sexta-feira, 21 de março de 2014

O PAPA FRANCISCO E O RETORNO ÀS ORIGENS DO CRISTIANISMO (II)

(continuação da edição anterior)
A encíclica Evangelii Gaudium inclui um capítulo dedicado à inclusão social dos pobres. Nele, o Papa começa por afirmar: “Deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade”. E, no ponto 198, diz: “desejo uma Igreja pobre para os pobres”. Ou seja, em matéria de doutrina social, Cristo e o Papa são de uma clareza cristalina: o lugar da Igreja é ao lado dos pobres e dos marginalizados. Nesse sentido, a solidariedade não é vista como um ato de caridade resultante da boa vontade, tantas vezes hipócrita, de quem a pratica, mas como um ato de justiça social; diz ele, no ponto 189: “A solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde”. Também os chamados direitos sociais, cuja consecução constitui a essência do estado social, hoje tão atacado e destruído por quem tem o poder político e económico no nosso país e na Europa em geral, merecem do Papa a seguinte reflexão, no ponto 192: “Não se fala apenas de garantir a comida ou um digno «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspetos». Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum”. No que respeita à forma como muitos destes problemas poderão ser resolvidos, o Papa também aponta caminhos que, obviamente não vão no mesmo sentidos daqueles que estão a ser trilhados na Europa e que visam, apenas, aumentar as desigualdades gritantes já existentes. Diz ele no ponto 202: “Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais.” E no ponto 204: “Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.” Aliás, e no que respeita às questões da “produtividade”, como gostam de lhe chamar os empresários de sucesso, e que tem sido o alibi para sonegar direitos aos trabalhadores e aumentar a horda de desempregados e excluídos sociais, o Papa deixa outra mensagem importante, no ponto 203: “A vocação de um empresário é uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a todos”. Como era bom que os mentores da classe empresarial e os grandes educadores dos aprendizes de empresários como os Belmiros, os Santos, os Amorins e aqueles que pensam como eles, em vez de se limitarem a bater com a mão no peito ao domingo, tirassem uma horinha do seu tempo para lerem, meditarem e passarem a agir de acordo com as sábias palavras da Evangelii Gaudium. Seguramente, eles não ficariam mais pobres e os pobres teriam muito a ganhar com isso. Também os políticos merecem a atenção do Santo Padre, quando diz, no ponto 203: “Quantas palavras se tornaram incómodas para este sistema! Incomoda que se fale de ética, incomoda que se fale de solidariedade mundial, incomoda que se fale de distribuição dos bens, incomoda que se fale de defender os postos de trabalho, incomoda que se fale da dignidade dos fracos, incomoda que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justiça.” E no ponto 205 diz: “Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspetivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados de saúde para todos os cidadãos”. E, ainda, no ponto 57: “animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”. Não acreditando que a sra Merkel e outros governantes do norte da Europa estejam habituados a seguir as orientações do Papa, também eles não perderiam nada se fossem buscar alguma inspiração ao seu pensamento. Quanto aos nossos governantes, desde os Passos e os Portas aos Cavacos, aos Motas, aos Macedos, aos Limas, às Assunções, Cristas ou não, seria altamente aconselhável, tanto para bem da nossa saúde financeira como biológica, que, em vez de perfilarem os fatos domingueiros nos Jerónimos, para receberem D. Manuel Clemente diante das câmaras mediáticas, dedicassem um pouco do tempo que falta para a saída da troika, na sua intimidade, a ler e a meditar as palavras do Papa; e, porque não, também as de D. Januário Torgal Ferreira. Aliás, é da mais elementar justiça dizer que o Papa veio dar total razão a D. Januário. E que melhor pode desejar um bispo do que ver-lhe ser dada razão, em toda a linha, pelo próprio chefe supremo da Igreja?
Como não são de esperar conversões numa seita que há muito vendeu a alma ao dinheiro e à doutrina da exploração dos mais fracos, esperemos, pelo menos, que nunca nos faltem pessoas como D. Januário, o Papa Francisco e outros como eles, com coragem e lucidez para denunciar as malfeitorias desses lacaios do capitalismo contemporâneo. E que a Igreja Católica siga as palavras do Papa e encete decididamente o regresso às origens por que os pobres e os marginalizados tanto anseiam.


José Júlio Campos

(pensarnotempo.blogspot.com)

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