quarta-feira, 19 de junho de 2013

O SR. CAVACO (II)

Num belo dia de março, Aníbal e Maria tomam posse do palácio de Belém, com o beneplácito de Sócrates que não tardaria a provar o veneno cavaquiano. Na pré-campanha para as legislativas de outubro de 2009, Cavaco entendeu ser o momento de levar o PSD ao poder e inicia, oficialmente, a guerra contra Sócrates, inventando a famigerada intentona das escutas no palácio presidencial. Malgrado todo o seu esforço, Sócrates volta a ganhar as eleições; no entanto, tem os dias contados; Cavaco não desiste e torna-se o seu principal opositor. Conseguida a reeleição, em janeiro de 2011, inicia, de imediato, a campanha para derrubar o governo socialista fazendo, logo na tomada de posse, um apelo veemente a um “sobressalto cívico” que significa um “às armas” contra Sócrates; apela a que os jovens, os pais, todos manifestem a sua indignação; declara, solenemente, aquando da apresentação do PEC IV que o povo português já não suporta mais sacrifícios. O PEC é chumbado, Sócrates pede a demissão e Cavaco utiliza a “bomba atómica”, como ele lhe chama: dissolve a Assembleia e marca eleições antecipadas. Passados tantos anos, a crise que soprava da Europa e começava a fazer estragos em Portugal dava-lhe, de mão beijada, a oportunidade de concretizar a velha ambição de Sá Carneiro: um governo, uma maioria, um presidente. Recorrendo a esse ícone do cinismo, da hipocrisia e do maquiavelismo ético-político que dá pelo nome de Paulo Portas, para o qual tudo vale desde que esteja no “poleiro”, Cavaco torna-se, assim, o tutor único e supremo desta espécie de ditadura parlamentar, em que vivemos desde então. E, para quem convive mal com a democracia, à falta de um regime presidencialista, este tipo de regime pode, perfeitamente, satisfazer o seu ego; por isso tem feito tudo, contra quase todos, por mantê-lo, até porque a sorte o bafejou com um chefe de governo sem estrutura nem personalidade cuja incompetência só é comparável à teimosia e vingança que põe na sua governação, à imagem, aliás, do seu tutor. Só assim se compreende a forma totalmente anacrónica como lida com o atual governo em comparação com o anterior: agora, depois de vermos os sacrifícios terem sido triplicados, já não entende que sejam insuportáveis; agora, apesar de o governo insistir em violar a Constituição de forma grosseira e descarada, não o demite – ao invés dá-lhe “colinho”, como quando Passos o procurou, num dos atos mais patéticos e burlescos da história política recente, qual menino mimado que leva uma reprimenda do professor (o Tribunal Constitucional); uma cena de ópera bufa do género “agarrem-me senão eu mato-me!”.
E assim, o sr. Silva, como em tempos lhe chamava o cacique da Madeira, vai vivendo o seu sonho, pesadelo para a maioria dos portugueses, inspirando-se na figura histórica que reencarnou no inconsciente dos mais saudosistas; também ele tem uma Maria como musa inspiradora, com a diferença de que o “outro” a mantinha calada e servente na cozinha e na despensa, enquanto Cavaco não prescinde de a trazer a tiracolo, autorizando-lhe mesmo que rivalize com ele no que respeita às tiradas mais ridículas. Aliás, neste aspeto, Cavaco vai de mal a pior, algo que não deve ser alheio a um natural processo de degenerescência neurológica que parece manifestar-se até no modo como tem vindo a acrescentar aos esgares histriónicos o entaramelamento preocupante da fala. Será, também, essa, a explicação para algumas das suas “gaffes” mais recentes, como ter-nos apelidado de “cidadões”, ou como ter insultado os portugueses quando se queixou de receber da CGA, mai-la sua Maria, uma reforma que mal chega para pagar as despesas da casa (da dele, onde não vive, porque daquela onde vive, com pompa e mordomia, somos nós que as pagamos); só ele, de pensões variadas, recebe cerca de dez mil euros mensais. Mas o auge da tragicomédia em que se tornaram as declarações de Cavaco ocorreu no passado dia 14 de maio, quando afirmou, inspirado pela sua musa Maria, que a aprovação pela troika na 7ª avaliação a Portugal se teria devido a “uma inspiração de Nossa Senhora de Fátima”! (Não deixa de ser curioso que também houve quem tentasse associar a instauração do Estado Novo a uma intervenção divina, através de Fátima). Será que Cavaco confunde a troika com a Santíssima Trindade? E, a atentar nas suas mais recentes declarações, qual das três pessoas é o FMI?! É inqualificável este recurso à área do sagrado para explicar fenómenos sócio-políticos; é um insulto, tanto a não crentes como, sobretudo, a crentes, pois trata-se de invocar o nome de Deus em vão, como muito bem lembrou Jorge Miranda.
O diagnóstico do nosso país é, pois, elementar: temos um governo que já passou do estado de coma ao estado de decomposição, teimosamente ligado a uma máquina também ela em acelerado processo de degenerescência.
E assim vai definhando Portugal.



