terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A EUROPA EM DESAGREGAÇÃO

À medida que a sucessão de acontecimentos desvela o âmago da História, percebe-se que a União Europeia caminha a passos largos para a sua desagregação. Resta saber, embora comece a haver sinais preocupantes, até que ponto o Velho Continente evitará mergulhar em velhos e terríveis conflitos que têm, ciclicamente, marcado a sua história a ferro e fogo. O ano de 2014, poderá ficar para a história da Europa como aquele em que os sinais do desmembramento se tornaram claros e os do conflito premonitórios. De entre esses sinais, sobressaem dois: os resultados das eleições de maio para o Parlamento Europeu e a forma como a UE está a lidar com a crescente procura do seu território por parte de milhares de pessoas que tentam fugir à guerra, à fome e às perseguições genocidas. Foquemo-nos, desta vez, neste último fenómeno.
A Europa foi sempre um polo de atração para outros povos. A civilização europeia nasce na Grécia Antiga e o povo grego constituiu-se com as sucessivas incursões de povos indo-europeus, nómadas e guerreiros, atraídos pelas pastagens e pelo clima dos territórios da Península Balcânica, habitada pelos pelasgos. Após a conquista de Roma pelos povos bárbaros, por razões diferentes, os vikings a norte e os mouros a sul atacaram, saquearam e infernizaram a vida das populações desprotegidas, obrigando-as à construção de muralhas e castelos à sombra dos quais viveram séculos de feudalismo e, para alguns, de obscurantismo.
Na segunda metade do séc. XX, a Europa construiu aquele que será, com toda a certeza, o modelo de sociedade civilizada mais justo e igualitário de que há memória, mesmo considerando a democracia ateniense do séc. V a. C. – o estado social – tornando-se, assim, uma espécie de farol das nações e de eldorado para todos os que anseiam prosperidade e bem-estar. Face a esta procura, a Europa viu-se obrigada a implementar políticas de controlo da entrada de não-europeus, mantendo-a dentro de níveis razoáveis. No entanto, a viragem para o neoliberalismo de direita que marca a Europa pós Thatcher, provocou nela uma crise económica cuja responsabilidade rapidamente começou a ser atribuída, pelos partidos xenófobos e racistas, aos bodes expiatórios do costume: os povos preguiçosos do sul da Europa que vivem acima das suas possibilidades e toda a espécie de imigrantes que ocupam postos de trabalho e aumentam o desemprego dos indígenas. Esta crescente onda de racismo e xenofobia tem alastrado pela Europa, refletindo-se na ascensão eleitoral desses partidos e no controlo mais apertado da entrada desses estrangeiros. O Mar Mediterrâneo tem-se constituído como corredor de entrada na Europa, para milhares de refugiados provenientes de África, Ásia e Médio Oriente, sendo a pequena ilha italiana de Lampedusa uma das portas privilegiadas. Se nos últimos 25 anos morreram vinte mil pessoas em tentativas clandestinas de entrada na Europa, só neste ano de 2014 já morreram afogados mais de três mil refugiados enquanto a missão naval italiana “Mare Nostrum” salvou outros cento e cinquenta mil! São números que impressionam e que obrigam a Europa a repensar a sua política de imigração. Acontece que o radicalismo populista de direita está a pressionar os responsáveis políticos para lidarem com este fenómeno da pior maneira possível que é o isolamento, o etnocentrismo e o confronto cultural, atitudes que no passado potenciaram a ascensão do nazismo e do fascismo responsáveis pela Segunda Guerra Mundial. Recentemente, o Reino Unido recusou-se a apoiar a UE nas operações de resgate de refugiados naufragados no Mar Mediterrâneo, alegando que esse resgate atrairá mais refugiados para a Europa; ou seja, se os deixarmos morrer, eles desistem de querer vir! Trata-se de um argumento sórdido e asqueroso que envergonharia, quiçá, o próprio Hitler. No entanto, o verdadeiro argumento para este comportamento político de David Cameron não é, como hipocritamente quiseram fazer crer, prevenir situações de perigo ou dependência destes refugiados, mas sim usar esta medida como um trunfo eleitoral na guerra contra o partido de ultra direita, eurocéptico e xenófobo, o UKIP, que ganhou, nesse país as eleições para o PE e ameaça retirar do poder o Partido Conservador, também ele de direita. Esta paranóia xenófoba na direita europeia levou mesmo Cameron a propor uma redução significativa da entrada de estrangeiros, mesmo europeus, para trabalharem e se fixarem no Reino Unido, violando gravemente o princípio da livre circulação. O mais lamentável é que um país como a Inglaterra se tenha transformado numa espécie de Alemanha pré nazi, onde as eleições serão ganhas por quem mais fielmente seguir os princípios de Adolf Hitler.
Mas há mais e igualmente perigoso, por essa Europa fora. O PVV, na Holanda, a Frente Nacional, na França, a Liga Norte, em Itália, são apenas alguns dos partidos de direita, xenófobos e racistas que preconizam essa mesma política de encerramento radical das portas da Europa àqueles que a procuram fugindo de zonas de conflitos que a própria Europa promove ou nada faz para evitar.
A história da Europa obriga os europeus a encarar este fenómeno de forma totalmente diferente, sob pena de estarmos a criar uma pressão sociocultural que, a breve prazo, abrirá uma caixa de conflitos de dimensões, para já, incalculáveis. As lições da História não podem ser esquecidas.


José Júlio Campos

jjfcampos@hotmail.com
pensarnotempo.blogspot.pt


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