado soberano, estamos a transformar-nos em súbditos de suas majestades a troika e os mercados financeiros, por via de uma dívida que aumenta ao ritmo proporcional da austeridade e que, segundo especialistas tanto de esquerda como de direita, sem ser negociada será totalmente insolúvel e asfixiante para a nossa economia.
Atentemos, apenas, em dois dos exemplos mais recentes que mostram, à saciedade, o descontrolo do atual governo e, por consequência, o estado … a que isto chegou!
Falando do que não sabe, o primeiro-ministro garantiu, na abertura do corrente ano letivo, ali em Sernancelhe, que a colocação de professores “correu, este ano, melhor do que em anos anteriores”. Pensei, de imediato, que era de muito mau agoiro o ano letivo começar com afirmações destas por parte do sr. Passos Coelho. É que já se tornou um hábito a realidade desmentir cruelmente toda e qualquer afirmação perentória que ele profira. Desta vez, o dislate ganhou contornos de maior gravidade, na medida em que o oráculo desta mentira foi, seguramente, um dos piores ministros da educação do pós 25 de abril – o ministro Crato. Por essa altura, já os sindicatos e os professores em geral anunciavam graves e grandes irregularidades no processo de colocação dos professores. Nas semanas seguintes, de revelação em revelação, percebeu-se que o caos na colocação de professores era total. O ministro teve de engolir as arrogantes palavras do início do ano letivo, mas limitou-se a um pedido de desculpas, no Parlamento, em de vez de ter o único comportamento aceitável em qualquer país civilizado – demitir-se. Perante milhares de alunos sem aulas e várias escolas praticamente fechadas, reformulam-se os concursos, não sem que antes o sr Crato prometa (ou prometesse?) (ou tenha prometido?) solenemente aos docentes que tinham sido colocados por erro do ministério que iriam manter a sua colocação. Passados alguns dias, saem novas colocações. Os erros persistem, há vários professores colocados em dezenas de escolas em simultâneo; os professores colocados por engano no primeiro concurso são “descolocados” fazendo-se tábua rasa da promessa solene do sr Crato. A pusilanimidade do ministro atinge o apogeu, quando, no Parlamento, pretende armar-se em esperto, ao justificar o facto de não cumprir o que prometera dias antes, argumentando: “eu disse mantêm-se, não disse manter-se-ão”. Nunca, em tempo algum, um titular de um cargo de tamanha responsabilidade terá descido tão baixo. No entanto, o reconhecimento por esta supina incompetência e total falta de vergonha chegou uns dias depois, quando, em Esposende, o sr Coelho afirmou, perante o ar arrelampado do próprio Crato, que ao escolhê-lo para ministro tinha feito a melhor escolha. Se o objetivo era descredibilizar o ensino público para o destruir, então não restam dúvidas: grande escolha!
Mas há mais, e talvez melhor! Se Crato paralisou uma série de escolas e deixou uns milhares de alunos sem aulas, o que dizer da senhora que paralisou todos os tribunais do país durante mais de um mês? É obra, não é para qualquer um, e trar-lhe-á, seguramente, como ela sempre aspirou, um lugar na história da justiça! Possessa do espírito reformista que anima os liberais de pacotilha, a ministra Teixeira assumiu a Cruz de reformar a justiça portuguesa. Durante três anos cozinhou uma reforma que, de acordo com a humildade que a caracteriza, seria, “apenas”, a maior reforma operada na organização judiciária, nos últimos 200 anos. Nem mais, nem menos. Vai daí, contra tudo e contra todos, nomeadamente contra o bom senso, mandou fechar tribunais, alguns inaugurados há poucos meses, fez deslocar processos e funcionários judiciais, nalguns casos centenas de quilómetros, instalou juízes e funcionários em contentores, ou colocou-os a trabalhar em amena convivência com trolhas e mestres de obras. Mas o pior estava, ainda, para vir, quando, no início de setembro, os “novos” tribunais quiseram trabalhar e “nada”! Com a reforma da sra Teixeira, o sistema informático dos tribunais, curiosamente denominado Citius (do latim, “mais rápido”), pura e simplesmente tinha colapsado, ninguém tinha acesso aos processos, os tribunais paralisaram, a justiça entrou de férias. Como é hábito neste desgoverno, a ministra começou por negar os factos, qual ministro iraquiano clamando vitória quando o inimigo americano já dominava Bagdad. Uma vez aterrada na realidade, “resolveu” o problema com a tibieza de um pedido de desculpas em vez do incontornável pedido de demissão que a gravidade da situação exigia. É curioso como este tipo de comportamento se tornou já um padrão deste governo, desde o irrevogável Portas aos desmentidos quase diários que a ministra Albuquerque faz dela própria, sobre o caso BES. Estão, neste parâmetro, claramente à altura do chefe do governo! O único que escapou ao padrão, porque outros “valores” (FMI) se levantavam, foi Vitor Gaspar! De resto, parecem lapas.
Acontece que o tempo começa a fugir-lhes por entre os dedos e brevemente o povo e a história farão a sua justiça, enviando esta gente para de onde nunca devia ter saído – o anonimato. O problema é que já não se pode desfazer o que estes incompetentes fizeram: fazer chegar o estado ao estado … a que isto chegou!



José Júlio Campos

pensarnotempo.blogspot.pt



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