José Júlio Campos

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O SR. CAVACO (I)

A personalidade que tem tutelado a vida política portuguesa nos últimos trinta anos merece, indiscutivelmente, ser objecto de uma reflexão atenta que nos permita entrever como foi possível tão grande protagonismo, por parte de uma figura tão insípida e presunçosa. Apesar de tão duradoura presença nos píncaros da política portuguesa, é expectável que a História pouco mais relevará deste cidadão do que as tão famosas quanto inacreditáveis tiradas que foi e continua semeando a esmo. Mas comecemos pelo princípio.
A sua entrada na alta roda da política nacional, no princípio dos anos oitenta, foi facilitada pela grave crise económica e consequente instabilidade social reinante. Cavaco soube cavalgar essa onda de desilusão, aureolando-se de místico sebastianismo e assumindo, no inconsciente coletivo da direita mais saudosista, a reencarnação do ditador de Santa Comba. Para reforçar essa imagem de figura redentora, que Cavaco sempre cultivou, nada melhor do que a narrativa por ele engendrada acerca da forma como chegou à liderança do partido. Só um predestinado para a salvação da pátria poderia ir ao congresso do partido, na Figueira da Foz, para fazer a rodagem ao automóvel e, contra todas as expectativas, sair de lá como líder aclamado do PPD/PSD. O certo é que a maioria do bom, mas politicamente inculto, povo português acreditou nesta narrativa miraculosa e premonitoriamente salvífica para lhe dar duas maiorias absolutas consecutivas. Para isso, contribuiu, também, no início, o oportunismo político mal disfarçado de Ramalho Eanes e seus comparsas.
Uma vez instalado como chefe absoluto do reino, cujo único dissabor foi não ter conseguido que o povo elegesse um presidente da república por ele manipulável, foi-se rodeando de leais “ajudantes”, como ele lhes chamava, enxameando a administração pública de “boys” e de cargos inventados à medida das suas necessidades partidárias. Curiosamente, uma boa parte desses boys e ajudantes estão, hoje, indiciados ou relacionados com muitos dos casos de corrupção e outros crimes de colarinho branco que vão desfilando, pouco menos que impunemente, à frente do nossos olhos; apesar disso, o homem faz questão de se julgar acima de qualquer suspeita, como afirmou recentemente. E, assim, com o beneplácito divino da entrada na CEE, foi distribuindo e desperdiçando a preceito os fundos sem fundo destinados ao desenvolvimento do país. Ele foram fundos para investimento em explorações agrícolas e pecuárias que acabaram a pagar carros de alta cilindrada e brutas vivendas; ele foram subsídios para arrancar, plantar, voltar a arrancar, voltar a plantar e, finalmente, arrancar de vez, vinhas, olivais, pomares, etc; ele foram subsídios para a recuperação de casas destinadas a turismo de habitação cujos únicos turistas utilizadores são os seus ricos proprietários, de preferência filiados no partido; ele foram subsídios para desmantelar embarcações de pesca e alienar quase por completo as nossas frotas e quotas pesqueiras; ele foi um manancial de asneiras só possível devido à incompetência política para prever o futuro e à insensatez de governar para ganhar eleições. Mas também o povo viveu embotado e iludido esta oportunidade perdida da nossa história, enquanto Cavaco ia convencendo os crentes na sua infalibilidade com mais um histórico prodígio de presunção, digno de Luís XIV, o Rei Sol: “raramente me engano e nunca tenho dúvidas”. Àqueles que ousavam colocar alguma pedra na engrenagem cavaquista, apelidava-os de “forças de bloqueio” e responsabilizava-os pelas consequências negativas das suas decisões. Esta foi a herança deixada ao país pelo Sr. Cavaco, enquanto primeiro-ministro.
O povo percebeu, ao fim de dez anos de ilusão, os contornos dessa herança – atraso no desenvolvimento do país que começava a vislumbrar-se como fatura a pagar no futuro e autoritarismo bacoco e inculto de um líder com pés de barro que nem sabia quantos cantos tem a imortal obra de Camões, “Os Lusíadas”. Assim se explica a estrondosa derrota que lhe foi infligida na sua primeira tentativa para chegar à Presidência da República e os dez anos de travessia do deserto que se lhe seguiram. Mas ele sabia que a memória dos portugueses é curta e que era necessário deixar o esquecimento fazer o seu trabalho. Limitou-se, pois, durante esses dez anos, a mexer os cordelinhos na sombra e a lamber os danos sofridos na auréola. Pelo meio foi-se encarregando de destruir politicamente os que ameaçavam substituí-lo como figura tutelar do partido, como foi o caso de Santana Lopes.
E quando se deparou nova oportunidade não a desperdiçou. Aproveitando a memória curta e o inconsciente grande e profundo dos portugueses, donde nunca desapareceu a aura mística do sebastianismo, aliados ao maquiavélico e histórico erro de Sócrates, ao não apoiar a candidatura de Manuel Alegre, Cavaco chega onde sempre ambicionara – a magistratura suprema da nação. Para mal dos nossos pecados, como adiante se verá.



