terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A QUEDA DOS MITOS (II)
(Continuação da edição anterior)

Uma das estratégias fundamentais dos partidos de direita, neoliberais, uma vez chegados ao poder, é criarem na opinião pública a ideia de que o Estado não sabe gerir as funções que lhe estão cometidas e que, obviamente, essas tarefas seriam muito melhor executadas por agentes privados. O objetivo evidente desta máxima ideológica é o de retirar do controlo do Estado todas as atividades que possam ser rentáveis, entregando-as nas mãos de grupos ou pessoas privadas que farão delas uma fonte de enriquecimento para uma minoria privilegiada. Ao Estado competirá, apenas, o exercício de funções meramente representativas e simbólicas, uma espécie de “casa real” para encher revistas de fofocas e fantasias de adultos que não saíram da adolescência.
Como qualquer estratégia politicamente “bem” urdida, desencadeia-se o processo através da manipulação da opinião pública de modo a que esta fique recetiva a todas as medidas que vierem a ser tomadas para desmantelar o Estado. Essa manipulação inicia-se com a criação e divulgação de slogans que visam descredibilizar as capacidades de gestão e trabalho dos funcionários do Estado. A técnica é muito antiga, muito simples e muito falaciosa: pega-se num erro, num defeito ou numa falha naturalmente existente numa minoria desses funcionários e generaliza-se à sua totalidade. Dessa forma criam-se slogans como: “os funcionários públicos não fazem nenhum” (há até uma série de anedotas sobre o assunto), “trabalhar no Estado é ter um tacho”, e por aí fora. Depois, é só semear essas falácias, usando a servil comunicação social e os comentadores escolhidos a preceito. Quando Sócrates e uma indivídua, recentemente condenada nos tribunais por crimes cometidos enquanto ministra da educação, se dispuseram a destruir completamente o estatuto da carreira docente, iniciaram esse processo forjando uma campanha de diabolização dos professores, usando a comunicação social e indivíduos como Miguel Sousa Tavares, que destila ódio aos professores, para intoxicar a opinião pública, com ideias totalmente falsas, mas que podem ser tomadas como verdadeiras por quem está fora do sistema de ensino, como as seguintes: “os professores têm mais férias do que os outros”, “os professores não são avaliados”, “os professores têm privilégios únicos”, etc. E, assim, iniciaram um processo, entretanto continuado, de destruição da classe docente e do sistema de ensino público. Quando se iniciou a chamada crise da dívida soberana e os seus responsáveis entenderam ser a hora de a classe média perder as “benesses” de que vinha usufruindo nos últimos tempos, antes de “vestirem o fraque”, para fazerem a cobrança nos países “privilegiados” como o nosso, os agentes dessa política, os partidos da direita neo-liberal, como o CDS e o PSD, em Portugal, lançaram uma campanha de intoxicação da opinião pública europeia relativamente ao Estado, às suas funções e aos seus funcionários, recorrendo a slogans totalmente falsos como: “andámos a viver acima das nossas possibilidades”, “o estado social não é sustentável”, “as empresas públicas só dão prejuízo”, etc, etc. E foi essa campanha que levou a direita ao poder, nomeadamente no nosso país, com os resultados que se conhecem: a classe média destruída, a economia afundada, o país empobrecido, o estado social praticamente desmantelado e a dívida do país, em nome da qual se justificou toda a austeridade que nos pôs nesta situação, em vez de resolvida, a aumentar “soberanamente”! A dívida pública, desde que o atual governo tomou posse, aumentou, “só!” de 100% para 132% do PIB!
Importa, pois, com base nos exemplos que se vão multiplicando, estar atento à realidade dos factos e desmitificar um conjunto de ideias que não passam de propaganda ao serviço dos interesses gananciosos da banca privada e dos mercados financeiros. O caso BES, que ainda tem muito para contar, é mais uma prova de que a gestão privada, tal como na educação, na saúde, ou noutras áreas, também na banca é pior do que a gestão pública. Aliás, já tínhamos outros exemplos: o caso BPN, no qual uma gestão escandalosamente corrupta, feita pelos arautos das vantagens da gestão privada e seus amigos, produziu um buraco negro que o Estado continua a sustentar, com prejuízo para as suas e nossas finanças. Também além fronteiras, os exemplos saltam à vista. Foi a gestão gananciosa e corrupta levada a cabo por banqueiros e especuladores imobiliários privados que levaram o Estado norte americano a intervir financeiramente para evitar a tragédia na vida de muitas pessoas. E quando esse mesmo Estado não pôde, ou não quis, fazer o mesmo no banco Lehman Brothers, este colapsou, afetando gravemente as economias de muitos países europeus, como a Islândia e a Irlanda. Mesmo naqueles casos, que também existem, de gestão danosa no setor público, é curioso verificar como podem mesmo ser os próprios políticos de direita a fazer uma gestão da “res publica” como se fosse coisa sua. É o caso do ultramontano João Jardim, na Madeira, que, sozinho, cavou um “buraco” de mil milhões de euros nas finanças do Estado.
Perante estes e muitos outros factos, aqui impossíveis de enumerar, fica claro que o mito da excelência da gestão privada não passa disso mesmo: um mito com pés de barro, ao serviço de interesses obscuros e gananciosos. Sendo certo que tanto a gestão pública como a privada são feitas por homens e onde houver intervenção humana tanto pode ocorrer a justiça e o altruísmo como o seu contrário, resta concluir que a gestão pública leva vantagem sobre a privada na medida em que, sendo, tendencialmente, mais fiscalizada e regulada pela lei, deve, também, ser movida pelo bem comum e pela justiça social, enquanto a gestão privada gosta de viver na falta de regulação e de controlo legal (ideais do liberalismo económico), movida que é pelo egoísmo ou mesmo pela ganância do ser humano.


José Júlio Campos

pensarnotempo.blogspot.pt


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