José Júlio Campos

segunda-feira, 29 de abril de 2013

TEMPOS DIFÍCEIS

Vivemos tempos difíceis. Não são fáceis de perceber as coordenadas económicas e sociais do espaço e do tempo em que nos movemos, dada a instabilidade do azimute político a que a união europeia, primeiro, e a moeda única, depois, nos acorrentaram. Levantam-se vozes que nos confundem e começa a desenhar-se, na mente do cidadão comum, a ideia de que a União Europeia não tem futuro. Pior: surgem, espectrais, os contornos de um logro em que, afinal, nos serve melhor o papel de vítimas do que o de réus, ao contrário daquilo que alguns, maquiavelicamente, nos têm feito crer. Começamos a temer que a oportunidade única do “eldorado” europeu se esteja a transformar num pesadelo que poderá levar mais de uma geração a dissipar-se. Algumas ideias, até há pouco tempo desgarradas e solitárias, começam a congregar-se num coro que é impossível não escutar.
Prevê-se que a crise na Europa desembocará, necessariamente, numa de três saídas: o fim da moeda única; a saída do euro por parte dos países “culpados” da crise – Grécia, Portugal e Chipre, seguramente, Irlanda, Espanha e Itália, plausivelmente; a saída do euro por parte dos países ricos e que, no entender deles, são a locomotiva da moeda única – a Alemanha e alguns países do norte da Europa que seguem a cartilha merkeliana. Seja qual for o desenlace, uma coisa é certa: a Europa não só não continuará a ser como era, como definitivamente jamais será aquilo que os seus mentores sonharam e desejaram. O conceito chave da construção europeia, a solidariedade entre os povos, está ferido de morte e a desconfiança que, no século XX, levou a duas guerras mundiais, alastra como denso nevoeiro na relação entre os países do norte e os do sul. Nestes, à revelia da opinião publicada, “certificada” e veiculada pelos partidos no poder, a opinião pública do senso comum começa a libertar-se das teses criadas e viralmente disseminadas pelos cérebros alemães, à medida em que estes vão deixando cair a máscara. Desde o episódio do inacreditável comportamento da Finlândia contra Portugal, aquando do nosso pedido de resgate, há dois anos atrás, até à recente declaração do ministro das finanças da Alemanha, segundo o qual o problema dos povos do sul da Europa é terem inveja dos alemães, passando pela constante atitude egoísta, agiota e chantagista da troika que, sistematicamente, tem dificultado as negociações da dívida dos países resgatados, têm-se revelado cabalmente as hipócritas intenções da Alemanha e seus satélites. Além disso, a recordação da responsabilidade da Alemanha na promoção de duas guerras mundiais que destruíram por duas vezes a Europa, aliadas ao facto de lhes ter sido perdoada uma dívida, consequente da responsabilidade pela 2ª Guerra Mundial que, só no caso da Grécia (uma das suas vítimas de então e de agora) era superior a 150 mil milhões de euros, contribui sobremaneira para agravar a ferida anti-germâmica que alastra no sul da Europa. Começa, aliás, a fazer caminho a tese de que a Alemanha estará a tentar, pela via económica e financeira, aquilo que não conseguiu pela via política e militar: o domínio total da Europa. Compreender-se-ia, à luz dessa estratégia, a forma como, mediante inesgotáveis subsídios, foi destruindo, pacientemente, o sector produtivo das economias do sul da Europa para, agora, qual cobrador do fraque, vir passar a fatura de uma crise criada pela banca internacional que tem precisamente a Alemanha como testa de ferro. Pode, mesmo, especular-se até que ponto não terá sido essa desconfiança profunda face às reais intenções dos alemães que terá levado os ingleses a não embarcar no canto da sereia da moeda única. Algo de que os franceses, historicamente mais crédulos e volúveis, estarão, agora, também, a ser vítimas devido à “ingenuidade” de Sarkozy, claramente reforçada, contra todas as expectativas, por François Hollande.
É, hoje, cada vez mais evidente que a Europa já não é “das nações” em pé de igualdade, mas de uma nação com vocação totalitária e dos interesses financeiros nela sedeados. Esse facto não augura nada de bom, existindo, pois, inúmeras razões para pensarmos que algo não vai bem no “reino” da Europa. As nuvens escurecem e a tempestade ameaça suceder à borrasca. Vivemos tempos difíceis.


José Júlio Campos

domingo, 31 de março de 2013

CARTA ABERTA AOS JOVENS DE HOJE

Caros jovens:
Convosco que nascestes nos últimos trinta anos, gostava de partilhar algumas reflexões sobre a atualidade e os problemas que enfrentamos, quando passam já trinta e oito anos depois do 25 de Abril de 1974.
Em primeiro lugar queria dizer que, apesar das óbvias diferenças entre a minha geração e a vossa, não sou daqueles que pensam que “no meu tempo é que era”, “os jovens de hoje não sabem nada” ou “sabia-se mais no meu tempo com a 4ª classe do que agora com tantos estudos”; digo-vos que quando eu tinha a vossa idade também ouvia dizer isso! Essa forma de pensar é típica de todas as gerações quando atingem a “velhice” e resulta de uma certa ignorância sobre a evolução cultural e social dos povos; é uma tendência natural para avaliar toda a realidade pela bitola que nos é transmitida na juventude, mas que pode tornar-se responsável por um certo mal-estar e incompreensão que muitas vezes se instala na relação entre gerações diferentes. Se há alguma coisa que vocês, jovens, dispensam perfeitamente são os paternalismos bacocos e as críticas infundadas. No entanto, tenho constatado que há algo para o qual estais perfeitamente abertos, diria mesmo, expectantes para receber de nós mais velhos: a chamada “experiência de vida”.
Posto este preâmbulo, passaria ao cerne desta reflexão.
Felizmente que, graças à geração dos vossos avós, a minha geração e a vossa já não teve de passar pela horrível experiência de viver num regime político ditatorial, caraterizado pela total falta de respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Eu tinha apenas dez anos quando o 25 de Abril pôs fim a um regime autoritário, repressivo e policial, onde, algo tão básico para nós como dizer o que pensamos, na rua, nos cafés, na comunicação social, até em família, podia ser motivo para uma perseguição que, quase sempre, terminava na estigmatização social, na prisão, na destruição de uma ou várias vidas. Os testemunhos dessa época estavam ainda muito vivos quando eu tinha a vossa idade e me fiz homem, ao contrário de hoje em que muita gente parece ter esquecido esses tempos, ou por estarem muito longínquos, ou por, como eu, mal os terem vivido. Mas eles existiram e é bom que não percamos a memória deles, porque um povo que perde a memória perde a identidade como se sofresse da doença de Alzheimer. Devemos essa mudança a todos aqueles que enfrentaram corajosamente um poder político infinitamente mais forte do que eles; e foram muitos os que pagaram com a vida, ou com um futuro para sempre hipotecado, essa sua coragem, resistência e inconformismo. E não esqueçamos que todas as revoluções são dolorosas. Teríamos nós essa mesma coragem se tivéssemos vivido nesse tempo? É uma questão que vos deixo para refletirdes, sabendo que não passa de uma mera hipótese académica. Mas … e se transpusermos a questão para uma realidade mais plausível e atual: e se hoje fosse necessário ter coragem para fazer outra revolução? Será que teríamos essa coragem ou preferiríamos a covardia de pensar que, enquanto o desemprego, a fome e a miséria não me afetar e for um problema do vizinho, eu não tenho que me preocupar com isso? Será que a atual situação de total descrença e quase desespero perante o futuro, que as atuais gerações no poder vos estão a criar, não será um motivo suficientemente forte para vos acordar da letargia e do conformismo em que vos acomodais no “ninho paterno”? Será que as condições de vida que se perfilam no horizonte da sociedade atual são menos atentatórias da dignidade humana do que as que levaram os nossos antepassados, no nosso e noutros países, a protagonizar revoltas libertadoras?
Consciente de que as grandes mudanças não se fazem num dia, exorto-vos apenas a que estejais atentos e reflitais sobre os problemas que enfrentamos no mundo atual; não vos acomodeis como aquela nêspera do poema de Mário Henrique Leiria, superiormente recitado pelo saudoso ator Mário Viegas:
Uma nêspera/ estava na cama /deitada/ muito calada /a ver /o que acontecia
chegou a Velha/ e disse/ olha uma nêspera /e zás comeu-a
é o que acontece /às nêsperas /que ficam deitadas/ caladas/ a esperar /o que acontece”


José Júlio Campos

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO E ELEITORAL

A crise económica, para além de nos estar a consumir a paciência e alguns dos direitos alcançados, com tantos sacrifícios, pelas gerações que nos antecederam, está, também, a contribuir para fazer surgir, com grande nitidez, algumas das contradições das democracias contemporâneas como é a nossa. Para além da reforma do sistema judicial, cujo funcionamento é visto como um cancro para o desenvolvimento do país, começa a tornar-se evidente a necessidade de uma reforma do sistema político e eleitoral. Reforma essa muito mais necessária do que “o rato parido pela montanha” da reforma administrativa em curso; a abolição de umas dezenas de freguesias é absolutamente inócua e irrelevante para o desenvolvimento do país e teve como único escopo atirar areia aos olhos do cidadão, concretizando a velha máxima reformista de que “é preciso que alguma coisa mude, para que continue tudo na mesma”. Mudança esta feita, mais uma vez, à custa do “mexilhão” e não do “peixe graúdo” que vai somando mordomias e sinecuras à frente dos municípios e cujos estômagos finos estão com enorme dificuldade em digerir uma tão simples como lógica limitação de mandatos.
A reforma do sistema político, tratando-se, como é o nosso, de um sistema parlamentar, devia começar, exatamente, pelo Parlamento. E a urgência dessa reforma assenta em várias razões. Em primeiro lugar porque, no atual sistema, os deputados representam os partidos que os propuseram e não os cidadãos que os elegeram; o Parlamento tornou-se o sustentáculo de uma partidocracia em que os deputados não passam de um grupo de marionetas que se movimentam pela vontade dos líderes partidários. Essa fidelidade canina a que chamam disciplina de voto contribui para reforçar a crença popular e populista de que temos deputados a mais. Efetivamente, se mais de metade dos deputados têm como única função de relevo sentarem-se, levantarem-se ou baterem palmas às ordens de quem lhes deu o “osso”, bem podíamos dispensá-los e aliviar as finanças públicas, aqui, sim, de forma significativa. No entanto, esta redução nunca poderia ser feita de modo a prejudicar a diversidade de “vozes” minoritárias diferentes, mas representativas do sentir nacional. Essa salvaguarda poderia passar pela criação de um círculo nacional único (até porque os deputados raramente defendem os distritos que os elegeram), ou por outra forma de apuramento que recuperasse as sobras de votos que se tornam “inúteis” em cada distrito. A não ser assim, seria muito pior a emenda dos 115 do que o soneto dos 230. Ainda neste sentido, deveria ser ponderada a possibilidade de outras organizações laicas de cidadãos poderem apresentar listas de candidatos, não restringindo essa faculdade aos partidos políticos.
Mas há mais. A partidocracia que se apoderou do Parlamento contribuiu, sobremaneira, para a perda de qualidade do debate parlamentar que se tornou de uma indigência atroz e cujo baixo nível argumentativo consegue superar o do discurso político produzido na própria comunicação social onde o contraditório é mais imediato e eficaz e, apesar de tudo, a diversidade de pontos de vista, também. Além disso, tendo-se transformado os partidos políticos em couto de oportunistas frustrados nas carreiras académicas ou profissionais (Relvas está muito longe de deter o exclusivo!), esse facto reflete-se, inexoravelmente, na qualidade ética e intelectual de deputados e governantes cuja única vocação política é a do “carreirismo”. Ora, sendo esse “carreirismo”, muito especialmente nos partidos do chamado “arco do poder”, a antecâmara da corrupção e da vilania, está aberto o caminho para colocar a atividade política ao serviço de interesses financeiros obscuros e mafiosos que vão tomando conta do país. Sobre este e outros temas vale a pena tomar atenção àquilo que vem dizendo o Dr. Paulo Morais, vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade, segundo o qual, “o centro da corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República”.
Torna-se, pois, evidente, a necessidade de redefinir o nosso sistema político, de modo a reabilitar os seus intervenientes aos olhos dos cidadãos e criar nestes a indispensável confiança nas instituições do estado e nos órgãos de soberania. Esta reforma é muito mais urgente do que qualquer refundação do estado social que mais não é do que a desejada destruição do mesmo às mãos dos tais interesses obscuros e perpetrada pelos tais “carreiristas” da nossa praça política.
Sendo esta reforma uma tarefa iniludivelmente delicada e complexa, é imprescindível um debate aberto e generalizado à sociedade civil que permita encontrar as melhores soluções pela via de uma fundamentação consensual.


José Júlio Campos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

AFINAL, SOMOS RICOS!...

A rocambolesca deriva do governo português aquando do episódio da última renegociação da dívida grega foi a prova inequívoca dos equívocos em que Passos Coelho e seus acólitos têm mergulhado de forma persistente. Vá lá perceber-se porquê.
Efetivamente, quando a Grécia, no início de dezembro, conseguiu um novo empréstimo da troika em condições bastante mais vantajosas do que as concedidas a nós e aos irlandeses, pensou-se, todos pensámos, inclusive o ministro Gaspar e o sr. Juncker, que chegara a hora de os nossos credores aliviarem o garrote da austeridade. A mais elementar lógica do bom senso fez nascer a esperança de uma renegociação que permitisse reduzir os juros que temos de pagar à banca troikiana e, quiçá, dilatar os prazos para esse pagamento, condição sine qua non, segundo economistas de todas as áreas políticas, para pensar em sair da crise. Se os gregos beneficiaram dessas condições, seria da mais elementar justiça que também os portugueses e os irlandeses beneficiassem. Essa esperança era tão legítima que até o ministro Gaspar cavalgou nela para Bruxelas depois de, ufanamente, a ter aparelhado no nosso Parlamento. O problema foi que nem Gaspar, nem Passos, nem Juncker, nem nenhum dos simples mortais portugueses contou com a retorcida lógica da deusa Merkel que, através do oráculo do seu ministro das finanças, fez ruir estrondosamente este sonho de uma noite de inverno, ao sibilar no Parlamento Europeu que nós, portugueses, não beneficiaríamos nada em ter melhores condições para pagar a dívida porque isso iria colocar-nos, aos olhos dos mercados financeiros, ao mesmo nível da Grécia e nós não deveríamos querer ser como os gregos por uma questão de credibilidade; ou seja, devíamos deixar-nos de devaneios, ter juizinho e continuarmos a portar-nos como alunos exemplares. Ajoelhado perante a argumentação merkeliana, mais não restou a Gaspar, mal aterrou em Bruxelas, que não fosse desmontar a, novamente, inopinada cavalgadura da esperança portuguesa e reassumir estoicamente as rédeas da paranóica montada do “custe o que custar”, qual D. Egas Moniz da lusitana mercearia. Sim, porque esta teimosia do governo português em apresentar-se de corda ao pescoço, perante os agiotas da troika, dando-lhes o beneplácito de eles a esticarem a seu bel-prazer, mais não é do que a manifestação de uma provinciana mentalidade de tendeiro, à boa maneira salazarenta, em que a economia do país é gerida à escala e por padrões de mercearia de bairro. A globalizada e nada ética economia internacional exige, hoje, outros modelos de relação económica, em que a negociação deve ser permanente e ter como objetivo a obtenção das maiores vantagens para cada país envolvido; os nossos governantes deviam ser uma espécie de nossos advogados a defender os nossos interesses nos areópagos internacionais. Afinal, não são. Afinal, como se provou com este episódio, os nossos governantes estão mais interessados em governar e defender os interesses do FMI, do BCE e dos tubarões da banca internacional que estão por trás dessas instituições, mesmo que a defesa desses interesses signifique mergulhar o povo português na mais completa pobreza, como preconiza Passos Coelho. Pobreza material e pobreza de espírito, como antigamente, antes do 25 de abril, a avaliar pelo que está a ser feito também na educação e na cultura.
Sejamos objetivos: nós não somos mais ricos do que a Grécia, como provaram os últimos cálculos dos respetivos PIB’s, para usufruirmos de condições muito mais exigentes do que as deles, num empréstimo semelhante, embora de menor dimensão; o argumento do “oráculo” alemão sobre o impacto nos mercados financeiros é tão retorcido que é exatamente o oposto – seguramente, os mercados ficariam mais confiantes na nossa economia se nós tivéssemos mais facilidades para pagar a dívida e pudéssemos mais rapidamente sair da recessão em que os juros dessa dívida persistem em nos afundar; os nossos credores já beneficiaram o suficiente com o empréstimo que nos fizeram e os respetivos juros, à taxa a que estamos a pagar, ajudam-nos mais a eles do que a nós; não só os gregos, atualmente, mas também os próprios alemães, no passado, beneficiaram de perdões de dívida para saírem das suas crises.
Assim sendo, e ao contrário da doutrina repetida até à exaustão pelo governo e pelos partidos que o sustentam irracionalmente, existem alternativas para começar uma saída da crise; o problema é que, quando essas alternativas são apontadas, eles fazem ouvidos de mercador e continuam teimosamente no “custe o que custar”, fugindo da palavra “renegociação” como o diabo da cruz. Porquê? Para salvar a face em termos políticos? Ou para defender os tais outros interesses? E, a ser esta a resposta, a troco de quê?
Por tudo isto, não faz sentido continuarem a fazer de nós pobres de espírito, antes do tempo, insistindo na falta de alternativas. Neste momento, o grande peso que impede a economia portuguesa de se levantar são os juros da dívida e os privilégios de que alguns continuam a usufruir, como os beneficiários das PPP’s e das rendas pagas pelo Estado. Então, é por aí que o governo deve enveredar e não pela destruição pura e dura da vida de milhões de portugueses como tem vindo a fazer.



José Júlio Campos

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PADRE FONSECA: INICIATIVA E VISÃO AO SERVIÇO DO OUTRO

O sr. Padre Fonseca foi, a todos os títulos, um homem extraordinário, sem dúvida uma das figuras determinantes na história de Aguiar da Beira. Tive o privilégio de trabalhar e conviver com ele nos últimos anos da sua vida.
A nível pessoal, o padre Fonseca era de uma grande afabilidade para com todos. A simpatia e o permanente sorriso nos lábios eram a sua imagem de marca. Mas o seu sorriso significava mais do que mera simpatia – ele era, também, um sinal da bondosa ironia com que interpretava pessoas e acontecimentos, a partir da sua experiência de vida e perspicácia, algo que ficou indelevelmente marcado nas crónicas por ele escritas, regularmente, no jornal “Defesa da Aldeia” e, sugestivamente, intituladas de “Sorridendo”. Sendo um grande orador no serviço eclesiástico, não era, no trato diário, uma pessoa de grandes discursos, ou de dialéticas intermináveis; no entanto, as suas pensadas e sensatas palavras, quase sempre certeiras, simples e plenas de significado, eram sinal evidente de uma inteligência social muito acima da média. Para além dessa afabilidade e dessa ironia, a simplicidade era outra das suas muitas virtudes; tinha hábitos de vida muito frugais, desprezando completamente todo o tipo de luxos, extravagâncias ou ostentações. Um velhinho “carocha” foi o carro que o transportou até aos últimos dias da sua vida, apesar de inúmeras vezes ter sido incentivado e aliciado para adquirir mais moderna viatura.
Penso que era nesta vida regrada e sóbria que o sr. Padre Fonseca ia buscar a força que o levou, também, a ser um homem de grandes iniciativas. Aquelas que tiveram mais visibilidade e marcaram a vida dos aguiarenses foram, sem dúvida, o projeto de auto-construção e a criação do colégio de Aguiar da Beira. A auto-construção, sendo totalmente pioneira, permitiu a muitos jovens casais construir a sua própria habitação a partir do seu trabalho nos tempos livres e dos materiais que o padre Fonseca ia angariando. O colégio, Externato de Aguiar da Beira, contribuiu para colocar o concelho no reduzido mapa do ensino pré-liceal no interior do país e para alargar a possibilidade de frequência desse ensino a muitos jovens que, sem ele, nunca teriam ido além da antiga 4ª classe. E mesmo quando os ventos do progresso impuseram a criação de escolas públicas, a Preparatória, primeiro, e a Secundária, mais tarde, não só nunca se opôs, como alguns maldosamente quiseram fazer crer, mas, pelo contrário, contribuiu decisivamente para que essas escolas fossem uma realidade: foi ele que alugou uma parte do seu colégio para que funcionasse a Escola Preparatória e, mais tarde, foi ele que doou os terrenos para a construção da atual sede do Agrupamento de Escolas. Ninguém fez mais pelo ensino, em Aguiar da Beira, do que ele.
A sua generosidade levou-o, ainda, a doar terrenos ao município para que pudessem ser construídas habitações tendo, dessa forma, ajudado muitos outros aguiarenses. As suas inúmeras iniciativas, impossíveis de descrever neste simples testemunho, foram sempre apontadas ao progresso e ao desenvolvimento de Aguiar da Beira.
Sei que levou, com ele, alguns sonhos por concretizar, nomeadamente a construção de um grande e digno Santuário em honra de Nossa Senhora da Estrada, que ele tanto venerava, e a implementação de uma escola profissional que pudesse oferecer aos jovens outras possibilidades de formação; além destes sonhos, que a partida algo inesperada não lhe permitiu concretizar, o sr. Padre Fonseca tinha, também, em mente, avançar com um projeto de reflorestação do concelho.
Por tudo isto e muito mais, o padre José Augusto da Fonseca foi, sem dúvida, um homem de iniciativas, de obras e de sonhos. Um pioneiro, um empreendedor e um visionário. Foi para homens da sua estirpe que Fernando Pessoa escreveu o tão conhecido e citado verso “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

José Júlio Campos